terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

XXVIII Maratón Ciudad de Sevilla

Às 5h30 de uma madrugada bem fresca, um Taxi amarelo deixou-me  debaixo do viaduto do Campo Grande. Dei uma voltinha por ali, tentando localizar o ponto onde o autocarro fretado pela colectividade desportiva “A Real Academia” me apanharia para dar início à longa viagem até Sevilha. Às 5h40 liguei para o meu amigo Carlos Silva, que já se encontrava em frente às roullotes, e juntei-me a ele. Com ele encontravam-se mais alguns atletas que também se preparavam para encetar a viagem até ao local da Maratona. Ali estivémos em amena cavaqueira durante algum tempo e começámos a estranhar a camioneta nunca mais aparecer, visto que a hora combinada para nos encontrarmos ali eram as 5h45. Como o autocarro vinha de Mem Martins, fomos supondo que alguem se teria atrasado e como estavamos na companhia de outros atletas, pareceu-nos que havia que aguardar com paciência. Por volta das 6h15 surgiu enfim um autocarro e nós corremos a acercarmo-nos dele. No entanto, já depois de estarmos confortavelmente sentados lá dentro (!), descobrimos que se tratava do autocarro de “O Mundo da Corrida” e não aquele que tão ansiosamente aguardávamos!

Liguei para o nosso companheiro do Run 4 Fun, o Renato Velez, que se encontrava em Setúbal, o local seguinte de paragem. O autocarro já lá se encontrava, pois aparentemente tinha passado pelo Campo Grande cerca das 5h35 e ninguém verificou se nós teriamos embarcado. Felizmente o Renato falou com a organização que se prontificou a esperar por nós enquanto o Carlos conduzia velozmente o seu automóvel até Setubal (ressalvo que a organização se portou sempre impecávelmente connosco).

E foi assim que começou, com um equivoco digno de um filme cómico, uma animada, divertida e cheia de peripécias, viagem até Sevilha.

O autocarro ia cheio com muitas das simpáticas habituais presenças nestes eventos, animados como sempre.

Chegámos cerca das 14h30 locais e fomos logo levantar os dorsais ao estádio olimpico. Depois fomos almoçar as massas do costume e fizemos o check-in no Hotel.  Eu e o grupinho de Setúbal ocupámos dois quartos duplos: eu, o Gonçalo e o Vítor num, e o Renato, o Rui e o Hélder noutro. Posso-vos dizer que foi uma tarde muito animada, na galhofa com esta malta divertida.

Para o jantar, em lugar de massa com molho, resolvi variar e comer molho com massa. Deitei-me cedo e cedo adormeci, pois não sofro da “angústia do guarda-redes antes do penalti.”

A meio da noite mais uma peripécia: tive que me levantar e, que ideia peregrina!, para não acordar os companheiros resolvi não acender a luz e usar o telemóvel como lanterna. Assim que entro na casa de banho, o telemóvel, como que movido por vontade própria, escapa-se-me das mãos e zás, com infalível pontaria, acerta em cheio na sanita.

Mas mais vale passar um véu sobre este acontecimento desagradável e basta dizer que era o único despertador que eu possuia comigo e assim fiquei dependente da wake-up call da recepção, que felizmente não falhou, pontualmente às 7h30 locais.

O resto da malta já tinha partido no autocarro para o estádio, mas nós os 6, mais o Gustavo, tínhamos combinado apanhar um taxi para não sermos obrigados a acordar às 6h da madrugada. Foi uma boa estratégia pois às 8h45 já lá estávamos, no estádio, equipados e prontos para deixar os sacos com a muda de roupa. Estava uma manhã fresca, mas solarenga e que ameaçava aquecer.


Às 9h30 tinha conseguido um lugar excelente, na linha da partida, mesmo atrás do balão das 3h00. Às 9h31 é dado o “tiro de partida” e arrancamos à desfilada por ali fora, espicaçados pelo medo de sermos atropelados no túnel de saída do estádio.

