A pandemia (2020–2021): quando o trail português parou — e o que isso revelou

Dois confinamentos, o calendário parado, os clubes a inventar campeonatos virtuais, a ATRP a responder em 48 horas — e a elite mundial reunida nos Aço

A pandemia foi, para o trail português, interrupção e revelador ao mesmo tempo. Cancelou o calendário de 2020 — mas os clubes inventaram campeonatos virtuais, a ATRP respondeu em 48 horas, e a elite mundial reuniu-se nos Açores no ano em que tudo fechou. A curva de quebra e retoma que os números confirmam tem uma nuance: parte do «colapso» de 2020–21 foi artefacto de fonte, não realidade.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 60

A pandemia (2020–2021): quando o trail português parou — e o que isso revelou

Dois confinamentos, o calendário parado, os clubes a inventar corridas virtuais — e a elite mundial reunida nos Açores no ano em que tudo fechou.

🦠 COVID-19 · 2020–2021 ⏸️ Interrupção e retoma 📚 Dossiê 60 ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Dossiê de síntese — a pandemia atravessa já meia dúzia de dossiês da série; junta-se aqui esse fio, com o enquadramento nacional (DRE, DGS, SNS, FPA) que lhe faltava. Declaração de interesses declarada (autor cofundador da ATRP). Delimitação: aceleração digital→56/57, calendário→41. A tese central — suspensão não é extinção — é tratada com dados, não com impressão.
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal». Lê-se com o Golden Trail Championship nos Açores (13), as provas que «desapareceram» (18), o calendário (41), os clubes e os campeonatos virtuais (42) e a resposta institucional da ATRP (43).

Cancelou o calendário — mas revelou do que a modalidade era feita. A pandemia foi, para o trail português, uma interrupção brutal e um revelador, ao mesmo tempo.

Declaração de interesses. O autor é cofundador da ATRP (2012). A parte deste dossiê que trata a resposta institucional da associação é narrada de uma posição interna, limita-se a factos documentados publicamente, e remete a história fina da governação para o Dossiê 43. O autor correu, em plena pandemia, o EstrelAçor 2020 — memória assinalada como auto-citação.
2
confinamentos, não um: a Primavera de 2020 e o inverno duro de Janeiro–Abril de 2021 [R606][R609]
48h
o tempo de resposta da ATRP: videoconferência a 13/03/2020, comunicado a 14 [R402]
17 396
filiados FPA em 2021 (de 19 439 em 2019) — a quebra; retoma para 20 273 em 2022 [R611]

1) O enquadramento: de que estávamos a falar

Convém fixar a moldura nacional, porque é dentro dela que tudo se explica. Portugal declarou o 1.º estado de emergência a 18 de Março de 2020, que vigorou até 2 de Maio [R606]; seguiu-se o desconfinamento faseado que devolveu, a conta-gotas, a actividade física ao ar livre [R607]. A retoma do desporto de competição ficou enquadrada pela Orientação 036/2020 da DGS (25 de Agosto): estratificação de risco, testagem e competições à porta fechada [R608]. O Outono trouxe o refluxo: 2.º estado de emergência a 9 de Novembro e, sobretudo, o confinamento duro a partir de 15 de Janeiro de 2021 [R609]. Só o plano de 11 de Março de 2021 reabriu o desporto — ar livre até quatro pessoas desde 5 de Abril, sem limitações desde 3 de Maio [R610]. Dois invernos, portanto, e não um: o trail português viveu duas épocas amputadas. A — DRE / DGS / SNS

2) O calendário parou — e a ATRP respondeu em 48 horas

Quando a pandemia chegou, o calendário de 2020 estava a arrancar. Parou de um dia para o outro. A resposta institucional foi rápida: a 13 de Março, videoconferência de emergência com organizadores; a 14, comunicado — «Sejamos todos agentes de saúde pública» — a adiar a AG e suspender os reagendamentos [R402]. A retoma foi negociada com a Secretaria de Estado do Desporto, viabilizando as provas «a partir de 1 de Julho» [R615][R403]; seguiram-se um Protocolo de Segurança Covid próprio (Outubro de 2020), a transição automática das provas de 2020 para 2021 e um novo escalão de calendário, o Trail Ultra Endurance XL [R404].

A época pandémica foi um teste de gestão — e deixou um sinal de pacificação institucional: o CN de Trail Ultra Endurance de 2020 (EstrelAçor), já realizado no segundo semestre sob protocolo sanitário, foi co-organizado com a Associação Desportiva O Mundo da Corrida — o principal contraditor da ATRP em 2015 (Dossiê 20), agora co-organizador de um campeonato nacional. A final da Taça de 2020 fez-se em Melgaço, com testes Covid em pleno Estado de Emergência [R406]. Fazer provas no segundo semestre de 2020 foi engenharia sanitária tanto como desportiva. (O conflito arbitral dos Trilhos dos Abutres, por vezes lido como episódio da época, é de Fevereiro de 2020 — semanas antes de a pandemia chegar a Portugal — e trata-se no Dossiê 43.) B — comunicados e actas da ATRP (fonte interna)

3) A comunidade não parou: os campeonatos virtuais

Se a camada institucional respondeu com protocolos, a comunitária respondeu com imaginação. Quando a COVID-19 cancelou o calendário em 2020, o clube RUN 4 FUN inventou «The Orange Series»: a cada fim-de-semana com prova prevista, criava-se um evento virtual em que os atletas «corriam» a distância em treino — registada via Strava ou por foto — e quem a completasse era declarado finalista. Sem classificação por tempo: o objectivo era manter a comunidade ligada quando não se podia competir [R255].

