O Ultra Trail da Serra de São Mamede: a quinta prova icónica, e a que vem do Sul

A prova do Atletismo Clube de Portalegre na maior montanha a sul do Tejo. Do pódio nacional de corridas de montanha em 1998 ao ultra de 100 km em 2012

O artigo-base elege cinco provas icónicas do trail português. Quatro já têm dossiê; faltava a quinta: o Ultra Trail da Serra de São Mamede, do Atletismo Clube de Portalegre. É a mais atípica das cinco — a única a sul do Tejo, a única com raiz no atletismo federado, e o caso onde as três genealogias do trail se encadeiam numa só linha, de 1998 a 2012. Com histórias com fonte: Lucinda Sousa, Vítor Cordeiro, o fórum que fez a prova.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 63

O Ultra Trail da Serra de São Mamede: a quinta prova icónica, e a que vem do Sul

A prova da maior montanha a sul do Tejo. Do pódio nacional de corridas de montanha em 1998 ao ultra de 100 km em 2012 — a genealogia mais limpa do trail português, num só clube e numa só serra.

⛰️ Serra de São Mamede · Alto Alentejo 🏃 Atletismo Clube de Portalegre 📚 Dossiê 63 ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Dossiê desenvolvido — ancorado na história oficial da prova (fonte primária, mas interessada), no Atletismo Clube de Portalegre e nas bases ITRA/UTMB. Fecha o mapa das cinco provas icónicas do artigo-base. Proximidade leve declarada: o autor correu a X edição (2023) — crónica assinalada como auto-citação. Lacunas (numeração das edições, o «buraco» de 2024) ficam visíveis, não escondidas.
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal». É a quinta das provas icónicas (§7) — lê-se com a Freita (03), o MIUT (14), a Geira Romana (15) e as Aldeias do Xisto (16), e com o dossiê dos clubes e do Atletismo Clube de Portalegre (09).

Quatro das cinco provas icónicas do trail português já tinham dossiê — a Freita, o MIUT, a Geira, as Aldeias do Xisto. Faltava a quinta. E é a mais atípica de todas: a montanha do Sul.

O Ultra Trail da Serra de São Mamede (UTSM), do Atletismo Clube de Portalegre, é a única das cinco que se corre a sul do Tejo, num país cujo trail se conta quase sempre a partir do Norte e das ilhas. É a única com raiz documentada no atletismo federado. E é talvez o caso onde as três genealogias do trail português — corridas de montanha, provas com DNA de trail, trail moderno — se encadeiam de forma mais limpa: uma só linha, um só clube, uma só serra.

1027 m
Pico de São Mamede — a maior elevação de Portugal continental a sul do Tejo [R602]
100 km
a prova-rainha na estreia (2012); hoje ~108 km e mais de 5000 m de desnível [R231][R599]
1998→2019
o arco de Vítor Cordeiro: vice-campeão nacional de montanha a vencedor M55 do ultra do seu clube [R231][R596]

1) A serra: o Sul também tem montanha

A Serra de São Mamede ergue-se no Alto Alentejo, junto à fronteira espanhola, entre Portalegre, Castelo de Vide, Marvão e Arronches. O seu ponto mais alto — o Pico de São Mamede, a 1027 metros — é a maior elevação de todo o Portugal continental a sul do Tejo [R602]. Numa geografia mental que associa o Alentejo à planície, é uma anomalia: uma crista quartzítica que rompe a peneplanície. O Parque Natural, criado em 1989 e gerido pelo ICNF, abrange cerca de 56 mil hectares [R602]. Nas encostas norte crescem carvalhais e castanheiros de ambiente quase atlântico; nas do sul, sobreiros e vegetação mediterrânica. Correr São Mamede é correr o desmentido de que o Alentejo é plano. A — Parque Natural / ICNF

2) A genealogia do ACP: 1998 → 1999 → 2009 → 2012

Aqui está o que torna esta prova metodologicamente preciosa. Ao contrário das outras quatro icónicas, o UTSM não brota da vaga UTMB nem dos clubes de montanha: brota de um clube de atletismo de pista, o Atletismo Clube de Portalegre, fundado em 1991 [R601]. E a sua linha genealógica data-se ponto a ponto, atravessando as três genealogias do trail numa só sequência:

1998 — corridas de montanha. Na 1.ª edição do Campeonato Nacional de Corridas de Montanha (FPME/FCMP), Vitorina Mourato é campeã nacional feminina e Vítor Cordeiro vice-campeão masculino, ambos do ACP [R231]. Guarde-se o nome de Cordeiro.
1999 — DNA de trail. A 18 de Abril, o ACP organiza na serra um percurso de 11 km up-and-down — «o primeiro trail em Portalegre», na história oficial [R231].
2009 — a resistência como cultura. Nasce o «24h a Correr», evento não competitivo na pista de Portalegre; repete-se quatro anos e «encorajou a criação da prova de 100 km» [R231].
2012 — trail moderno. A 19 de Maio estreia o UTSM: 100 km por três concelhos (Portalegre, Castelo de Vide, Marvão) [R231].

