Raízes portuguesas: montanhismo e pedestrianismo, a pré-história do trail
O trail running não nasceu do nada em Portugal. Quando chegou, encontrou oito décadas de cultura de montanha organizada — esqui federado em 1928, o primeiro clube alpino em 1943, o campismo e o montanhismo federados em 1945/1991, a orientação em 1990, os percursos pedestres nos anos 90 — e uma raiz muito mais antiga de deslocação pedestre serrana. A pré-história do trail português é a história de andar na montanha.
Raízes portuguesas: montanhismo e pedestrianismo, a pré-história do trail
Esqui em 1928, o primeiro clube alpino em 1943, a federação de campismo em 1945, a orientação em 1990, os percursos pedestres nos anos 90. Quando o trail chegou, a casa da montanha já estava construída.
O trail não nasceu do nada. Quando chegou, encontrou o país com oito décadas de cultura de montanha organizada — e uma raiz muito mais antiga de andar a pé na serra. A palavra era nova; o terreno, os clubes e as pessoas, não.
Na imagem corrente, o trail português começa algures entre a Serra da Freita de 2005 e o MIUT de 2008. Mas o terreno em que assentou já estava trabalhado: havia clubes alpinos desde os anos 40, esqui federado desde os anos 20, uma federação de campismo e montanhismo desde 1945, orientação — correr o mapa em terreno natural — desde 1990, e uma rede de percursos pedestres a nascer nos anos 90. Muitos dos primeiros trail runners não vieram da estrada: vieram destas comunidades. Este dossiê defende que a pré-história do trail é a história de andar na montanha.
1) Uma pré-história sem historiadores
A série tem repetido, porque é verdade, que não existe historiografia académica do trail running português. O mesmo vale, com mais força, para a sua pré-história: não há uma história do montanhismo, do campismo ou do pedestrianismo escrita com distância e método. O que há são marcos institucionais datáveis — datas de fundação publicadas pelas próprias federações e clubes — e memória dispersa por sítios oficiais, blogues de veteranos e arquivos de património imaterial. É com esses marcos que se constrói este dossiê: não uma narrativa fechada, mas uma cronologia com fonte.
Quando, a partir de 2005, o trail moderno chega em força, encontra tudo isto já montado.
2) A raiz mais funda: andar na serra a pé
Antes de qualquer federação, antes de qualquer desporto, os portugueses das terras altas já andavam na montanha a pé — não por lazer, mas por comunicação, pastoreio e devoção. As romarias de altura criaram uma cultura de deslocação pedestre em terreno natural que antecede a modalidade em muitas gerações [R3]. O exemplo mais documentado é a Romaria de Nossa Senhora da Peneda (Serra da Peneda, Arcos de Valdevez): a maior do Alto Minho, com mais de oitocentos anos, em que os romeiros atravessavam a montanha a pé por caminhos de pastores — «ir à Peneda» implicava conhecer cada lugar da serra antes de chegar ao santuário [R627].
É deslocação pedestre serrana na sua forma mais pura: longa, penosa, colectiva, marcada por lugares de paragem — uma gramática do movimento em montanha que o trail viria, séculos depois, a redescobrir com outro vocabulário. Não se force a analogia: a romaria não é desporto, e ninguém a corria. Mas a cultura do caminho de montanha é a camada mais antiga desta pré-história — e sobrevive, hoje, em percursos pedestres homologados que decalcam antigos trajectos de romeiros.
3) 1928–1966: o esqui e o alpinismo, a montanha vira desporto
A primeira montanha portuguesa a virar-se para o desporto foi a Serra da Estrela, pela porta do esqui: desde 1928, o Ski Clube de Portugal organizou e regulamentou as provas de esqui, até 1953, ano em que surgem na Estrela o Clube Nacional de Montanhismo e a Escola de Esqui [R626]. As Penhas da Saúde, hoje sinónimo de neve, tinham sido erguidas no fim do século XIX como estância de altitude para o tratamento da tuberculose — outra forma, mais dramática, de o país subir à montanha antes de a correr.
