A Geira Romana: dois mil anos de percurso, uma prova de trail

Uma prova que não desenha o seu percurso — herda-o. Corre-se sobre a Via XVIII romana, Monumento Nacional, entre Braga e a Galiza.

Há provas que inventam o terreno e provas que o herdam. A Ultra Trail Geira corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — a Via XVIII, Monumento Nacional — entre o Gerês e a Galiza. Foi aqui que Carlos Sá começou nas ultras. Palmarés verificado 2008–2019, o substrato patrimonial e o enigma da numeração das edições recentes.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 15

A Geira Romana: dois mil anos de percurso, uma prova de trail

Há provas que inventam o seu terreno e provas que o herdam. Esta corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — e não desenha um percurso, reencontra um.

🏛️ Via XVIII · Gerês · Galiza 📚 Dossiê 15 · desde 2008 ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Rascunho estruturado — substrato histórico e palmarés 2008–2019 verificados (confiança A). A numeração das edições recentes fica com ressalva explícita (fontes incompatíveis) e a participação por edição por obter. Contém memória vivida do autor, assinalada como tal.
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal». Lê-se em diálogo com os dossiês sobre Carlos Sá (que começou aqui nas ultras), a Confraria Trotamontes e os arquivistas (o caso de fragilidade de arquivo da Geira).

Há provas que inventam o seu terreno e há provas que o herdam. A Ultra Trail Geira e Via Nova Romana pertence à segunda espécie: corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — a Via XVIII, ou «Geira» — que ligava Braga a Astorga e é hoje Monumento Nacional. O trail, aqui, não desenha um percurso: reencontra um.

Declaração de proximidade. A primeira ultramaratona do autor desta série foi a III edição da Geira, em Maio de 2010. A memória que daí entra no texto está identificada como testemunho; a análise da prova assenta em fontes externas.

1) A estrada: o que é a «Geira»

Antes de ser prova, a Geira é uma estrada. A Via XVIII do Itinerário de Antonino — também dita Via Nova ou Geira — ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga), num traçado de 240 milhas romanas, cerca de 318 km. Foi construída no último quartel do século I d.C., sob a dinastia Flávia, com conclusão por volta do ano 80. [R10; R512.]

O que a torna excepcional é a densidade do registo: conserva a maior concentração de marcos miliários de todo o Império Romano — 140 inventariados, 102 ainda in situ. Por isso é Monumento Nacional (Decreto n.º 5/2013, de 6 de Maio). O marco zero fica em Braga; Terras de Bouro preserva cerca de 30 km da via, entre as milhas XIV e XXXIV. [R10; R513.]

Critério editorial — «correr sobre dois mil anos»
Não é licença poética: o percurso acompanha, em vários troços, o traçado da via e passa junto a miliários originais. Mas o percurso de prova é uma adaptação contemporânea (partidas, chegadas e desvios mudaram ao longo das edições), não a reconstituição integral da estrada antiga.

2) A prova: origem e cronologia

A primeira edição correu-se a 1 de Junho de 2008, sobre 45,1 km, com 170 participantes. [R26.] A organização mantém-se: o .COM — Clube de Orientação do Minho (Braga, fundado em 2002) e a Confraria Trotamontes (o colectivo de José Moutinho, o mesmo núcleo fundador da UTSF — Dossiês 03/04/09), com apoio dos municípios de Amares e Terras de Bouro e, do lado galego, de Lóbios. É uma prova transfronteiriça: a via atravessa a Portela do Homem para a Galiza. [R26; R511.]

A distância oscilou entre 43 e 52,5 km e estabilizou nos 50 km. O formato actual (2026) soma Ultra de 50 km, Trail de 18 km e caminhada; parte do Museu da Geira (Terras de Bouro) e termina em Caldelas (Amares), com ~1.820 m de desnível positivo. [R515; R516.]

Ed.AnoDist.VencedorTempoVencedoraTempo
I200845 kmAsdrúbal Freitas3:37:59Ana Helena Vieira4:30:45
II200945 kmCarlos Sá3:37:39Susana Simões4:39:40
III201050 kmHélder Ferreira4:03:07Carla Mendes5:54:15
IV201143 kmÓscar Ferreira3:21:07Susana Simões4:15:42
V201252,5 kmAsdrúbal Freitas3:45:45Margarida Pinto5:29:41
VI201350 kmAlbino Daniel3:55:18Cristina Coutinho5:39:10
VII201452,5 kmAsdrúbal Freitas4:14:22Susana Neta6:06:01
VIII201550 kmRaul Mantilla Gil4:12:52Raquel Alves Ferreira5:53:16
IX201650 kmRicardo Miranda4:35:48Paula Lage5:46:27
X201750 kmRicardo Silva3:50:05Inês Marques4:40:20
XI201850 kmBruno Ferreira4:09:54Catarina Fernandes5:33:45
XII201950 kmSérgio Sá4:06:36Rita Loureiro5:09:59

Palmarés das doze primeiras edições — arquivo de resultados, confiança A [R26]. Asdrúbal Freitas venceu três vezes (2008, 2012, 2014); Susana Simões duas; Inês Marques (Dossiê 06) venceu a feminina em 2017.

3) Carlos Sá começa aqui

O nome que mais liga a Geira ao resto da história é o de Carlos Sá: 2.º na primeira edição (2008) e vencedor da segunda (2009), em 3:37:39. [R26; R7.] Foi na Geira que se iniciou nas ultramaratonas, antes do Grand Raid des Pyrénées (2010) e da Badwater (2013) do Dossiê 01. A prova matricial da sua carreira internacional não foi uma corrida de marca — foi uma ultra de 45 km sobre uma estrada romana, organizada por um clube de orientação e uma confraria de montanha.