Catorze anos separam o pódio nacional de 1998 do primeiro ultra de 2012 — e o mesmo clube, a mesma serra e algumas das mesmas pessoas percorrem-nos de ponta a ponta. O núcleo organizativo era experiência federada pura: João Carlos Correia, director de prova de todas as edições, fora director técnico regional da FPA durante 18 anos e juiz nacional; Vitorina Mourato, cofundadora e hoje tesoureira do clube [R231][R601]. O São Mamede é a excepção mais completa à tese de que «o trail nasceu fora do atletismo federado»: aqui nasceu dentro dele. B — história oficial (fonte interessada) + registo do clube

3) O fórum que fez a prova

O UTSM tem um traço fundacional que merece registo: nasceu de uma conversa online. A primeira edição foi lançada e co-desenhada no fórum «O Mundo da Corrida», mantido por Eduardo Santos — o espaço onde, antes do Facebook, se discutia trail em Portugal. O director de prova é explícito:

«Na altura tudo o que era discussão sobre trail acontecia no Fórum da Associação O Mundo da Corrida […], e foi aí mesmo que lançámos a prova e inquirimos os eventuais futuros praticantes.»João Carlos Correia, história oficial do UTSM [R231]

Antes de existir, o UTSM foi posto à consulta da comunidade — que distâncias, que datas —, num caso precoce de co-criação de eventos. A prova mais a sul das cinco icónicas nasceu no mesmo fórum de onde saíram outras (Dossiês 10 e 11).

4) As edições e os vencedores

A prova-rainha e os seus vencedores, de 2012 a 2019 (período de palmarés consolidado) e edições recentes verificáveis [R596][R597][R598]:

AnoVencedor (M)Vencedora (F)
2012 (I)Luiz Carlos da MotaMaria Gabriel Ribeiro
2013 (II)Luiz Carlos da MotaJúlia Conceição
2014 (III)Hélder FerreiraLucinda Sousa
2015 (IV)Ricardo SilvaAna Rocha
2016 (V)João OliveiraIsabel Moleiro
2017 (VI)Rodrigo GregórioTuxa Negri
2018 (VII)José Silvério GarciaArmanda Barroso
2019 (VIII)Vítor Cordeiro (M55)Emília Silveira
2022por obterpor obter
2023 (X)Nuno PaivaMaria João Ribeiro
2025Nuno PaivaRaquel Rivero (ESP)
Lacuna assumida — a numeração não fecha. As fontes tratam 2023 como 10.ª edição, mas 2012–2019 dão oito, 2020–2021 foram anos de pandemia e 2022 realizou-se — o que colocaria 2023 como nona. A discrepância aponta para uma edição não contabilizada ou uma contagem que inclui antecedentes; e 2024 é um buraco (a página do evento não apresenta classificações). Prefere-se o buraco visível à afirmação inventada. O que está documentado é a continuidade essencial ao longo de treze anos.

5) Histórias com fonte

Lucinda Sousa venceu em 2014 [R596] — e este dado ilumina uma das histórias mais duras da série. A mesma Lucinda Sousa seria, no ano seguinte, a melhor portuguesa nos Mundiais de Annecy (2015): terminou os 84 km em 30.º lugar depois de uma queda lhe ter provocado uma fractura da rótula — correu os restantes 84 km com o osso partido e cruzou a meta [R59]. A vencedora do UTSM de 2014 não era uma corredora qualquer. A — palmarés + cobertura da selecção

Vítor Cordeiro fechou o círculo em 2019. O vice-campeão nacional de corridas de montanha de 1998, do ACP, venceu aos 50 e muitos anos (M55) a edição de 2019 do ultra que o seu próprio clube criou, com apoio popular na chegada [R596][R604]. Vinte e um anos separam o pódio nacional da vitória, na mesma serra, sob as cores do mesmo clube — poucas histórias no trail português desenham um arco tão limpo. Cordeiro continuava em competição em 2025, com mais de 60 anos.

O DNF vivido de 2012. Na estreia, um participante — do blogue Ex-Sedentário — chegou mal preparado, a recuperar de uma lesão no joelho, e abandonou ao km 60, em Marvão, acompanhado por um amigo brasileiro que sacrificou a própria prova para o apoiar [R603]. O regresso de 2019. O corredor Rui Sequeira voltou cinco anos após a estreia e registou na imprensa a transformação da prova e o gesto de Rui Luz, que abdicou da sua posição para socorrer um concorrente lesionado [R604]. B — blogue com autoria + imprensa desportiva

O cut-off do autor, 2023. Quem escreve correu a X edição (108 km); a crónica — com a reserva da auto-citação — ficou no blogue do clube RUN 4 FUN: a barreira horária como adversário do princípio ao fim, a experiência do fundo do pelotão [R348].