Mas o marco decisivo é anterior e fica no Porto. Em Novembro de 1943 nasce o Clube Nacional de Montanhismo (CNM), por impulso do Dr. Jorge Santos, adoptando o subtítulo «Clube Alpino Português»; ficou legalmente constituído a 21 de Março de 1944 [R621][R618]. É, tanto quanto a pesquisa apurou, o primeiro clube alpino português. Criou os Guias Montanheiros de Portugal — escola de montanhismo nos anos 40 e 50 —, envolveu-se no processo fundador da união internacional de alpinismo e, em 1947, trouxe guias do Clube Alpino Francês a Portugal [R621].
O ponto, para a série, não é o alpinismo em si — é que, quando o ultra trail chegou e se falou de «pioneiros da montanha», já havia meio século de gente organizada a subir. Carlos Sá, o mais conhecido dos primeiros ultra-trailers, «iniciou-se no montanhismo antes de descobrir o ultra trail» (Dossiê 01): a frase resume a herança. B — blogue com autoria + sítios oficiais (CNM/FPME)
4) 1945: o campismo federa-se, e a montanha vem atrás
Enquanto o alpinismo se organizava em clube, o campismo organizava-se em federação — e seria por dentro dessa federação que o montanhismo ganharia estrutura nacional. Os estatutos da Federação Portuguesa de Campismo foram aprovados a 3 de Março de 1945 [R617]. A entrada do montanhismo não é um acto único: a federação passou a ter competência formal sobre o montanhismo em 1991 — a data que o artigo-base regista —, mas a própria história oficial da montanha descreve-o como já activo desde meados dos anos 80, sob o SNAM (Secretariado Nacional de Actividades de Montanha) [R617][R618]. Em 2003, a federação adopta o nome que ainda usa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) [R617].
Esta é a entidade que, até hoje, homologa os percursos pedestres em Portugal — o que faz do campismo, e não do atletismo, a raiz federativa mais directa do «andar e correr em trilhos». Um facto que contraria a intuição: a infraestrutura de trilhos marcados do país não saiu das federações de corrida, saiu da federação das tendas.
5) 1990: a orientação, correr o mapa
Há um ramo desta pré-história que é quase trail antes do trail: a orientação. Correr em terreno natural, mapa e bússola na mão, à procura de balizas — o gesto federado mais próximo do trail running, e chegou a Portugal com estrutura própria uma década antes das primeiras corridas de montanha. A Associação Portuguesa de Orientação nasce em 1987 e dá origem à Federação Portuguesa de Orientação (FPO), fundada a 19 de Dezembro de 1990 [R625].
O cruzamento com o trail não é abstracto: o Clube de Montanha do Funchal — que viria a criar o MIUT — cresceu justamente pela sua secção de orientação antes de chegar ao trail (secção 7). A orientação foi, para muitos, a escola de correr fora do asfalto: leitura de terreno, gestão de esforço em piso irregular, autonomia. Quando o trail apareceu, encontrou praticantes que já sabiam mover-se num mapa que não tinha ruas.
6) Os anos 90: marcar os trilhos
Para haver percursos onde correr, foi preciso primeiro marcá-los — e essa infraestrutura é também dos anos 90 e de matriz pedestre. A década de 1990 é a referência para a introdução do pedestrianismo organizado em Portugal: normas de marcação, primeiros percursos sinalizados, primeiras publicações [R628]. O sistema, gerido pela FCMP, distingue Grande Rota (GR) — mais de um dia e mais de 30 km — de Pequena Rota (PR) — até 30 km, de âmbito concelhio [R619]. O primeiro percurso homologado terá sido o PR1 «Rota da Serra», em Grândola, em 1997 [R620]. Muitos dos trilhos por onde o trail viria a correr são, literalmente, estes GR e PR marcados na década anterior à sua chegada.