É agora o momento de fazer um flashback para o início de Janeiro. Em Janeiro inscrevi-me no Centro de Treino de “O Mundo da Corrida” no Jamor, com o intuíto de ter um acompanhamento mais profissional e um plano de treinos estruturado.  As primeiras 4 semanas foram passadas a preparar o II Ultra-Trilhos dos Abutres, e sobrou pouco tempo para preparar a Maratona de Sevilha. No entanto os treinos de séries e de força, foram sem dúvida importantes para melhorar a minha capacidade física.

O meu objectivo expresso para esta corrida situava-se nas 2h55, o que constituiria uma melhoria de alguns minutos em relação ao resultado alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa (2:57’58’’).

Fim de flashback. Saí do estádio no encalço do balão, que já era seguido por um grupo muito numeroso. Pouco depois juntou-se a mim o Carlos, correndo descontraído, apesar da lesão contraída recentemente no joelho. Dois ou três quilómetros depois passa por nós o Eduardo Santos, em grande ritmo. Seguimos o balão durante os primeiros 11 kms, pois prosseguia a um ritmo de cerca de 4’07’’/km, o que me permitiria atíngir o objectivo. Contudo os encontrões permanentes, as dificuldades nos abastecimentos e a necessidade de fazer as curvas pelo lado de fora, fizeram-me sentir a necessidade de acelerar e deixar este magote para trás.

Assim avançámos e seguimos os dois sózinhos. Fui ingerindo géis de 5 em 5 km, com a preocupação de manter um nível permanente de energia facilmente mobilizável. Verifiquei constantemente o ritmo cardíaco para confirmar o meu nível de esforço.  Nos primeiro 15 kms rondou os 150 bpm, ou seja, um ritmo muito confortavel.

Passámos à meia-maratona em 1:28’16’’ com boas perpectivas de cumprir o objectivo. Pouco depois, cruzei-me com o João, a Luísa Ralha e a Cristina Caldeira, que iam acompanhar os últimos kms de alguns companheiros Run 4 Fun.

Infelizmente por volta do 26º Km o Carlos teve de abrandar, para não massacrar mais a lesão. Eu continuei em muito bom ritmo até ao 35º Km. O ritmo cardíaco aguentou-se abaixo dos 157 bpm até este ponto.

 A partir daí tive que baixar o ritmo para os 4’16’’/km e depois para 4’20’’/km (o cardíaco foi subindo paulatinamente até aos 160 bpm). O objectivo esfumou-se numa miragem inatingível. As pernas ameaçavam ceder a qualquer momento. Estava a chegar ao limite e eu sabia-o.

Só nos últimos 2 quilómetros é que, acicatado pela próximidade do estádio e pela iminência de nem sequer conseguir melhorar o meu PBT, me atrelei a um compatriota que passou por mim e lá acelerei buscando as restantes forças, onde quer que elas se encontrassem.  Fiz o último km abaixo dos 4’00’’/km e dei o tudo por tudo no tartan do estádio. Na recta final conseguia ver os segundos a passarem no mostrador electrónico: 2:57’54’’...55’’...56’’...57’’ e já está!!!!!


A temperatura fresca e o percurso plano conjugaram-se para criar as condições propícias ao quebrar de recordes pessoais. No meu caso, proporcionaram-me uma melhoria à lá Sergey Bubka (salvo as óbvias diferenças): melhorei precisamente um segundo em relação ao meu Personal Best Time (PBT) oficial, alcançado em Dezembro na Maratona de Lisboa!


Depois revi a malta e fui tomar banho nas instalações do estádio. Juntei-me ao Gonçalo e fomos beber umas cervejas “isotónica” geladinhas.

A malta foi terminando a corrida e juntando-se em redor do autocarro. Iríamos todos juntos almoçar mais uma pratada de massa (acabou por ser paella), na Isla Magica.

E mais uma peripécia se desenrolou ante os meus incrédulos olhos. Na comitiva tinha vindo um senhor mais idoso e invisual, que correu acompanhado por um guia. Entretanto já tinham chegado todos os retardatários e nada de chegar este último par. Começámos a ficar compreensivelmente preocupados, sobretudo quando as 5 horas limite para o encerramento do percurso se completaram.