6) A prova hoje

O UTSM de meados da década de 2020 ancora-se na distância-rainha de ~108 km e mais de 5000 m de desnível positivo, com formatos mais curtos [R599][R605]. Está nos circuitos internacionais — tem índice ITRA e é index race do UTMB —, inscreve-se pela plataforma Stop and Go e figura no calendário da ATRP [R598][R599][R605]. O rosto competitivo recente é Nuno Paiva, vencedor em 2023 e 2025 [R598]. E há uma nota de circuito que a série documentou: em 2014 o UTSM foi prova-título — «Campeonato de Portugal de Ultra Trail»; em 2016 foi despromovido do escalão de topo; em 2017 regressou (Dossiês 20 e 21). Esteve dos dois lados da linha que separa o prestígio reconhecido pela comunidade do prestígio atribuído por uma estrutura.

7) Leitura crítica e lacunas

Não confundir «icónica» com «grande»: o UTSM não é a maior prova em participantes — a distância-rainha reúne poucas dezenas de finalistas. É icónica pela posição (a montanha do Sul), pela genealogia (o atletismo federado) e pela coerência (ultra desde o primeiro dia), não por escala. Ficam por resolver a numeração das edições e o «buraco» de 2024; os vencedores de 2022 por obter; o NIPC do ACP não localizado em fonte pública; e a cobertura de imprensa regional de Portalegre por explorar. A história oficial é uma fonte valiosa mas interessada — uma história independente do clube e da prova, com actas e testemunhos de terceiros, está por fazer.

8) Convite ao contraditório e contributos

São especialmente úteis contributos documentados sobre: a numeração correcta das edições e o que aconteceu em 2024; os vencedores de 2022 e resultados anteriores em fonte datada; crónicas, cartazes e fotografias das primeiras edições; imprensa regional de Portalegre; e testemunhos de Vitorina Mourato, Vítor Cordeiro, João Carlos Correia, Júlia Conceição e Lucinda Sousa. Canais: comentário em dorsal1967.blogspot.com ou email no rodapé do blog.

Referências

[R59] IAU Trail World Championships Annecy 2015 / cobertura da primeira selecção portuguesa — Lucinda Sousa, 30.ª (11:41:02), com fractura da rótula (cf. Dossiês 05 e 06).
[R231] UTSM / Atletismo Clube de Portalegre — «A história do UTSM» (texto de João Carlos Correia, director de prova): antecedente de 1999, «24h a Correr» desde 2009, 1.ª edição 19/05/2012 (100 km), lançamento no fórum O Mundo da Corrida, Vitorina Mourato cofundadora: utsm.pt
[R348] RUN 4 FUN (blogue do clube; auto-citação do autor) — «X Ultra Trail da Serra de São Mamede» (2023, 108 km): o cut-off vivido: run4f.blogspot.com
[R596] Wikipédia — UTSM (Ultra Trail de São Mamede): palmarés M/F da prova-rainha 2012–2019 e lista de edições: pt.wikipedia.org
[R597] joaolima.net — UTSM / Trail Curto: datas e distâncias por edição (2012–2019): joaolima.net
[R598] UTMB Index — UTSM 100K: perfis de percurso, desnível, vencedores de 2023 e 2025, perfil de Nuno Paiva: utmb.world
[R599] ITRA — UTSM: pontos ITRA, formato por etapas, distâncias e desnível (edição de 2025): itra.run
[R601] Atletismo Clube de Portalegre — «Quem somos» (fundação em 1991; direcção; Vitorina Mourato tesoureira; «24h a Correr»): acportalegre.com
[R602] Wikipédia — Parque Natural da Serra de São Mamede (criado em 1989; ~56 000 ha; Pico de São Mamede 1027 m, maior a sul do Tejo; concelhos; geologia e vegetação): pt.wikipedia.org
[R603] Ex-Sedentário — crónica de DNF na 1.ª edição do UTSM (2012): exsedentario.pt
[R604] Record Running (Jornal Record) — testemunho de Rui Sequeira sobre o UTSM de 2019 (regresso; vitória de Vítor Cordeiro; fair-play de Rui Luz): record.pt
[R605] Stop and Go — UTSM (plataforma de inscrição; formatos e distâncias da edição recente): stopandgo.net
Remissões internas: Dossiês 03 (Freita), 14 (MIUT), 15 (Geira Romana) e 16 (Aldeias do Xisto) — as outras quatro icónicas; 07 e 09 (Vitorina Mourato, Vítor Cordeiro e o ACP); 10 e 11 (O Mundo da Corrida e os fóruns); 05 e 06 (Lucinda Sousa e os Mundiais); 20 e 21 (despromoção de 2016 e circuito nacional); 26 (veteranos); 44b e 44c (o cut-off e o fundo do pelotão).
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Correste o São Mamede, conheces a numeração certa das edições ou tens crónicas, cartazes e fotografias das primeiras provas? Sabes o que aconteceu em 2024? Correcções documentadas são bem-vindas nos comentários.
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