7) Os clubes que fizeram a ponte
Se há um lugar onde a pré-história toca o trail sem intermediários, é nos clubes de montanha fundados nos anos 90 — associações de montanhismo, orientação e caminhada que, uma década depois, se tornariam organizadoras de trail.
O caso mais límpido é o Clube de Montanha do Funchal, fundado a 15 de Outubro de 1992 por oito pessoas e constituído em 1993, para promover as actividades de montanha de forma organizada [R622]. Nasceu montanhismo e orientação; tornou-se o organizador do MIUT (Dossiê 14). No continente, dois exemplos do Norte: os Amigos da Montanha formaram-se a 6 de Julho de 1994, em Barcelinhos (Barcelos), e oficializaram-se em 1999; viriam a ligar-se à recuperação de trilhos após os incêndios (Dossiê 17) [R623]. E o Clube Celtas do Minho, de Vila Nova de Cerveira, nasce em 1997 e, a partir de 2001, organiza o Fórum Ibérico da Montanha — onde, segundo o próprio clube, se impulsionou a criação da futura federação de montanhismo [R624].
Estes clubes têm em comum um traço que importa sublinhar: não eram clubes de corrida. Eram clubes de montanha. Quando o trail chegou, não foi preciso inventar organizadores — os organizadores já existiam, só mudaram de vocabulário. A/B — sítios oficiais dos clubes
8) 2002: a montanha ganha federação própria
A pré-história fecha-se quase onde começa a história moderna: a 20 de Julho de 2002, em assembleia constituinte em Espinho, funda-se a Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME) [R618]. A autonomização face à federação de campismo tem uma narrativa conhecida — a da própria FPME, que é parte interessada e como tal se assinala: a autonomia que o SNAM garantira aos clubes foi-se desmantelando ao longo dos anos 90, e a ruptura acentuou-se depois de a federação de campismo obter o reconhecimento estatal [R618]. Esse atrito, e o que dele resulta quando o trail explode, é matéria do Dossiê 20 — não se antecipa aqui.
O que importa a este dossiê é o inverso: quando, poucos anos depois de 2002, o trail moderno chega em força, encontra a casa da montanha já construída — federação, clubes, percursos marcados, praticantes formados na orientação e no montanhismo, e uma cultura serrana de andar a pé com séculos. O trail não teve de fundar a montanha portuguesa. Herdou-a.
9) Leitura crítica e lacunas
Herança não é linha causal. O risco desta narrativa é transformar uma sequência de datas numa causalidade limpa — como se do esqui de 1928 saísse, por dedução, o MIUT de 2008. Não sai. Muitas destas linhagens (o alpinismo de altitude, o esqui, a orientação) tocam o trail só de raspão, e a modalidade também importou muito de fora, sobretudo o modelo UTMB (Dossiês 22 e 53). Afirma-se algo mais modesto e mais sólido: existia infraestrutura e cultura de montanha antes do trail, e parte dos protagonistas e dos trilhos vieram dela.
A pré-história está mal documentada. Este dossiê é uma cronologia com fonte, não uma síntese historiográfica; várias datas assentam em sítios das próprias instituições (interessadas nas suas origens) ou em blogues especializados. Ficam por fechar: datar o primeiro Grande Rota; confirmar em documento primário o primeiro percurso pedestre; documentar o pedestrianismo popular pré-1990; e recolher testemunhos de veteranos do montanhismo e da orientação que fizeram a transição para o trail — uma geração ainda contactável.
10) Convite ao contraditório e contributos
Este é um dossiê de pré-história, e a pré-história corrige-se com quem a viveu. São especialmente bem-vindos contributos documentados sobre: a história dos clubes de montanha anteriores a 2000 e dos seus fundadores; o pedestrianismo e as marchas dos anos 80, com datas e cartazes; a datação do primeiro GR e do primeiro PR homologados; a transição pessoal de praticantes que vieram do montanhismo, do esqui ou da orientação para o trail; e memória do SNAM e da autonomização de 2002 vista de dentro dos clubes. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.
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