Treino e treinadores: do autodidacta ao coaching estruturado

Durante anos, o trail português treinou-se a si próprio. A passagem para o treino estruturado, contada pelo caso melhor documentado —

Post da série História do Trail Running em Portugal: treino e treinadores — da cultura autodidacta ao coaching estruturado, pelo caso melhor documentado (o treinador Paulo Pires, ligado a Carlos Sá e à beAPT) e pela memória de quem foi seu atleta. Lacunas declaradas e proximidade do autor.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 28

Treino e treinadores: do autodidacta ao coaching estruturado

Durante anos, o trail português treinou-se a si próprio. A passagem para o treino orientado, contada pelo caso melhor documentado — e pela memória de quem a viveu do lado do atleta.

📍 Portugal 📅 2011–2015 📚 Dossiê 28 · Dimensões transversais ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Rascunho estruturado. Documenta um fio bem sustentado da passagem do treino autodidacta ao estruturado no ultra trail — o percurso do treinador Paulo Pires (Carlos Sá, plataforma beAPT, Armada Portuguesa do Trail) —, cruzado com o testemunho directo do autor, que foi seu atleta. O panorama largo (outros treinadores, ciência do desporto, profissionalização) fica como lacuna declarada. Proximidade declarada. Desambiguação obrigatória: há dois «Paulo Pires» — este é o treinador.
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal: Uma História de Montanha, Resistência e Comunidade». Lê-se em diálogo com o Dossiê 01 — Carlos Sá (o atleta orientado por Paulo Pires) e com o Dossiê 09 — Clubes de trail (o fórum O Mundo da Corrida e o outro «Paulo Pires»).

Durante a maior parte da sua história, o trail português treinou-se a si próprio: o «plano» era o que se lia num fórum ou o que um amigo mais experiente aconselhava. A passagem dessa cultura autodidacta para o treino estruturado com treinador é uma das transformações silenciosas da modalidade — e das menos documentadas. Este dossiê não a esgota: fixa o caso melhor documentado do segmento de elite e junta-lhe a memória de quem viveu a mudança do lado do atleta.

Declaração de interesses e proximidade

Este dossiê é escrito de dentro, e por duas vias. Primeira: o autor é cofundador da ATRP (direcção fundadora, 2012), e a certificação de treinadores foi um dos temas em que a associação se dividiu (secção 5) — tratado com a distância possível e remetido para os Dossiês 19, 20 e 43.

Segunda, e mais directa: o autor foi atleta treinado pelo protagonista deste dossiê. Nas épocas de 2012 a 2014 treinou com Paulo Pires (o treinador) no quadro da APT — Armada Portuguesa do Trail, depois de uma época (2011/2012) treinada por Eduardo Santos em pista, no Jamor. O testemunho que daí resulta é de confiança A\*, mas é também um interesse a declarar: não se escreve com neutralidade sobre quem nos fez os planos de treino. A memória pessoal é identificada como tal. [R355; R230.]

Nota de desambiguação — os dois Paulo Pires

Existem, na comunidade de trail portuguesa, pelo menos dois protagonistas com o nome Paulo Pires, e confundi-los seria um erro de facto:

Paulo Pires, treinador — o protagonista deste dossiê. Formado na FADEUP, treinador de ultramaratonistas (incluindo Carlos Sá), criador da plataforma beAPT e ligado à Armada Portuguesa do Trail.

Paulo Pires, cronista do Corremaisblogger amador e criador dos Treinos Lunares da Costa da Caparica, tratado no Dossiê 09. Não é o treinador.

Os nomes coincidem e ambos aparecem em contextos de trail no mesmo período (2011–2014). Neste dossiê, «Paulo Pires» refere sempre o treinador, salvo indicação expressa.

1) O ponto de partida: uma modalidade autodidacta

O trail português não herdou uma cultura de treino. As duas genealogias que lhe deram origem — as corridas de montanha federadas (FPME/FCMP, 1995–2005) e as provas com ADN de trail em terreno natural (1999–2007) — traziam gente do montanhismo, do alpinismo e da corrida de estrada popular, não de escolas de treino de resistência. O saber circulava de forma horizontal: o que se lia nos fóruns (O Mundo da Corrida, o Portal do Corredor), o que se copiava de planos de maratona de estrada, o que um veterano ensinava a um estreante numa saída longa de domingo. Era eficaz para muita gente — mas era, na sua essência, autodidacta. [R230.]

