Trail e Sustentabilidade — do slogan ao indicador
Trail e sustentabilidade em Portugal: a norma do copo próprio já mudou os abastecimentos, mas a pegada dominante é a mobilidade. Quatro planos — ambiental, social, económico e governação — e a lacuna que interessa: nenhuma prova publica indicadores comparáveis.
Trail e sustentabilidade: do slogan ao indicador
Não se mede por slogans nem por copos reutilizáveis, mas por uma coisa mais rara: a capacidade de uma prova medir, publicar e corrigir os seus impactos.
A sustentabilidade no trail português não se mede por slogans, fotografias de limpeza pós-prova, nem sequer pelo copo reutilizável. Mede-se por algo mais aborrecido e mais raro: a capacidade de medir, publicar e corrigir impactos, ao longo de uma década, sem degradar trilhos, esgotar o voluntariado ou fugir ao escrutínio.
Este dossiê tem um risco próprio, e é honesto nomeá-lo: o de se transformar numa acusação genérica contra as provas, ou no seu contrário, num folheto de boas intenções. Evito os dois. A regra que sigo é a de separar o relato promocional da evidência verificável — indicador é o que se mede; o resto é discurso — e a de não generalizar de uma prova para toda a modalidade. E não confundo este dossiê com o do clima (Dossiê 50): lá, o clima é o objecto; aqui, é apenas uma das pressões externas. O foco é outro — que responsabilidades, métricas e compromissos deve uma prova assumir para existir de forma legítima num território.
1) O que já mudou: a norma silenciosa do copo próprio
Comecemos pelo que efectivamente mudou, porque é real e está documentado. Há dez anos, um abastecimento de trail era uma mesa cheia de copos de plástico que acabavam no chão à volta. Hoje, atravessar a maioria dos regulamentos portugueses é encontrar quase sempre a mesma cláusula: o atleta transporta o seu próprio copo ou recipiente (muitas provas fixam um mínimo de 125 ml), e a organização não fornece copos, pratos nem talheres descartáveis nos postos. [R432] Não é cosmética: é a supressão, por regulamento, do resíduo mais visível da modalidade.
A esta regra soma-se, quase sempre, a da responsabilidade individual pelo lixo. O regulamento do Minho e Lima Trail é típico e não deixa margem: «é estritamente proibido deitar qualquer tipo de lixo no decorrer do percurso» — e quem o fizer «será desqualificado»; o atleta «é o único responsável pelo transporte» dos seus invólucros até ao abastecimento seguinte ou à meta. [R433] O mesmo consta nas provas de maior escala: no MIUT e nos Trilhos dos Abutres, o copo é material obrigatório e a organização «não fornece copos nos abastecimentos», e deitar lixo dá desqualificação. [R432][R437] Há já quem gradue a pena à maneira das grandes provas internacionais: o Trail Porto da Cruz Natura, na Madeira, aplica uma hora de penalização se o lixo cai por acidente e desqualificação se for deliberado. [R438] Aqui, a sustentabilidade deixou de ser recomendação e passou a regra desportiva, com sanção graduada.
2) Definição operacional — quatro bases, não uma
Entendo «sustentabilidade» no trail como a capacidade de manter, ao longo de uma década, a oferta de provas sem degradar quatro bases: ambiental (trilhos, ecossistemas, água, fauna, paisagem); social (voluntariado, comunidades, segurança, inclusão); económica (financiamento, distribuição de valor, resiliência a choques); e de governação (transparência, regulação, prestação de contas, auditoria).
Esta definição evita duas reduções frequentes: reduzir sustentabilidade a ambiente, e reduzir ambiente a resíduos. O problema é mais largo — uma prova pode gerir bem os copos e ser, ao mesmo tempo, socialmente frágil (a viver de um punhado de voluntários exaustos), economicamente opaca (sem prestar contas dos apoios públicos) ou ambientalmente pesada pela mobilidade que induz.
3) Mapa de impactos — antes, durante e depois
Antes de listar impactos, convém fixar a escala. Um levantamento académico da NOVA (CICS.NOVA / FCSH) contava, já com dados de 2017, cerca de 354 eventos e 700 corridas de trail em Portugal Continental — e, destes, 157 sobrepunham-se a áreas protegidas, Zonas de Protecção Especial ou Sítios da Rede Natura 2000. [R21] No mesmo período, a ATRP passava dos 7.500 atletas, triplicando em três anos. Não se fala de uma prática marginal em terreno neutro: fala-se de centenas de eventos, muitos em cima do território ecologicamente mais sensível do país.
