O Ultra Trail da Serra de São Mamede: a quinta prova icónica, e a que vem do Sul
O artigo-base elege cinco provas icónicas do trail português. Quatro já têm dossiê; faltava a quinta: o Ultra Trail da Serra de São Mamede, do Atletismo Clube de Portalegre. É a mais atípica das cinco — a única a sul do Tejo, a única com raiz no atletismo federado, e o caso onde as três genealogias do trail se encadeiam numa só linha, de 1998 a 2012. Com histórias com fonte: Lucinda Sousa, Vítor Cordeiro, o fórum que fez a prova.
O Ultra Trail da Serra de São Mamede: a quinta prova icónica, e a que vem do Sul
A prova da maior montanha a sul do Tejo. Do pódio nacional de corridas de montanha em 1998 ao ultra de 100 km em 2012 — a genealogia mais limpa do trail português, num só clube e numa só serra.
Quatro das cinco provas icónicas do trail português já tinham dossiê — a Freita, o MIUT, a Geira, as Aldeias do Xisto. Faltava a quinta. E é a mais atípica de todas: a montanha do Sul.
O Ultra Trail da Serra de São Mamede (UTSM), do Atletismo Clube de Portalegre, é a única das cinco que se corre a sul do Tejo, num país cujo trail se conta quase sempre a partir do Norte e das ilhas. É a única com raiz documentada no atletismo federado. E é talvez o caso onde as três genealogias do trail português — corridas de montanha, provas com DNA de trail, trail moderno — se encadeiam de forma mais limpa: uma só linha, um só clube, uma só serra.
1) A serra: o Sul também tem montanha
A Serra de São Mamede ergue-se no Alto Alentejo, junto à fronteira espanhola, entre Portalegre, Castelo de Vide, Marvão e Arronches. O seu ponto mais alto — o Pico de São Mamede, a 1027 metros — é a maior elevação de todo o Portugal continental a sul do Tejo [R602]. Numa geografia mental que associa o Alentejo à planície, é uma anomalia: uma crista quartzítica que rompe a peneplanície. O Parque Natural, criado em 1989 e gerido pelo ICNF, abrange cerca de 56 mil hectares [R602]. Nas encostas norte crescem carvalhais e castanheiros de ambiente quase atlântico; nas do sul, sobreiros e vegetação mediterrânica. Correr São Mamede é correr o desmentido de que o Alentejo é plano. A — Parque Natural / ICNF
2) A genealogia do ACP: 1998 → 1999 → 2009 → 2012
Aqui está o que torna esta prova metodologicamente preciosa. Ao contrário das outras quatro icónicas, o UTSM não brota da vaga UTMB nem dos clubes de montanha: brota de um clube de atletismo de pista, o Atletismo Clube de Portalegre, fundado em 1991 [R601]. E a sua linha genealógica data-se ponto a ponto, atravessando as três genealogias do trail numa só sequência:
Catorze anos separam o pódio nacional de 1998 do primeiro ultra de 2012 — e o mesmo clube, a mesma serra e algumas das mesmas pessoas percorrem-nos de ponta a ponta. O núcleo organizativo era experiência federada pura: João Carlos Correia, director de prova de todas as edições, fora director técnico regional da FPA durante 18 anos e juiz nacional; Vitorina Mourato, cofundadora e hoje tesoureira do clube [R231][R601]. O São Mamede é a excepção mais completa à tese de que «o trail nasceu fora do atletismo federado»: aqui nasceu dentro dele. B — história oficial (fonte interessada) + registo do clube
3) O fórum que fez a prova
O UTSM tem um traço fundacional que merece registo: nasceu de uma conversa online. A primeira edição foi lançada e co-desenhada no fórum «O Mundo da Corrida», mantido por Eduardo Santos — o espaço onde, antes do Facebook, se discutia trail em Portugal. O director de prova é explícito:
Antes de existir, o UTSM foi posto à consulta da comunidade — que distâncias, que datas —, num caso precoce de co-criação de eventos. A prova mais a sul das cinco icónicas nasceu no mesmo fórum de onde saíram outras (Dossiês 10 e 11).
