As corridas de montanha (1995–2005): o elo que ligou a montanha ao trail
Entre a cultura de montanha que já existia (Dossiê 61) e o trail moderno que chegaria depois, houve uma disciplina intermédia: as corridas de montanha competitivas dos anos 90 e 2000. Este dossiê é o seu panorama nacional — e mostra que ela não correu numa casa federativa única, mas em duas linhagens paralelas, a do atletismo (com campeão nacional já em 1996) e a do montanhismo (a FPME, de 2002). Foi essa dualidade que o trail herdou.
As corridas de montanha (1995–2005): o elo que ligou a montanha ao trail
Quando o trail chegou, não teve de inventar corredores de montanha. Encontrou uma geração que já competia em encostas — com campeonatos, taças e dorsais — desde os anos 90. Só mudou o vocabulário.
Houve uma disciplina entre a montanha e o trail: as corridas de montanha competitivas. Foram elas que criaram a primeira geração de atletas portugueses habituados a competir em terreno serrano — muito antes de a palavra «trail» ser corrente. Só que não correram numa casa federativa única. Correram em duas.
Na imagem corrente, o trail português nasce a partir de 2005. Mas, entre a cultura de montanha que já existia (Dossiê 61) e essa vaga moderna, houve um elo: as corridas de montanha — provas curtas, competitivas, a subir e a descer encostas com dorsal e cronómetro. Este dossiê é o panorama nacional dessa disciplina: o que era, quem a tutelava, quem organizava provas e onde, quem as corria, e como se transformou no trail que veio depois. E obriga a corrigir a imagem simples de «uma disciplina federada única»: no período, «corrida de montanha» correu em duas linhagens federativas paralelas — uma do atletismo, outra do montanhismo.
1) O que eram as «corridas de montanha»
Fixar o objecto é essencial, porque «corrida de montanha» não é sinónimo de «trail». A corrida de montanha (mountain running) é uma disciplina competitiva de origem atlética: provas curtas — tipicamente 6 a 15 km — em terreno de montanha, com forte componente de subida. Tem federação internacional desde há quatro décadas: a World Mountain Running Association (WMRA) foi fundada a 29 de Setembro de 1984, em Zogno (Itália) [R629], e o seu 1.º Troféu Mundial realizou-se a 23 de Setembro de 1985, em San Vigilio di Marebbe, em distâncias de 6 a 14,6 km e nos dois formatos que ainda a definem — uphill (só subida) e up-and-down [R630][R629].
Em paralelo, nos Alpes, nascia uma variante mais radical: o skyrunning, conceito de Marino Giacometti — recordes de velocidade no Monte Rosa e no Mont Blanc no início dos anos 90, um circuito esboçado em 1992 e uma federação própria em 1995 [R631][R632]. Dele vem o quilómetro vertical (cerca de 5 km para 1000 m de desnível).
2) Duas linhagens, não uma
Aqui está o achado que reformula este dossiê. Ao contrário do que uma leitura rápida sugere — e do que o próprio artigo-base desta série deixa passar —, a «corrida de montanha» em Portugal não correu numa única casa federativa. Correu em duas, paralelas:
A dualidade não é um pormenor burocrático: explica a confusão histórica. A mesma expressão designava, no mesmo país e nos mesmos anos, provas de clubes de atletismo (com juízes da FPA, apuramento europeu) e provas de clubes de montanha (mais próximas do montanhismo e da orientação). Foi da confluência tardia destes dois fios que saiu boa parte da primeira geração do trail português. A própria regra federativa mostra a hibridização: o regulamento da FPME fixa provas de mais de 15 km, com subida predominante ou subida e descida, e desnível positivo mínimo de 8% [R641] — a corrida de montanha a esticar-se na direcção do trail.
3) 1998, e o problema da data fundadora
O artigo-base afirma que «em 1998 se realizou a 1.ª edição do Campeonato Nacional de Corridas de Montanha, sob a égide da FPME», dando como primeiros vencedores Vitorina Mourato e Vítor Cordeiro, do Atletismo Clube de Portalegre [R5][R6]. É preciso olhar para essa data com honestidade — porque a pesquisa não a sustenta como estava escrita.
O que não se põe em causa é o essencial: que Mourato e Cordeiro foram atletas reais de corrida de montanha do ACP, que Mourato é «a primeira heroína desportiva desta genealogia» na leitura do artigo-base, e que ambos fizeram a ponte para o trail — Cordeiro venceria o ultra do seu próprio clube em 2019, aos 50 e muitos anos (Dossiê 63). Corrige-se a moldura institucional e a data — não as pessoas.
4) Portugal no mapa internacional: Câmara de Lobos, 2002
A linhagem do atletismo deu a Portugal o seu momento internacional mais claro do período — e não foi no continente, foi na Madeira. A 7 de Julho de 2002, em Câmara de Lobos, Portugal recebeu o 8.º Campeonato Europeu de Corrida de Montanha, a primeira edição sob a nomenclatura da European Athletics, com 94 atletas [R634]. Nos seniores, o melhor português foi Paulo Gonçalves, 9.º, e a melhor portuguesa Lucinda Moreiras, 10.ª [R634]. A Madeira voltaria a receber o Europeu em 2015 (Porto Moniz) [R633]. É um dado revelador: a montanha da Madeira foi palco internacional da corrida de montanha muito antes de, com o MIUT, se tornar capital do trail nacional (Dossiê 14).