Essa herança não é um defeito a corrigir: é uma característica que a série documenta repetidamente. O trail cresceu como cultura comunitária, e a comunidade foi, durante anos, o seu próprio quadro técnico. O que muda a partir do início da década de 2010 é o aparecimento, no segmento de elite, de treino estruturado com treinador dedicado — e é aí que o caso de Paulo Pires se torna documentável.

Lacuna assumida — a história larga do treino. Este dossiê não reconstitui a história completa da cultura de treino no trail português: faltam-lhe os outros treinadores (de elite e de base), o mapa dos grupos e clubes com treino orientado, e uma medição de quando e quanto a periodização estruturada substituiu o autodidactismo na base da pirâmide. O que se segue é o fio mais bem documentado — o do topo —, não o todo.

2) Paulo Pires, o treinador: do montanhismo ao alto rendimento

O perfil biográfico está apenas parcialmente documentado, mas o essencial é triangulável. Em Novembro de 2012, a Visão descreve-o como «o treinador Paulo Pires, 42 anos» — o que o coloca a nascer por volta de 1969–1970 (corroborado pela sua assinatura digital de época, paulopires70). A mesma peça fixa dois traços: é professor de Educação Física com especialização em alto rendimento, com formação ligada à FADEUP (Faculdade de Desporto da Universidade do Porto), e vem do montanhismo — era «antigo companheiro de Carlos [Sá] dos tempos do montanhismo». [R349.] Como boa parte da primeira geração do trail português, Pires não chega ao ultra pela pista: chega pela montanha — e converte essa experiência de terreno em método.

A relação que o torna público é a que mantém com Carlos Sá. Está documentada pelo menos desde Abril de 2011, quando o JPN o identifica como «treinador de Carlos Sá» e cita a sua leitura do atleta — a resiliência como a maior qualidade. [R350.] É reafirmada em 2012 (Visão) e mais tarde em declarações ao Record. [R349; R351.] Ou seja: o ciclo internacional de Carlos Sá — o mesmo que a série documenta no Dossiê 01, com a vitória na Badwater em 2013 como ponto alto — teve, na retaguarda, um treino orientado por um profissional, e não um plano autodidacta. É o primeiro sinal claro de que o alto rendimento do trail português passou a assentar em treino estruturado.

O episódio mais concreto dessa passagem à esfera pública é de Março de 2013: na véspera dos Trilhos do Paleozóico, em Valongo, Carlos Sá e Paulo Pires co-dinamizam as 1.ªs Jornadas Técnicas do Trail, sob o tema «Aventura ao limite». O anúncio da época descreve Pires, sem rodeios, como «treinador de ultra maratonistas». [R262.] Umas jornadas técnicas na véspera de uma prova são um gesto pequeno, mas simbólico: é o momento em que o conhecimento de treino deixa de circular só entre atleta e treinador e passa a ser oferecido, em formato de formação, à comunidade que corre.

3) A beAPT: o treino estruturado vira plataforma

O passo seguinte de Pires foi transformar o seu método numa plataforma digital de treino — a beAPT (também grafada beAPT_endurance). A lógica é a do treino individualizado à escala: planos construídos segundo os objectivos e o perfil biométrico de cada atleta, a partir de uma metodologia de base aeróbia e do apoio de uma equipa multidisciplinar. O parceiro tecnológico é a LOBA (software). [R353; R352.]

O que dá a este projecto uma âncora institucional — e o distingue de um simples serviço comercial de coaching online — é o seu ponto de apresentação: a FADEUP, no Auditório Alberto Amaral. A notícia institucional da Faculdade de Desporto do Porto descreve a plataforma como «associada a um software baseado na metodologia e experiência de treino do treinador Paulo Pires» e identifica-o, explicitamente, pelas suas assinaturas — paulopires_apt, ultradistancecoach — e pela ligação «Armada Portuguesa do Trail-APT-beAPT». [R352.] É uma fonte importante por duas razões: coloca o treino de ultra trail dentro de uma faculdade de desporto (um sinal de institucionalização do conhecimento) e é a fonte pública que documenta o vínculo entre Paulo Pires, a APT e a beAPT — um elo que, até aqui, dependia sobretudo de memória.