Ao sábado, podia-se roubar os quilómetros do treino de um adversário e oferecê-los a uma terceira equipa. O confinamento virou jogo colectivo.«Gamo-A-Ti», campeonato de equipas do RUN 4 FUN, Fevereiro de 2021 [R276]

No ano seguinte, com as provas ainda suspensas, nove equipas disputaram o «Gamo-A-Ti» (8–28 de Fevereiro de 2021), somando quilómetros no Strava com a regra de troça do «gamanço» [R276]. São episódios de um clube só — mas dizem uma coisa grande: quando a função competitiva desapareceu, sobrou a função social, e foi ela que segurou a modalidade. E no plano individual, um estudo do IPDJ apurou que 45% de quem não praticava desporto antes da pandemia passou a fazê-lo durante o confinamento [R614] — gente que chegaria depois às provas. B — regulamentos de clube + estudo IPDJ (A)

4) O paradoxo açoriano: visibilidade mundial em plena pandemia

E aqui está o paradoxo que resume a estranheza do período. No ano em que quase tudo parou, o trail português teve um dos seus maiores momentos de visibilidade mundial — e teve-o por causa da pandemia. Com a época 2020 da Golden Trail World Series cancelada, a Salomon concentrou a grande final numa sede isolada e segura: os Açores. Entre 28 de Outubro e 1 de Novembro de 2020, o Golden Trail Championship disputou-se no Faial e no Pico — ~113 km em cinco dias, dentro de uma bolha sanitária (174 partiram no prólogo, depois de 17 serem excluídos por testes COVID). Venceram Przedwojewski e Maude Mathys; Jim Walmsley foi 2.º [R573][R574]. A leitura é a dos Açores (Dossiê 13): o campeonato deu visibilidade global a um trabalho local de oito anos; não o criou. Mas fica o retrato — a elite mundial numa ilha atlântica, testada e isolada, no ano em que o calendário estava fechado. A — Wikipédia FR / ITRA / Treeline Journal

5) Os números: quebra, retoma — e quanto foi artefacto

A curva é clara nos dados da federação. Os filiados na FPA vinham a crescer — 19 439 em 2019 —; a pandemia travou-os: 19 217 em 2020 e uma queda mais funda em 17 396 em 2021 (o efeito diferido do confinamento de Janeiro). A retoma foi vigorosa: 20 273 em 2022, e daí para máximos históricos [R611]. A própria FPA chama a 2022 o «ano de retoma absoluta do calendário competitivo integral».

Suspensão não é extinção. Olhando só para o número de provas observadas, 2020–2021 parecem um colapso — mas boa parte desse buraco é artefacto de fonte, não realidade. Cruzando o circuito ATRP, o Lap2Go e o DUV (Dossiês 18 e 41), os anos que antes pareciam um desastre revelam-se sobretudo falta de dados após o fim do arquivo de João Lima: 2021 sobe para 158 eventos observados, 2022 para 344, 2023 para 357. Daqui saiu a regra dura do Dossiê 18: só se declara extinta uma prova cujo fim seja anterior a 2020 e confirmado, sem sinal de retoma — porque quase todas as que a pandemia parou (os Trilhos dos Abutres, entre outras) regressaram [R529]. A pandemia matou muito menos provas do que parece; suspendeu-as.

6) O que a pandemia acelerou — e o que deixou

Acelerou o digital. Com as provas fechadas, a camada digital — Strava, desafios virtuais, plataformas de treino — herdou funções que eram das provas. Não foi a pandemia que a inventou, mas foi a pandemia que a tornou, por uns meses, o único palco (o tratamento a fundo é dos Dossiês 56 e 57). Deixou formatos e hábitos: o escalão Endurance XL, os protocolos de testagem no vocabulário organizativo, a videoconferência normalizada na gestão. E testou a resiliência — a modalidade passou: o trail português não saiu mais pequeno; saiu com um par de anos amputados, uma retoma rápida, e a prova de que a comunidade que o sustenta não depende só da linha de partida para existir.