Antes: a escolha do percurso (zonas sensíveis, Rede Natura, território pós-incêndio, trilhos já erodidos), a marcação com material que pode ficar para trás, os reconhecimentos que concentram pisoteio nos mesmos carreiros, e a pressão logística sobre aldeias pequenas. Durante: erosão localizada, alargamento de trilho e atalhos — um mecanismo físico documentado na literatura, que mostra como a passagem concentrada compacta o solo, expõe raízes e rocha e reduz a biomassa, por vezes desencadeada por um único evento numa área sensível [R439]; resíduos dentro e fora dos postos; pressão hídrica em zonas de captação limitada ou em seca; ruído nocturno; perturbação de fauna; e a mobilidade de todos os que o evento mobiliza. Depois: marcação recolhida tarde ou nunca, trilhos danificados cuja recuperação não é documentada, e — o mais invisível — o efeito cumulativo de várias provas a usar o mesmo território ao longo de uma época, e o desgaste do voluntariado que se repete a cada edição.
Nenhum destes pontos é uma acusação. São o inventário honesto daquilo que uma prova responsável tem de gerir — e daquilo que, para ser gerido, primeiro tem de ser medido.
4) O problema central: quatro níveis de evidência
Para não confundir marketing com facto, uso quatro níveis de evidência:
| Nível | Significado |
|---|---|
| Verificado | Existe documento, regulamento, relatório, autorização ou testemunho directo confirmável |
| Declarado | A organização afirma praticar a medida, mas falta validação independente |
| Indiciado | Há sinais plausíveis, mas ainda sem prova suficiente |
| Por apurar | A hipótese é relevante, mas ainda não está documentada |
E é aqui que se chega ao osso da tese. Aplicando esta grelha às provas portuguesas, quase tudo o que é ambiental fica em «declarado» ou «por apurar». Sabemos, por regulamento, que há copo próprio e proibição de lixo — isso é verificado. Mas quantos resíduos foram recolhidos numa edição? Que percentagem do percurso atravessa área protegida? Quantos quilómetros de trilho foram recuperados depois? Qual a pegada de carbono da mobilidade? Nenhuma prova portuguesa publica, de forma regular e comparável, estes números. A lacuna não é das provas — é de conhecimento público disponível. E é essa lacuna, e não a falta de boas intenções, o verdadeiro objecto deste dossiê.
5) O que está documentado em Portugal
Fora da norma do copo, o que há de sólido são episódios concretos, quase todos ligados ao eixo mais visível — o fogo e o território — e tratados a fundo noutros dossiês:
- O caso mais completo — e quantificado — é o dos Trilhos dos Abutres. A organização declara ter adoptado o copo do atleta, sem descartáveis, já desde 2013; reduzido as vagas por prova a partir de 2014; digitalizado a inscrição em 2017, poupando cerca de 5.000 folhas de papel por ano; passado a marcação reutilizável, evitando cerca de 10 km de fita por ano; e montado recolha selectiva com a Ersuc. [R437] É uma declaração da própria prova — não uma auditoria —, mas é o exemplo português mais próximo de uma prática ambiental medida e continuada.
- Reflorestação ligada a provas. Em Outubro de 2017, a AXtrail correu-se sobre a Serra da Lousã ainda a arder e converteu as lembranças de presença em quatro mil árvores plantadas na região; em 2022, a Louzantrail reflorestou área ardida em 2017. [cf. Dossiê 17]
- Regulação ambiental por edição. Em área protegida, o ICNF condiciona a prova e faz depender a autorização de uma avaliação ambiental por edição, não de uma licença permanente. [R32; cf. Dossiê 50]
- O voluntariado como subsídio invisível. O MIUT declarou cerca de 850 voluntários numa edição recente; os Trilhos dos Abutres afirmam mobilizar 400 por ano — trabalho não remunerado que equivale a dezenas de milhar de euros por prova. [cf. Dossiês 08 e 46]
- Valor devolvido, e valor extraído. Há provas que revertem receitas para o território — o «Dorsal Solidário» dos Abutres canalizou, numa edição, cerca de 3.000 € para os bombeiros locais — e há o argumento do retorno turístico que sustenta os apoios camarários. [cf. Dossiês 31 e 46]
Repare-se no padrão: o que está documentado é episódico e ambiental. O que falta é o sistemático e o comparável.