Memória vivida — a primeira ultra do autor. Escrevo na primeira pessoa, porque dela sou testemunha directa. A minha estreia na distância ultra foi na III Geira, em Maio de 2010 (50 km) — um mês antes da UTSF desse ano (Dossiê 04). Correr tão cedo uma prova assente na via romana foi entrar no trail português pela sua raiz histórica, não pelo cronómetro. [R281.] (Testemunho directo do autor — Zona 3.)

4) Arqueologia em movimento

A dimensão que distingue a Geira é a patrimonial. Os corredores passam por miliários originais, atravessam a Mata de Albergaria (vale do rio Homem, no Parque Nacional da Peneda-Gerês), contornam a albufeira de Vilarinho das Furnas e sobem à Portela do Homem, na fronteira. Em Campo do Gerês, o cruzeiro de São João do Campo incorpora um miliário do imperador Décio (249–251). [R512.] Desde Junho de 2013 há um Museu da Geira em Terras de Bouro — hoje partida da prova. [R513.]

O trail funciona aqui como instrumento de divulgação patrimonial — leva à Geira gente que de outro modo nunca lá iria. Mas seria erro celebrá-lo como se o desporto preservasse a via: quem cuida da pedra são o ICNF, a DGPC e as autarquias, não a prova. A relação é de mútuo benefício, não de tutela.

5) A prova que quase não deixou rasto

Há uma ironia documental que a série não cala. A Geira é, ao mesmo tempo, uma das provas mais bem arquivadas (o palmarés 2008–2019 sobrevive graças ao arquivo de João Lima [R26]) e um dos casos mais eloquentes de fragilidade de arquivo do trail português: como se documenta no Dossiê 12, não tem um único instantâneo na Wayback Machine [R471]. Só foi recuperada porque os ficheiros continuavam no sítio vivo; e a edição de 2010 esteve ausente de todos os arquivos digitais, recuperada de uma folha de cálculo pessoal. Uma prova sobre dois mil anos de estrada quase se perdeu na primeira década da sua própria memória digital.

6) O enigma das edições

Aqui o dossiê é honesto sobre um buraco que não fecha. A numeração das edições recentes é incoerente entre fontes. O arquivo de resultados fixa 2019 = XII edição [R26]. Mas a Câmara de Terras de Bouro descreve 2025 como 15.ª (XV) [R514], e o regulamento da ATRP dá 2026 como XVII [R515] — contagens mutuamente incompatíveis (se 2025 é a XV, 2026 seria a XVI). A leitura mais coerente é que 2020 e 2021 não se realizaram (hipótese pandémica plausível, não confirmada) e que a numeração ficou instável a partir de 2022. Tratamos 2008–2019 como espinha dorsal verificada e as edições recentes com ressalva.

7) Limites e lacunas

Lacunas prioritárias
  • Numeração e palmarés 2022–2026 — reconstituir via Wayback (Confraria) e plataformas de resultados (Lap2Go, DUV, MYATRP).
  • Regulamento original de 2008 — sítio da .COM da época em baixo; recuperar no Wayback.
  • Participação por edição — só confirmado ~400 (todas as provas) em 2013.
  • Origem da ideia — quem propôs correr sobre a Geira, e porquê.
  • Confirmação textual do Decreto n.º 5/2013 no Diário da República.
  • Realização de 2020 e 2021 — confirmar cancelamento/adiamento.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Correste a Geira, ou conheces a sua história? São especialmente úteis: a história institucional da prova e da parceria .COM / Confraria Trotamontes desde 2008; classificações de 2020 em diante (para fechar palmarés e numeração); testemunhos da primeira Geira que correste; e fotografia/vídeo com licença para uso editorial. Os comentários abaixo (ou o email do rodapé do blog) são o sítio certo.
Referências e remissões
[R10] Município de Terras de Bouro — Via XVIII / Geira (miliários; Monumento Nacional, Dec. 5/2013). Verificado.
[R26] João Lima — arquivo Geira Via Nova Romana (resultados 12 edições, 2008–2019). Verificado (confiança A).
[R281] dorsal1967 — «A minha primeira vez… que fiz uma Ultra» (blog do autor). Verificado; memória vivida.
[R471] Trail Results Archive (série) — caso Geira: zero snapshots Wayback. Verificado (Dossiê 12).
[R511] .COM — VI Ultra Trail da Geira (2013): formato, co-organização, ~400 atletas. Verificado.
[R512] Parque Nacional Peneda-Gerês — «A Geira Romana». Verificado.
[R513] Município de Terras de Bouro — Museu da Geira (Jun. 2013; ~30 km preservados). Verificado.
[R514] Terras de Bouro — notícia da edição de 2025 (dita «15.ª»). Verificado; ver ressalva §6.
[R515] ATRP — Regulamento «XVII Ultra Geira 2026» (26 Abr. 2026). Verificado; ver ressalva §6.
[R516] Portugal Running / Finishers — ficha da prova (formato 2026). Verificado.
[R7] Carlos Sá — cobertura biográfica (palmarés Geira). Verificado (via Dossiê 01).
Remissões internas da série: Dossiês 01 (Carlos Sá), 03/04 (Freita e Confraria Trotamontes), 09 (clubes), 12 (arquivistas — fragilidade de arquivo), 06 (Inês Marques), 16 (património territorial).
Rascunho estruturado: espinha dorsal 2008–2019 verificada; numeração das edições recentes com ressalva; participação por edição por obter (secção 7).
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