7) Leitura crítica e lacunas

Não confundir suspensão com extinção — o erro mais fácil sobre este período, e a série resiste-lhe activamente. Não sobrestimar a «aceleração digital»: é plausível que a pandemia tenha empurrado praticantes para o trail, mas quantos ficaram depois de reabrirem ginásios e provas está por medir — aceleração provável, conversão por demonstrar. Lacunas assumidas: falta um número agregado de provas canceladas em 2020 (as listas de época são casuísticas); a narrativa completa das épocas 2021–2022 da ATRP está por documentar (Dossiê 43); e o protocolo ITRA de retoma do trail, invocado nos documentos nacionais, não foi localizado em fonte citável.

8) Convite ao contraditório e contributos

São especialmente úteis: testemunhos de organizadores sobre montar (ou cancelar) uma prova em 2020–21 e os custos da testagem; regulamentos e cartazes de provas adiadas e das primeiras de regresso, com datas; outros campeonatos virtuais de clubes; e dados que fechem o número de provas canceladas e a retoma por região. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.

Referências

[R255] RUN 4 FUN — «The Orange Series» (regulamento do campeonato virtual, 2020): categorias ATRP, Hall of Fame (cf. Dossiê 42).
[R276] RUN 4 FUN — «Gamo-A-Ti: Quo Vadis A.C.» (campeonato de equipas, 8–28 de Fevereiro de 2021): quilómetros no Strava, regra do «gamanço» (cf. Dossiê 42).
[R402] ATRP — Comunicado Covid de 14/03/2020 (via Wayback): adiamento da AG, suspensão de reagendamentos, comissão técnica (cf. Dossiê 43).
[R403] ATRP — negociação da retoma com a Secretaria de Estado do Desporto (1 de Julho de 2020) (cf. Dossiê 43).
[R404] ATRP — Protocolo de Segurança Covid-19 para organizadores (Outubro de 2020; sobre orientações ITRA/DGS) (cf. Dossiê 43).
[R406] ATRP — CN de Trail Ultra Endurance 2020 (EstrelAçor) co-organizado com a Associação Desportiva O Mundo da Corrida; final da Taça em Melgaço com testes Covid (cf. Dossiês 20 e 43).
[R529] Dossiê 18 — regra «só extinta se anterior a 2020 e sem retoma»; Trilhos dos Abutres pararam com a pandemia e regressaram em 2024.
[R573] Golden Trail Championship 2020 (Faial/Pico, 28/10–01/11/2020): formato e vencedores (Przedwojewski, Mathys; Walmsley 2.º) — Wikipédia FR e ficha ITRA (cf. Dossiê 13).
[R574] Treeline Journal — «2020 Golden Trail Championship Preview» (~112 atletas; 174 no prólogo; 17 excluídos por testes COVID): treelinejournal.com
[R606] Decreto do Presidente da República 14-A/2020, de 18 de Março (1.º estado de emergência; 18/03–02/05/2020) e Decreto do Governo 2-A/2020 (regulamentação): diariodarepublica.pt
[R607] SNS / Governo — calendário do desconfinamento de 2020 (calamidade desde 03/05; fases Mai–Jun): sns.gov.pt
[R608] DGS — Orientação 036/2020 (25/08/2020), «Desporto e Competições Desportivas» (risco, testagem, porta fechada): sns.gov.pt
[R609] SNS / Governo — 2.º estado de emergência (09/11/2020) e confinamento geral desde 15/01/2021: sns.gov.pt
[R610] SNS + IPDJ — plano de desconfinamento de 2021 (fases 15/03, 05/04, 19/04, 03/05; desporto ao ar livre ≤4 desde 05/04): sns.gov.pt
[R611] FPA — «Atletismo alcança recorde histórico» (04/10/2022): filiados 2019 (19 439), 2020 (19 217), 2021 (17 396), 2022 (20 273): fpatletismo.pt
[R612] Observador — adiamentos sucessivos da Meia Maratona de Lisboa (de 22/03/2020 a 21/11/2021): observador.pt
[R613] Público — «As provas estão suspensas, mas os corredores querem voltar a competir» (23/07/2020): publico.pt
[R614] IPDJ — «Portugueses passaram a praticar mais exercício físico com o confinamento» (04/05/2020; estudo com cinco universidades; 45% de novos praticantes): ipdj.gov.pt
[R615] trail-running.pt — «ATRP: circuitos suspensos e campeonatos em Setembro e Outubro» (19/06/2020): retoma das provas a partir de 1 de Julho de 2020: trail-running.pt
[R616] World Athletics — «outbreak-prevention guidelines» (11/06/2020): orientação internacional de contexto (estádio; não road/trail): worldathletics.org
Remissões internas: Dossiês 03 (a Freita que não se correu em 2020), 13 (o Golden Trail Championship nos Açores), 18 e 41 (o «buraco» de 2020–21 como artefacto de fonte, e a retoma real), 42 (os campeonatos virtuais dos clubes), 43 (a resposta institucional da ATRP), 45 (a Armada amadora suspensa), 56 e 57 (a aceleração digital).
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Organizaste ou correste uma prova em 2020–21? Tens regulamentos, cartazes ou memórias dos campeonatos virtuais e das primeiras provas de regresso? Correcções documentadas são bem-vindas nos comentários.
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