6) Quatro planos articulados
Ambiental. Erosão e manutenção de trilhos; resíduos; pressão hídrica; ruído, luz e perturbação de fauna; passagem em áreas sensíveis; e a pegada de carbono, dominada pela mobilidade. A esta lista soma-se a vulnerabilidade agravada pelo clima, que o Dossiê 50 trata a fundo. [R41; cf. Dossiê 50]
Vale a pena abrir aqui o ponto da fauna e da flora, porque é o que aqueles 157 cruzamentos com áreas classificadas realmente significam. As ZPE existem para proteger aves; os SIC, para proteger habitats e espécies — de modo que uma prova que os atravessa não passa por paisagem neutra, passa por território designado precisamente pela sua vida selvagem. Do lado da flora, o dano é físico e documentado: o pisoteio concentrado compacta o solo, elimina a vegetação rasteira e expõe raízes e rocha, e os atalhos espalham-no para fora do carreiro [R439]; nas áreas protegidas, o ICNF proíbe sair dos trilhos e colher plantas, sob pena de desqualificação [R440].
Do lado da fauna, o risco mais apontado é o da perturbação em época de reprodução e de nidificação, agravado pela passagem nocturna e pelo ruído das provas longas [R442]. E aqui a fauna deixa de ser abstracta quando se olha para um caso concreto. O exemplo mais nítido está na Madeira: o percurso alto do MIUT corre, de noite e à luz dos frontais, a crista entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo [R445] — que é, ao mesmo tempo, o único local do mundo onde nidifica a freira-da-madeira (Pterodroma madeira), uma ave marinha criticamente ameaçada, com apenas 65 a 80 casais, que faz os ninhos em socalcos inacessíveis acima dos 1.600 metros. O projecto LIFE do IFCN que a protege nomeia, entre as ameaças, precisamente aquilo que uma prova de montanha leva àquele espaço: o pisoteio das manchas de nidificação — que em 2019 destruiu um ninho e matou uma cria —, a poluição luminosa que desorienta as crias, e o facto de o Areeiro ser «uma área cada vez mais procurada para turismo e actividades de montanha, o que representa uma ameaça séria para as aves nidificantes». [R444] Nos Açores repete-se o padrão: a Serra da Tronqueira, por onde passa o EPIC Trail Run, é o último refúgio do priolo — a ave mais rara da Europa — e está classificada como ZPE e SIC. [R446]
É preciso dizer com cuidado o que isto é, e o que não é: nenhuma fonte atribui a estas provas um dano concreto, e não se localizou qualquer parecer ambiental específico sobre elas. Mas a sobreposição é real e verificável — o mesmo espaço, a mesma hora (a noite), o mesmo tipo de actividade (montanha, luz, passagem a pé) que os conservacionistas assinalam como ameaça à espécie. E é por isso que a falta de medição pesa: não se localizou um único estudo português que quantifique o efeito de uma prova sobre estas espécies (o estudo de erosão de solos da Peneda-Gerês existe, mas o texto integral está inacessível [R443]). Sem monitorização antes e depois, «não perturbar a fauna» fica no plano da boa intenção regulamentar — não no da evidência.
Social. A sustentabilidade do voluntariado (Dossiê 08); a relação com as comunidades locais — participação real ou mera utilização do território (Dossiê 35); a segurança; e a inclusão, com as suas barreiras de preço e capital cultural (Dossiê 34).
Económico. A viabilidade do modelo de financiamento (Dossiê 31); a distribuição de valor por fornecedores e comércio local; a dependência de apoios públicos e de voluntariado gratuito; e a resiliência a choques — mau tempo, incêndios, perda de patrocinadores (Dossiê 50).
Governação. A clareza regulamentar entre FPA, ATRP, FPME, municípios e ICNF (Dossiê 20); as regras de autorização em áreas condicionadas — os organizadores devem identificar as áreas protegidas, matas nacionais e sítios da Rede Natura que o percurso atravessa e submetê-los ao ICNF [R32][R440]. Há aqui uma tensão que vale a pena nomear: o próprio Código de Conduta do ICNF recomenda visitar estas áreas em pequenos grupos — recomendação que, como observa o estudo da NOVA, «não é aplicável em eventos deste tipo». [R21][R440] Uma prova é, por definição, o contrário de um pequeno grupo, e há já guias ibéricos dedicados a conciliar as duas coisas [R441]. A isto soma-se a ausência, hoje, de política sectorial de sustentabilidade para o trail, e a capacidade — inexistente — de auditoria externa e de publicação de relatórios pós-evento.
7) Proposta: um quadro mínimo de indicadores
A tese exige uma proposta concreta. Para cada prova com mais de 500 inscritos, sugere-se a publicação anual de um punhado de indicadores simples:
- participantes por distância; voluntários e horas estimadas de trabalho voluntário;
- percentagem do percurso em área sensível, protegida, Rede Natura ou território pós-incêndio;
- resíduos recolhidos, por tipo e destino; material de marcação e percentagem reutilizada; prazo de remoção integral da marcação;
- consumo hídrico estimado; existência de plano de mobilidade;
- incidentes médicos, evacuações e abandonos por 1.000 participantes;
- quilómetros de trilho limpos, mantidos ou recuperados após a prova;
- valor agregado de inscrições, patrocínios e apoios públicos; existência de relatório público pós-evento.