Lá decidimos ir almoçar, enquanto o Álvaro, da Real Academia, encetava demarches para descobrir do seu paradeiro.

Almocei na alegre companhia do grupo laranjinha, Run 4 Fun, cujos membros se encontravam bastante satisfeitos por mais uma aventura completada com sucesso.

Depois do almoço fomos ver se já havia novidades. Nada! Já havia sido contactada a organização da prova, os hospitais, a polícia e ninguém sabia de nada. Parecia que duas pessoas, uma envergando um dorsal e outra uma indicação fluorescente com a palavra “Guia” tinham desaparecido da face da terra! Eu pensaria que um tal par constituiria uma visão que se destacaria um pouco mais que um elefante cor-de-rosa numa reunião dos alcoólicos anónimos...

Já se conjecturava de tudo. Desidratação, ataque cardíaco, etc, etc (houve até alguém que aventou a hipótese delirante de eles se terem zangado um com o outro...). Mas claro que a verdadeira explicação, que estava prestes a ser revelada, é sempre simultaneamente mais simples e mais fantástica do que qualquer conjectura.

Finalmente lá chegaram os dois, entregues pela organização da Maratona.

O que é que tinha acontecido?

A verdade é que chegados cerca do 32º km foram abordados pela organização, que lhes deu duas opções: ou eram recolhidos naquele ponto ou então seguiam por sua conta e risco, pois a maratona tinha sido encerrada. Temerariamente, resolveram seguir, procurando a marcação azul no chão, mas rapidamente se perderam e acabaram por percorrer bem mais do que os 42 kms. O que é certo é que, numa notável demostração de persistência e determinação, lá conseguiram chegar à meta, no estádio, onde foram então recolhidos pela organização.

Por fim, lá arrancámos com destino a Lisboa, onde chegámos já depois das 22h. O Carlos teve a amabilidade de me levar até casa, onde cheguei cansado mas muito satisfeito por um fim-de-semana bastante agitado e divertido. É desta matéria que são feitas as histórias que hei-de contar aos meus netos, quando os tiver (se não estiver nessa altura muito aterefado a gerar novas histórias noutras aventuras desportivas).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

11 Lições que a Corrida me ensinou em outras tantas Provas



A Corrida tem sido para mim uma fonte constante de aprendizagem, tanto ao nível desportivo como ao nível pessoal. Como o escritor Haruki Murakami tão bem descreve na sua auto-biografia desportiva, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo", a corrida é uma excelente metáfora da própria vida.

 Julgo poder afirmar (e peço que desculpem o meu pretensiosimo) que se podem ilustrar algumas importante lições de vida, tanto das minhas próprias experiências como das que observo nos meus companheiros de métier. Vou aqui descrever algumas dessas lições, identificadas em provas relevantes.


1.    O fundamental é o prazer de participar.

19ª Meia Maratona de Lisboa, 2009: num período extremamente ocupado da minha vida, resolvi participar na Meia Maratona de Lisboa. Infelizmente, tudo o que consegui fazer, à laia de preparação, foram 2 treinos de 10 km a 3 semanas da prova. Há meses que não corria regularmente, mas as saudades de participar numa prova eram muitas. Assim, lá alinhei na linha de partida, no dia 22 de Março, pronto para sentir a exaltação que a corrida sempre me proporciona. Fisicamente custou-me bastante fazer todo o percurso, e terminei os 21,1 kms com o meu pior registo de sempre, 2h22m, 5026º classificado num total de 5504 atletas que terminaram. Ainda assim, posso afirmar, inequivocamente, que a alegria de participar compensou bastamente tudo o resto.

2.    Se não conseguires correr, anda.

25ª Maratona de Lisboa, 2009: naquela que foi a minha estreia na mítica distância, atingi o famoso “muro” cerca do 30º km. Estava a sentir-me razoavelmente bem, a correr a um ritmo bem abaixo dos 6’/km e, de repente, numa questão de algumas dezenas de metros, tudo o que conseguia fazer eram uns muito penosos 8’/km. Tive que me arrastar arduamente até à linha da meta, onde terminei com um registo de 4h10m. Nesses últimos 10 kms andei mais do que corri, mas cheguei ao fim e cumpri o objectivo, que era tão somente terminar a minha primeira maratona.