5) O circuito por regiões — os clubes e núcleos
É o coração do «panorama nacional» e a secção onde a documentação mais falha. Não existe, em fonte pública consultável, um mapa completo do circuito português ano a ano entre 1996 e 2005. O que há são fragmentos firmes, de Norte a Sul:
Para o período a partir de 2003, o arquivo comunitário «Crónicas das Corridas» conserva os resultados do Circuito Nacional de Montanha da FPME [R636], cuja distribuição — ainda que numa fotografia mais tardia (2013) — dá a medida da dispersão nacional: provas na Estrela, em Trás-os-Montes, no Douro/Arouca, na Beira, no litoral de Lisboa, no Baixo Vouga e no Alentejo [R636][R637].
6) Os atletas: a geração que correu antes de existir a palavra «trail»
O elemento humano é o que mais importa — e é onde a assimetria entre as duas linhagens mais se nota. Paulo Gonçalves, da Guarda, é o fio condutor mais sólido da vertente atlética: campeão nacional de corrida de montanha em 1996 (então pelo INATEL Marvão), vice em 2000 e 2001, terceiro em 2002, 9.º no Europeu de Câmara de Lobos nesse ano, e vencedor da 1.ª Taça de Portugal em 2004 [R638][R634][R639]. É a prova de que existia corrida de montanha competitiva em Portugal antes de 1998.
Do lado internacional feminino, Lucinda Moreiras foi 10.ª nesse Europeu de 2002 [R634] — um dos raros resultados femininos portugueses documentados da disciplina no período. E, do lado do montanhismo, Vitorina Mourato e Vítor Cordeiro entram aqui como marco, não como arco pessoal: as suas trajectórias completas pertencem aos Dossiês 63 e 05/06/07. O ponto a reter é este: quando o trail moderno chegou, não teve de inventar corredores de montanha. Encontrou uma geração — de Portalegre à Guarda, de Gaia à Madeira — que já competia em encostas. Muitos simplesmente mudaram de vocabulário.
7) O mecanismo de transição: como as corridas de montanha viraram trail
Como é que esta disciplina entregou o testemunho ao trail? A resposta está na distância entre o que a corrida de montanha era e o que o trail passou a ser. A corrida de montanha internacional era curta e de subida (6–15 km, foco no uphill), sob o atletismo [R629]. O trail trouxe três coisas que ela não tinha: distância (até ao ultra), subida-e-descida técnica com autonomia, e uma cultura territorial — a prova como travessia de uma serra, não como escalada de um cume. A referência europeia dessa mudança foi a UTMB, cuja 1.ª edição é de 2003 (Dossiê 22). Atletas que foram correr o UTMB voltaram com «um conceito diferente: o trail europeu era mais longo, mais técnico e mais sedutor do que as corridas de montanha praticadas em Portugal» [R5].
Mas a transição já estava inscrita na disciplina federada — a regra da FPME admitia provas longas com descida [R641]. E há provas-charneira que a série já documentou e aqui apenas cita como exemplos, sem reescrever: São Mamede / ACP (11 km up-and-down em 1999 → ultra de 100 km em 2012, no mesmo clube e na mesma serra — Dossiê 63); e a Confraria Trotamontes → Ultra Trail Serra da Freita (2006) e a Geira Romana (Dossiês 03 e 15). É aqui que as três genealogias se encadeiam: a corrida de montanha forma a geração; as primeiras «provas com DNA de trail» (1999–2007) esticam o formato; e o trail moderno dá-lhe nome, distância e ligação internacional. O elo não foi uma ruptura — foi um alongamento.
8) Leitura crítica e lacunas
A data de 1998 é um problema, não um dado. A secção 3 di-lo em voz alta: a «1.ª edição de 1998 sob a FPME» não resiste ao confronto com a cronologia. É a lacuna mais consequente, porque contamina afirmações repetidas noutros textos da série, e fica sinalizada como candidata a erratum.
O circuito por regiões antes de 2003 está por reconstruir, e as duas linhagens pedem duas pesquisas — a do atletismo (INATEL/FPA, WMRA, Taça de Portugal) e a do montanhismo (FPME) têm arquivos e protagonistas distintos. Este dossiê identificou a dualidade; documentá-la a fundo é trabalho por fazer. E a fronteira corrida-de-montanha ↔ trail é conceptualmente fluida: não há uma «data de viragem» única, há um alongamento progressivo. Qualquer «primeiro trail» tem de dizer a que genealogia se refere.
9) Convite ao contraditório e contributos
Este é um dos dossiês da série que mais depende de quem tenha memória e papel guardado. São especialmente bem-vindos contributos documentados sobre: cartazes, regulamentos e listas de resultados dos campeonatos e taças de corrida de montanha antes de 2005, em qualquer das duas linhagens; a datação e a tutela real da edição de 1998 (quem organizou, onde, sob que federação); o palmarés completo dos campeonatos nacionais ano a ano; a memória dos organizadores regionais; e testemunhos de atletas da geração 1996–2005 — incluindo Paulo Gonçalves, Lucinda Moreiras, Vitorina Mourato e Vítor Cordeiro. Contributos que permitam triangular ou refutar a data de 1998 são prioritários. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.
Comentários
Enviar um comentário