A Geira Romana: dois mil anos de percurso, uma prova de trail
Há provas que inventam o terreno e provas que o herdam. A Ultra Trail Geira corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — a Via XVIII, Monumento Nacional — entre o Gerês e a Galiza. Foi aqui que Carlos Sá começou nas ultras. Palmarés verificado 2008–2019, o substrato patrimonial e o enigma da numeração das edições recentes.
A Geira Romana: dois mil anos de percurso, uma prova de trail
Há provas que inventam o seu terreno e provas que o herdam. Esta corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — e não desenha um percurso, reencontra um.
Há provas que inventam o seu terreno e há provas que o herdam. A Ultra Trail Geira e Via Nova Romana pertence à segunda espécie: corre-se sobre uma estrada romana de dois mil anos — a Via XVIII, ou «Geira» — que ligava Braga a Astorga e é hoje Monumento Nacional. O trail, aqui, não desenha um percurso: reencontra um.
1) A estrada: o que é a «Geira»
Antes de ser prova, a Geira é uma estrada. A Via XVIII do Itinerário de Antonino — também dita Via Nova ou Geira — ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica Augusta (Astorga), num traçado de 240 milhas romanas, cerca de 318 km. Foi construída no último quartel do século I d.C., sob a dinastia Flávia, com conclusão por volta do ano 80. [R10; R512.]
O que a torna excepcional é a densidade do registo: conserva a maior concentração de marcos miliários de todo o Império Romano — 140 inventariados, 102 ainda in situ. Por isso é Monumento Nacional (Decreto n.º 5/2013, de 6 de Maio). O marco zero fica em Braga; Terras de Bouro preserva cerca de 30 km da via, entre as milhas XIV e XXXIV. [R10; R513.]
2) A prova: origem e cronologia
A primeira edição correu-se a 1 de Junho de 2008, sobre 45,1 km, com 170 participantes. [R26.] A organização mantém-se: o .COM — Clube de Orientação do Minho (Braga, fundado em 2002) e a Confraria Trotamontes (o colectivo de José Moutinho, o mesmo núcleo fundador da UTSF — Dossiês 03/04/09), com apoio dos municípios de Amares e Terras de Bouro e, do lado galego, de Lóbios. É uma prova transfronteiriça: a via atravessa a Portela do Homem para a Galiza. [R26; R511.]
A distância oscilou entre 43 e 52,5 km e estabilizou nos 50 km. O formato actual (2026) soma Ultra de 50 km, Trail de 18 km e caminhada; parte do Museu da Geira (Terras de Bouro) e termina em Caldelas (Amares), com ~1.820 m de desnível positivo. [R515; R516.]
| Ed. | Ano | Dist. | Vencedor | Tempo | Vencedora | Tempo |
|---|---|---|---|---|---|---|
| I | 2008 | 45 km | Asdrúbal Freitas | 3:37:59 | Ana Helena Vieira | 4:30:45 |
| II | 2009 | 45 km | Carlos Sá | 3:37:39 | Susana Simões | 4:39:40 |
| III | 2010 | 50 km | Hélder Ferreira | 4:03:07 | Carla Mendes | 5:54:15 |
| IV | 2011 | 43 km | Óscar Ferreira | 3:21:07 | Susana Simões | 4:15:42 |
| V | 2012 | 52,5 km | Asdrúbal Freitas | 3:45:45 | Margarida Pinto | 5:29:41 |
| VI | 2013 | 50 km | Albino Daniel | 3:55:18 | Cristina Coutinho | 5:39:10 |
| VII | 2014 | 52,5 km | Asdrúbal Freitas | 4:14:22 | Susana Neta | 6:06:01 |
| VIII | 2015 | 50 km | Raul Mantilla Gil | 4:12:52 | Raquel Alves Ferreira | 5:53:16 |
| IX | 2016 | 50 km | Ricardo Miranda | 4:35:48 | Paula Lage | 5:46:27 |
| X | 2017 | 50 km | Ricardo Silva | 3:50:05 | Inês Marques | 4:40:20 |
| XI | 2018 | 50 km | Bruno Ferreira | 4:09:54 | Catarina Fernandes | 5:33:45 |
| XII | 2019 | 50 km | Sérgio Sá | 4:06:36 | Rita Loureiro | 5:09:59 |
Palmarés das doze primeiras edições — arquivo de resultados, confiança A [R26]. Asdrúbal Freitas venceu três vezes (2008, 2012, 2014); Susana Simões duas; Inês Marques (Dossiê 06) venceu a feminina em 2017.