3.    Acompanhado é mais fácil e mais divertido.

III Ultra Trail da Geira, 2010: tratou-se da minha primeira experiência em trail, e logo na distância de 50 km. Pouco depois do 8º km, juntei-me a um companheiro que corria ao mesmo ritmo que eu e, a partir daí, seguimos o restante caminho apoiando-nos mutuamente, trocando histórias de vida, e puxando um pelo outro. Sem a sua ajuda eu teria tido muita dificuldade em conseguir correr os últimos 10 km. No fim cruzámos a meta juntos, para selar a amizade que se foi cimentando pelo caminho.
Foi este também o primeiro trail em que fui acompanhado pela minha família, que participou na caminhada (a primeira de muitas) e me proporcionou mais um fim-de-semana divertido e inesquecível. Devo dizer que o seu apoio constante, tanto nos treinos como nas provas, tem sido fundamental para o meu desenvolvimento pessoal, enquanto desportista e enquanto pessoa.

4.    Não deixes que um revês te esmoreça.

I Ultra Trail de Sesimbra, 2011: cerca de 9 kms depois do início desta prova de 50 kms, ia bem posicionado dentro dos 20 primeiros lugares, seguindo absorto num grupo de 6 atletas. Neste ponto enganámo-nos no percurso e percorremos cerca de 1 km até nos apercebermos do erro. Quando retomámos o percurso original eu tinha caído para 97º lugar da geral, ou seja, para a cauda da corrida.  Depois tive que recuperar, paulatinamente e com alguma dificuldade, deste atraso. O que é certo é que, por ter acreditado e, quem sabe, talvez espicaçado por este revês, consegui terminar a corrida em 21º lugar, após 6h32m de muita dureza, mas também de muita beleza natural.

5.    Acredita sempre.

5º Ultra Trail da Freita, 2010: O tempo limite para acabar esta prova de 70 kms tinha sido fixado em 15 horas pela organização. Já só restaria cerca de uma hora quando ainda me faltava cumprir um dos troço mais exigentes (o famoso PR7), composto por uma descida muito técnica seguido por uma subida tão abrupta que me via forçado a parar a cada dezena de metros para recuperar o fôlego. Neste ponto confesso que tive algumas dúvidas em que conseguisse terminar dentro do tempo permitido. Contudo, forcei-me a continuar a subir o mais depressa que me era humanamente possível (mais adequado seria dizer, “arrastei-me o menos devagar possível”).
Depois de um esboço de “sprint” nos kms finais, no meio dos pinheiros, lá cheguei em 14h47m, quase in extremis, completamente esgotado.

6.    O mais difícil não é a prova mas sim a preparação.

14º 101 km de Ronda, 2011: 4 meses seguidos com um volume de treino de cerca de 370 km / mês; treino cruzado (corrida, natação e ginásio, fundamentalmente); treinos de madrugada, ao meio-dia, à noite, quando os afazeres do trabalho e da família o permitiam; dificuldades na recuperação de uns treinos para os outros; dores musculares, tendinites, dores nas articulações, bolhas nos pés, etc.
Enfim, custaram mais os 1500 km de preparação do que os 101 km de prova. No entanto, esses kms de preparação foram essenciais para conseguir atingir os meus objectivos.

7.    “A dor é temporária, a glória é para sempre”.

14º 101 km de Ronda, 2011: 3 semanas antes de Ronda sofri uma lesão muito desconfortável no joelho esquerdo, durante um treino de 46 km.  As dores eram de facto agudas e intensas.  Apesar disso, consegui continuar a treinar, embora de forma mais moderada, e não desisti da ida a Ronda, mantendo a esperança de que a dor se atenuasse e não me afligisse demasiado durante a prova. Essa expectativa veio a confirmar-se, pois embora tenha experienciado vários tipos de dores durante os 101 km, felizmente nenhuma foi suficientemente incapacitante para me tolher o passo e consegui completar a prova, ao fim de 11h40m.

