A pandemia (2020–2021): quando o trail português parou — e o que isso revelou
A pandemia foi, para o trail português, interrupção e revelador ao mesmo tempo. Cancelou o calendário de 2020 — mas os clubes inventaram campeonatos virtuais, a ATRP respondeu em 48 horas, e a elite mundial reuniu-se nos Açores no ano em que tudo fechou. A curva de quebra e retoma que os números confirmam tem uma nuance: parte do «colapso» de 2020–21 foi artefacto de fonte, não realidade.
A pandemia (2020–2021): quando o trail português parou — e o que isso revelou
Dois confinamentos, o calendário parado, os clubes a inventar corridas virtuais — e a elite mundial reunida nos Açores no ano em que tudo fechou.
Cancelou o calendário — mas revelou do que a modalidade era feita. A pandemia foi, para o trail português, uma interrupção brutal e um revelador, ao mesmo tempo.
1) O enquadramento: de que estávamos a falar
Convém fixar a moldura nacional, porque é dentro dela que tudo se explica. Portugal declarou o 1.º estado de emergência a 18 de Março de 2020, que vigorou até 2 de Maio [R606]; seguiu-se o desconfinamento faseado que devolveu, a conta-gotas, a actividade física ao ar livre [R607]. A retoma do desporto de competição ficou enquadrada pela Orientação 036/2020 da DGS (25 de Agosto): estratificação de risco, testagem e competições à porta fechada [R608]. O Outono trouxe o refluxo: 2.º estado de emergência a 9 de Novembro e, sobretudo, o confinamento duro a partir de 15 de Janeiro de 2021 [R609]. Só o plano de 11 de Março de 2021 reabriu o desporto — ar livre até quatro pessoas desde 5 de Abril, sem limitações desde 3 de Maio [R610]. Dois invernos, portanto, e não um: o trail português viveu duas épocas amputadas. A — DRE / DGS / SNS
2) O calendário parou — e a ATRP respondeu em 48 horas
Quando a pandemia chegou, o calendário de 2020 estava a arrancar. Parou de um dia para o outro. A resposta institucional foi rápida: a 13 de Março, videoconferência de emergência com organizadores; a 14, comunicado — «Sejamos todos agentes de saúde pública» — a adiar a AG e suspender os reagendamentos [R402]. A retoma foi negociada com a Secretaria de Estado do Desporto, viabilizando as provas «a partir de 1 de Julho» [R615][R403]; seguiram-se um Protocolo de Segurança Covid próprio (Outubro de 2020), a transição automática das provas de 2020 para 2021 e um novo escalão de calendário, o Trail Ultra Endurance XL [R404].
A época pandémica foi um teste de gestão — e deixou um sinal de pacificação institucional: o CN de Trail Ultra Endurance de 2020 (EstrelAçor), já realizado no segundo semestre sob protocolo sanitário, foi co-organizado com a Associação Desportiva O Mundo da Corrida — o principal contraditor da ATRP em 2015 (Dossiê 20), agora co-organizador de um campeonato nacional. A final da Taça de 2020 fez-se em Melgaço, com testes Covid em pleno Estado de Emergência [R406]. Fazer provas no segundo semestre de 2020 foi engenharia sanitária tanto como desportiva. (O conflito arbitral dos Trilhos dos Abutres, por vezes lido como episódio da época, é de Fevereiro de 2020 — semanas antes de a pandemia chegar a Portugal — e trata-se no Dossiê 43.) B — comunicados e actas da ATRP (fonte interna)
3) A comunidade não parou: os campeonatos virtuais
Se a camada institucional respondeu com protocolos, a comunitária respondeu com imaginação. Quando a COVID-19 cancelou o calendário em 2020, o clube RUN 4 FUN inventou «The Orange Series»: a cada fim-de-semana com prova prevista, criava-se um evento virtual em que os atletas «corriam» a distância em treino — registada via Strava ou por foto — e quem a completasse era declarado finalista. Sem classificação por tempo: o objectivo era manter a comunidade ligada quando não se podia competir [R255].