3) Carlos Sá começa aqui
O nome que mais liga a Geira ao resto da história é o de Carlos Sá: 2.º na primeira edição (2008) e vencedor da segunda (2009), em 3:37:39. [R26; R7.] Foi na Geira que se iniciou nas ultramaratonas, antes do Grand Raid des Pyrénées (2010) e da Badwater (2013) do Dossiê 01. A prova matricial da sua carreira internacional não foi uma corrida de marca — foi uma ultra de 45 km sobre uma estrada romana, organizada por um clube de orientação e uma confraria de montanha.
4) Arqueologia em movimento
A dimensão que distingue a Geira é a patrimonial. Os corredores passam por miliários originais, atravessam a Mata de Albergaria (vale do rio Homem, no Parque Nacional da Peneda-Gerês), contornam a albufeira de Vilarinho das Furnas e sobem à Portela do Homem, na fronteira. Em Campo do Gerês, o cruzeiro de São João do Campo incorpora um miliário do imperador Décio (249–251). [R512.] Desde Junho de 2013 há um Museu da Geira em Terras de Bouro — hoje partida da prova. [R513.]
O trail funciona aqui como instrumento de divulgação patrimonial — leva à Geira gente que de outro modo nunca lá iria. Mas seria erro celebrá-lo como se o desporto preservasse a via: quem cuida da pedra são o ICNF, a DGPC e as autarquias, não a prova. A relação é de mútuo benefício, não de tutela.
5) A prova que quase não deixou rasto
Há uma ironia documental que a série não cala. A Geira é, ao mesmo tempo, uma das provas mais bem arquivadas (o palmarés 2008–2019 sobrevive graças ao arquivo de João Lima [R26]) e um dos casos mais eloquentes de fragilidade de arquivo do trail português: como se documenta no Dossiê 12, não tem um único instantâneo na Wayback Machine [R471]. Só foi recuperada porque os ficheiros continuavam no sítio vivo; e a edição de 2010 esteve ausente de todos os arquivos digitais, recuperada de uma folha de cálculo pessoal. Uma prova sobre dois mil anos de estrada quase se perdeu na primeira década da sua própria memória digital.
6) O enigma das edições
Aqui o dossiê é honesto sobre um buraco que não fecha. A numeração das edições recentes é incoerente entre fontes. O arquivo de resultados fixa 2019 = XII edição [R26]. Mas a Câmara de Terras de Bouro descreve 2025 como 15.ª (XV) [R514], e o regulamento da ATRP dá 2026 como XVII [R515] — contagens mutuamente incompatíveis (se 2025 é a XV, 2026 seria a XVI). A leitura mais coerente é que 2020 e 2021 não se realizaram (hipótese pandémica plausível, não confirmada) e que a numeração ficou instável a partir de 2022. Tratamos 2008–2019 como espinha dorsal verificada e as edições recentes com ressalva.
7) Limites e lacunas
- Numeração e palmarés 2022–2026 — reconstituir via Wayback (Confraria) e plataformas de resultados (Lap2Go, DUV, MYATRP).
- Regulamento original de 2008 — sítio da .COM da época em baixo; recuperar no Wayback.
- Participação por edição — só confirmado ~400 (todas as provas) em 2013.
- Origem da ideia — quem propôs correr sobre a Geira, e porquê.
- Confirmação textual do Decreto n.º 5/2013 no Diário da República.
- Realização de 2020 e 2021 — confirmar cancelamento/adiamento.
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