4) As edições e os vencedores
A prova-rainha e os seus vencedores, de 2012 a 2019 (período de palmarés consolidado) e edições recentes verificáveis [R596][R597][R598]:
| Ano | Vencedor (M) | Vencedora (F) |
|---|---|---|
| 2012 (I) | Luiz Carlos da Mota | Maria Gabriel Ribeiro |
| 2013 (II) | Luiz Carlos da Mota | Júlia Conceição |
| 2014 (III) | Hélder Ferreira | Lucinda Sousa |
| 2015 (IV) | Ricardo Silva | Ana Rocha |
| 2016 (V) | João Oliveira | Isabel Moleiro |
| 2017 (VI) | Rodrigo Gregório | Tuxa Negri |
| 2018 (VII) | José Silvério Garcia | Armanda Barroso |
| 2019 (VIII) | Vítor Cordeiro (M55) | Emília Silveira |
| 2022 | por obter | por obter |
| 2023 (X) | Nuno Paiva | Maria João Ribeiro |
| 2025 | Nuno Paiva | Raquel Rivero (ESP) |
5) Histórias com fonte
Lucinda Sousa venceu em 2014 [R596] — e este dado ilumina uma das histórias mais duras da série. A mesma Lucinda Sousa seria, no ano seguinte, a melhor portuguesa nos Mundiais de Annecy (2015): terminou os 84 km em 30.º lugar depois de uma queda lhe ter provocado uma fractura da rótula — correu os restantes 84 km com o osso partido e cruzou a meta [R59]. A vencedora do UTSM de 2014 não era uma corredora qualquer. A — palmarés + cobertura da selecção
Vítor Cordeiro fechou o círculo em 2019. O vice-campeão nacional de corridas de montanha de 1998, do ACP, venceu aos 50 e muitos anos (M55) a edição de 2019 do ultra que o seu próprio clube criou, com apoio popular na chegada [R596][R604]. Vinte e um anos separam o pódio nacional da vitória, na mesma serra, sob as cores do mesmo clube — poucas histórias no trail português desenham um arco tão limpo. Cordeiro continuava em competição em 2025, com mais de 60 anos.
O DNF vivido de 2012. Na estreia, um participante — do blogue Ex-Sedentário — chegou mal preparado, a recuperar de uma lesão no joelho, e abandonou ao km 60, em Marvão, acompanhado por um amigo brasileiro que sacrificou a própria prova para o apoiar [R603]. O regresso de 2019. O corredor Rui Sequeira voltou cinco anos após a estreia e registou na imprensa a transformação da prova e o gesto de Rui Luz, que abdicou da sua posição para socorrer um concorrente lesionado [R604]. B — blogue com autoria + imprensa desportiva
O cut-off do autor, 2023. Quem escreve correu a X edição (108 km); a crónica — com a reserva da auto-citação — ficou no blogue do clube RUN 4 FUN: a barreira horária como adversário do princípio ao fim, a experiência do fundo do pelotão [R348].
6) A prova hoje
O UTSM de meados da década de 2020 ancora-se na distância-rainha de ~108 km e mais de 5000 m de desnível positivo, com formatos mais curtos [R599][R605]. Está nos circuitos internacionais — tem índice ITRA e é index race do UTMB —, inscreve-se pela plataforma Stop and Go e figura no calendário da ATRP [R598][R599][R605]. O rosto competitivo recente é Nuno Paiva, vencedor em 2023 e 2025 [R598]. E há uma nota de circuito que a série documentou: em 2014 o UTSM foi prova-título — «Campeonato de Portugal de Ultra Trail»; em 2016 foi despromovido do escalão de topo; em 2017 regressou (Dossiês 20 e 21). Esteve dos dois lados da linha que separa o prestígio reconhecido pela comunidade do prestígio atribuído por uma estrutura.
7) Leitura crítica e lacunas
Não confundir «icónica» com «grande»: o UTSM não é a maior prova em participantes — a distância-rainha reúne poucas dezenas de finalistas. É icónica pela posição (a montanha do Sul), pela genealogia (o atletismo federado) e pela coerência (ultra desde o primeiro dia), não por escala. Ficam por resolver a numeração das edições e o «buraco» de 2024; os vencedores de 2022 por obter; o NIPC do ACP não localizado em fonte pública; e a cobertura de imprensa regional de Portalegre por explorar. A história oficial é uma fonte valiosa mas interessada — uma história independente do clube e da prova, com actas e testemunhos de terceiros, está por fazer.
8) Convite ao contraditório e contributos
São especialmente úteis contributos documentados sobre: a numeração correcta das edições e o que aconteceu em 2024; os vencedores de 2022 e resultados anteriores em fonte datada; crónicas, cartazes e fotografias das primeiras edições; imprensa regional de Portalegre; e testemunhos de Vitorina Mourato, Vítor Cordeiro, João Carlos Correia, Júlia Conceição e Lucinda Sousa. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.
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