Publicar isto não substitui auditoria independente. Mas cria a base mínima — hoje inexistente — de escrutínio comparável, aprendizagem entre organizações e confiança pública. E tem uma virtude política: proporcionalidade. Não se pede a uma prova regional o que se pede ao MIUT; pede-se a cada uma que meça o que a sua escala justifica.
8) Enquadramento internacional — o que importar (e o que não)
O trail português não precisa de copiar selos, mas pode aprender a formular melhores perguntas. O caso mais instrutivo é o UTMB, que transformou a sustentabilidade em regra desportiva com sanção: nenhum descartável (copos, pratos, talheres) é distribuído nos postos — a lógica «traz o teu» (Bring Your Own Utensils) —, e o littering (tubos de gel, invólucros, papel) é «estritamente proibido», com uma hora de penalização nas provas maiores (UTMB/CCC/TDS) e 30 minutos nas mais curtas. [R431] E há números para o efeito: servir água de nascente evita, segundo a organização, cerca de oito mil garrafas de plástico por edição, e a gaseificação de água da torneira em 2023 terá eliminado quinze mil unidades de plástico. [R431] É a prova de que a norma que Portugal já adoptou pode ser levada mais longe, com penalização graduada, fiscalização e contabilidade pública.
Para além do UTMB, três referências úteis. A ITRA, cuja Green Charter torna obrigatório o «traz o teu», exige um «Green manager» por prova, impõe marcações reutilizáveis ou biodegradáveis e obriga a considerar a capacidade de carga do território [R434]; as guidelines da ATRA, que mandam «varrer» o percurso até 36 horas depois da prova e acordar o número de participantes com o gestor do território [R435]; e a norma ISO 20121 de gestão de sustentabilidade de eventos — que já tem trail certificado, a Monte Rosa SkyMarathon (válida até 2026) [R436]. A utilidade não está em importar certificações — está em dar linguagem e método a quem os quiser adoptar.
9) Leitura crítica
Primeiro, separar relato promocional de evidência. O marketing sobrestima sistematicamente as boas práticas. Indicador é o que se mede; o que não se mede é discurso.
Segundo, cuidado com a sustentabilidade como selo. Um selo sem auditoria é marketing. E a auditoria custa dinheiro — pelo que, para provas pequenas e médias, modelos federativos, municipais ou interpares serão mais realistas do que certificações caras.
Terceiro, não generalizar a partir das provas grandes. O MIUT, os Abutres ou o Azores Trail Run não têm a escala nem os recursos de uma prova regional. Indicadores comuns, sim; mas com proporcionalidade.
Quarto, não fazer da sustentabilidade uma arma moral contra a modalidade. O trail tem impacto — mas também cria cultura de montanha, valoriza caminhos, sustenta redes de voluntariado e literacia territorial. A pergunta não é se o trail deve desaparecer. É como deve continuar.
Quinto, assumir que a transparência incomoda. Publicar resíduos, incidentes, apoios públicos ou emissões pode revelar fragilidades. Mas sem essa exposição não há aprendizagem colectiva — e a opacidade é a verdadeira insustentabilidade de longo prazo.
10) Limites e lacunas
- Falta um inventário sistemático de práticas declaradas versus verificadas, por prova.
- Nenhuma prova de trail portuguesa publica uma pegada de carbono medida nem relatório de sustentabilidade — o contraste com a Monte Rosa certificada ISO 20121 é honesto e desconfortável. (O único caso desportivo português de compensação que se localizou — ~6.000 árvores em 2021 — é do Todo-o-Terreno, não do trail.) A mobilidade continua a ser o elefante na sala, por medir.
- Falta qualquer auditoria independente de boas práticas em Portugal.
- Falta uma política sectorial integrada de sustentabilidade.
- Falta literatura académica portuguesa específica sobre trail e sustentabilidade. [R20][R21]
- Falta monitorização de fauna e flora antes e depois das provas — nenhum estudo português quantifica o impacto de uma prova concreta sobre a vida selvagem, apesar de centenas de eventos atravessarem ZPE e SIC.
- Falta a voz das comunidades locais, e não apenas a de atletas e organizações.
- Falta compreender a escala real dos impactos cumulativos de várias provas no mesmo território.
Comentários
Enviar um comentário