No ano seguinte, com as provas ainda suspensas, nove equipas disputaram o «Gamo-A-Ti» (8–28 de Fevereiro de 2021), somando quilómetros no Strava com a regra de troça do «gamanço» [R276]. São episódios de um clube só — mas dizem uma coisa grande: quando a função competitiva desapareceu, sobrou a função social, e foi ela que segurou a modalidade. E no plano individual, um estudo do IPDJ apurou que 45% de quem não praticava desporto antes da pandemia passou a fazê-lo durante o confinamento [R614] — gente que chegaria depois às provas. B — regulamentos de clube + estudo IPDJ (A)
4) O paradoxo açoriano: visibilidade mundial em plena pandemia
E aqui está o paradoxo que resume a estranheza do período. No ano em que quase tudo parou, o trail português teve um dos seus maiores momentos de visibilidade mundial — e teve-o por causa da pandemia. Com a época 2020 da Golden Trail World Series cancelada, a Salomon concentrou a grande final numa sede isolada e segura: os Açores. Entre 28 de Outubro e 1 de Novembro de 2020, o Golden Trail Championship disputou-se no Faial e no Pico — ~113 km em cinco dias, dentro de uma bolha sanitária (174 partiram no prólogo, depois de 17 serem excluídos por testes COVID). Venceram Przedwojewski e Maude Mathys; Jim Walmsley foi 2.º [R573][R574]. A leitura é a dos Açores (Dossiê 13): o campeonato deu visibilidade global a um trabalho local de oito anos; não o criou. Mas fica o retrato — a elite mundial numa ilha atlântica, testada e isolada, no ano em que o calendário estava fechado. A — Wikipédia FR / ITRA / Treeline Journal
5) Os números: quebra, retoma — e quanto foi artefacto
A curva é clara nos dados da federação. Os filiados na FPA vinham a crescer — 19 439 em 2019 —; a pandemia travou-os: 19 217 em 2020 e uma queda mais funda em 17 396 em 2021 (o efeito diferido do confinamento de Janeiro). A retoma foi vigorosa: 20 273 em 2022, e daí para máximos históricos [R611]. A própria FPA chama a 2022 o «ano de retoma absoluta do calendário competitivo integral».
6) O que a pandemia acelerou — e o que deixou
Acelerou o digital. Com as provas fechadas, a camada digital — Strava, desafios virtuais, plataformas de treino — herdou funções que eram das provas. Não foi a pandemia que a inventou, mas foi a pandemia que a tornou, por uns meses, o único palco (o tratamento a fundo é dos Dossiês 56 e 57). Deixou formatos e hábitos: o escalão Endurance XL, os protocolos de testagem no vocabulário organizativo, a videoconferência normalizada na gestão. E testou a resiliência — a modalidade passou: o trail português não saiu mais pequeno; saiu com um par de anos amputados, uma retoma rápida, e a prova de que a comunidade que o sustenta não depende só da linha de partida para existir.
7) Leitura crítica e lacunas
Não confundir suspensão com extinção — o erro mais fácil sobre este período, e a série resiste-lhe activamente. Não sobrestimar a «aceleração digital»: é plausível que a pandemia tenha empurrado praticantes para o trail, mas quantos ficaram depois de reabrirem ginásios e provas está por medir — aceleração provável, conversão por demonstrar. Lacunas assumidas: falta um número agregado de provas canceladas em 2020 (as listas de época são casuísticas); a narrativa completa das épocas 2021–2022 da ATRP está por documentar (Dossiê 43); e o protocolo ITRA de retoma do trail, invocado nos documentos nacionais, não foi localizado em fonte citável.
8) Convite ao contraditório e contributos
São especialmente úteis: testemunhos de organizadores sobre montar (ou cancelar) uma prova em 2020–21 e os custos da testagem; regulamentos e cartazes de provas adiadas e das primeiras de regresso, com datas; outros campeonatos virtuais de clubes; e dados que fechem o número de provas canceladas e a retoma por região. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.
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