A lista de atletas que a plataforma associa ao método é recorrente nas suas fontes, e cruza-se com vários dossiês da série: Carlos Sá (Dossiê 01), Armando Teixeira, Lucinda Sousa (Dossiês 05 e 07), David Quelhas, Natércia Silvestre, Francisco Freitas, Leonardo Diogo, Luís Fernandes. [R353 — confiança B; comunicação da própria plataforma, não auditada.] Não é um palmarés de treino — é uma associação divulgada pela plataforma —, mas dá a dimensão do que estava em causa: um núcleo de ultra-trailers de topo a partilhar um mesmo quadro metodológico.

4) A Armada Portuguesa do Trail: o testemunho do atleta

Aqui, o dossiê muda de registo — do documentado para o vivido —, e a marca de proximidade é obrigatória. A APT — Armada Portuguesa do Trail foi a estrutura de treino no quadro da qual o autor deste dossiê foi atleta, nas épocas de 2012 a 2014. É a experiência directa da passagem que este texto descreve: sair de um treino essencialmente autodidacta — a leitura de fóruns, os planos de maratona de estrada adaptados a olho — e entrar num plano orientado, com progressão, intenção e um treinador do outro lado. (Testemunho directo do autor.)

O que fica por documentar na APT. A cronologia da Armada Portuguesa do Trail (datas de início e fim), a sua forma (grupo de treino, marca, projecto informal) e a relação formal entre Paulo Pires e Armando Teixeira — referido, em rascunhos antigos deste dossiê, como associado ao projecto — não estão estabelecidas em fonte pública para além do elo «APT-beAPT» que a notícia da FADEUP fixa [R352]. Até se obter documentação, tudo o que ultrapasse esse elo e o testemunho do autor fica assinalado como memória, não facto. Armando Teixeira é matéria do Dossiê 24 (a Armada Portuguesa), ainda incompleto.

O que o testemunho permite afirmar, com a devida marca, é o antes e o depois. Antes da APT, na época de 2011/2012, o autor treinou com Eduardo Santos no Centro de Treino d'O Mundo da Corrida, em pista, no Jamor — o mesmo O Mundo da Corrida que a série documenta no Dossiê 09 como o fórum que se tornou clube e escola. É uma trajectória pessoal que espelha a colectiva: do fórum ao treino em pista, do treino em pista ao plano de ultra trail orientado. A passagem do autodidacta ao estruturado não foi, para muitos atletas da época, uma decisão teórica — foi mudar de treinador e de método, uma época de cada vez. [R355.]

5) Do alto rendimento à governação: o treino como causa institucional

Há uma dimensão de Paulo Pires que ultrapassa o treino de atletas e liga este dossiê ao eixo institucional da série. Em 2015, é indicado para o Conselho Consultivo de uma das listas candidatas à direcção da ATRP (a lista de João Colaço). Nessa qualidade, é uma voz activa em três frentes que dizem directamente respeito a este tema: o controlo anti-doping (que defende como «urgente […] por uma questão de transparência, confiança e saúde pública»); a acreditação e certificação de treinadores de trail, argumentando pela especificidade da modalidade face ao modelo da federação de atletismo; e os critérios de segurança das provas. [R354 — correspondência primária da lista interna da ATRP; ver aviso abaixo.]

Aviso de proximidade e de fonte. Esta secção assenta em correspondência interna da ATRP de 2015, a que o autor tem acesso por ter sido dirigente — fonte primária, mas privada e não publicada, pelo que se cita apenas o sentido das posições, sem reproduzir o material. A leitura é a de quem esteve dentro da associação. A questão de fundo — quem certifica um treinador de trail, e segundo que modelo — é uma das linhas de tensão entre a ATRP e a FPA, tratada nos Dossiês 20 e 43.

A leitura que interessa a este dossiê é a seguinte: o mesmo protagonista que representa o treino estruturado de elite (Carlos Sá, beAPT) é também quem leva para a mesa da governação associativa a exigência de formar e certificar treinadores e de controlar o doping. Não foi só um técnico; foi um actor que quis inscrever o treino profissional na regulação da modalidade. É a prova de que a profissionalização do treino e a institucionalização do trail não são histórias separadas — cruzam-se na mesma pessoa.

6) O que este dossiê ainda não resolve

Lacunas prioritárias
  • Os outros treinadores. O dossiê documenta um caso de elite; falta o resto do quadro técnico — treinadores de clube, de grupo e de base que estruturaram o treino de centenas de praticantes sem nunca aparecerem na imprensa.
  • A penetração da ciência do desporto. Que ligações reais existem entre as faculdades de desporto, a fisiologia do esforço e o treino de trail no terreno? A beAPT/FADEUP é um ponto de contacto documentado; falta o mapa. (Cruza com o Dossiê 39.)
  • A cronologia e a forma da Armada Portuguesa do Trail, e a relação Paulo Pires / Armando Teixeira. (Lacuna assumida — secção 4; também Dossiê 24.)
  • Quantos atletas se profissionalizam. A profissionalização parcial dos atletas é matéria própria do Dossiê 30; este dossiê limita-se ao treino como profissão e serviço.
  • A passagem do autodidacta ao estruturado na base, não só na elite: quando o praticante comum trocou o plano copiado de um fórum por treino orientado.
  • Dados biográficos por fechar de Paulo Pires: data de nascimento exacta, percurso académico preciso (a menção a um «mestrado em Gestão do Desporto» surge num único resultado de pesquisa, não confirmado) e cópia local estável do perfil beAPT (domínio instável em Junho de 2026).

7) Próximo passo editorial

Quem contactar

A lacuna central resolve-se por contacto directo com protagonistas ainda acessíveis. Por ordem de prioridade: (i) Paulo Pires (o treinador), para fixar biografia, cronologia da APT/beAPT, metodologia e a sua leitura da passagem do autodidacta ao estruturado; (ii) Eduardo Santos e outros dinamizadores de treino de O Mundo da Corrida, para o lado da base e dos fóruns; (iii) atletas orientados (Carlos Sá, Armando Teixeira, Lucinda Sousa e outros) sobre a experiência de serem treinados; (iv) faculdades de desporto sobre a ligação entre ciência e terreno. Os contributos documentados serão integrados como fonte primária (escala A), com consentimento e atribuição.

Referências e remissões
[R230] Artigo-base da série (dorsal1967, Maio 2026) e testemunho do autor · [R262] Correr por Prazer — «Trilhos do Paleozóico» (27/01/2013): 1.ªs Jornadas Técnicas do Trail, Pires «treinador de ultra maratonistas» (= fonte do Dossiê 09) · [R349] Visão — «Carlos Sá, nascido para correr» (23/11/2012): idade (42 → c. 1969–70), professor de EF/alto rendimento, FADEUP, origem no montanhismo · [R350] JPN / Jornal de Notícias — «Treinador de Carlos Sá aponta a resiliência…» (26/04/2011): relação treinador–atleta desde 2011 · [R351] Record — «Paulo Pires: Carlos Sá é o melhor do Mundo»: declarações do treinador · [R352] FADEUP — «Apresentação da plataforma digital de treino beAPT» (sigarra.up.pt): metodologia de Pires, parceiro LOBA, vínculo público «Armada Portuguesa do Trail-APT-beAPT»; cópia local no dossiê · [R353] beAPT — beapt-endurance.com, perfil de treinador: metodologia de base aeróbia, equipa multidisciplinar, atletas associados (domínio instável, Jun 2026) · [R354] Correspondência interna da ATRP («Forumatrp», 2015): Conselho Consultivo (lista João Colaço); anti-doping, certificação de treinadores, segurança · [R355] Testemunho directo do autor: atleta treinado por Paulo Pires (APT, 2012–2014) e antes por Eduardo Santos (O Mundo da Corrida, Jamor, 2011/12)
Remissões internas da série: Dossiês 01 (Carlos Sá), 09 (Clubes / O Mundo da Corrida / o outro Paulo Pires), 24 (Armada Portuguesa), 19, 20 e 43 (ATRP e regulação), 27 (Organizadores-atletas), 30 (Profissionalização dos atletas), 39 (Investigação académica), 05 e 07 (Lucinda Sousa).
Este dossiê documenta um fio bem sustentado (Paulo Pires, treinador de elite) cruzado com o testemunho do autor. O panorama largo — outros treinadores, ciência do desporto aplicada, profissionalização — continua assinalado como lacuna assumida. O perfil consolidado do treinador está em pesquisa-paulo-pires-treinador-2026-06.md. Onde a única base é a memória do autor, o texto di-lo.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Treinaste — ou treinaste alguém — no trail, de elite ou de base? Lembras-te de como se montavam planos antes das plataformas, e de que fóruns e pessoas serviam de referência? Sabes datas e nomes da Armada Portuguesa do Trail? Os comentários abaixo são o sítio certo. E, se encontrares uma fonte que confunda os dois «Paulo Pires», diz — é a correcção mais útil que este dossiê pode receber.
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