8.    Para melhorares, analisa os teus erros.

8ª Maratona do Porto e 26ª Maratona de Lisboa, 2011: Tinha grandes expectativas em baixar a barreira das 3 horas na Maratona do Porto, visto ser aquela onde eu tinha o melhor registo (3h09m em 2010) e aquela com um percurso mais favorável. No entanto, as minhas expectativas sairam goradas, pois falhei o objectivo por apenas 54 segundos (3h00m54s). Dei o meu melhor e mesmo assim não foi suficiente.
Acicatado por este desaire, concentrei-me na Maratona de Lisboa e treinei afincadamente nas 4 semanas que mediavam estes dois eventos. Analisei as minhas fraquezas e, no pouco tempo disponível, tentei colmatar as falhas encontradas. Introduzi pela primeira vez treino de séries e fiz treino em rampa para me preparar para a subida da Almirante Reis. E em Lisboa cumpri o meu objectivo: ganhei 3 minutos relativamente ao Porto, 2011, e terminei em 2h57m.

9.    Conhece-te a ti mesmo (doseia o teu esforço).

II Trilhos dos Abutres, 2012: parti devagar e fui ultrapassado por dezenas de atletas nos primeiros 16 kms. Não me deixei intimidar e continuei a fazer a minha própria corrida. O meu corpo dizia-me que não era boa ideia acelerar tão cedo. No 20º Km, cumpridas 2h30 de prova, atíngi finalmente o ponto mais alto do percurso. Depois comecei a descer e a ultrapassar atletas. Tanto nas descidas como nas subidas ultrapassei dezenas de corredores. Cheguei finalmente à meta ao fim de 5h49m, em 27º lugar da classificação geral.

10.    Perder uma batalha não é perder a guerra.

Até agora ainda não desisti em nenhuma das 75 provas que já completei. Mas espero que quando isso inevitavelmente acontecer (por ocorrer alguma lesão, por se me esgotarem completamente as forças, ou por outro evento ou factor inesperados) eu esteja pronto a aceitar esse facto com naturalidade. É uma das lições que ainda me falta aprender nas corridas (na vida julgo já a ter aprendido).

11.    Não dês demasiada importância às dificuldades que a vida te coloca.

As 75 provas, e os 10 mil quilómetros que já percorri em treinos nos últimos 3 anos, junto com outros companheiros ou sozinho com os meus pensamentos, ajudaram-me a relativizar os problemas que a vida me coloca. Sou uma pessoa mais calma, mais saudável e melhor com  a vida do que se não me dedicasse a esta actividade tão enriquecedora.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

II Ultra Trilhos dos Abutres

No passado sábado, dia 28 de Janeiro, teve lugar a 2ª edição dos Trilhos dos Abutres, este ano em formato Ultra.

Este evento desportivo era aguardado com muita expectativa, tendo as inscrições esgotado 2 meses antes da sua realização. Eu fui um dos afortunados que ainda arranjei um lugar para os 45 kms e consegui também inscrever toda a família na caminhada de 13 km.

Na véspera, 6ª feira, após o trabalho e ter ido buscar os miúdos à escola, lá saímos os 4 de Lisboa a caminho de mais uma aventura na Natureza. Tinhamos combinado jantar com o José Carlos Santos e a Vânia, mulher do Zé, e ainda com o casal João e Luísa Ralha e toda a restante comitiva Run 4 Fun, nomeadamente, o  Jorge Esteves, o Paulo Jorge Rodrigues e o Teodoro Trindade. O Nuno Dias de Almeida juntar-se-ia a nós no dia seguinte.

Tivemos alguma dificuldade em chegar a Miranda do Corvo, tendo-nos perdido algures perto de Condeixa. Felizmente lá nos voltámos a orientar e ainda chegámos a tempo de nos reunir a um animado grupo no Restaurante “A Parreirinha”, onde reinava uma inusitada agitação, mercê da clientela pouco habitual, composta maioritariamente por participantes na corrida. Este restaurante foi uma excelente indicação do nosso companheiro Vitorino Coragem, um lídimo representante da Associação Abutrica e decano das provas de trilhos. Deliciámo-nos com uma excelente Chanfana, que foi do agrado de toda a família.

Depois dirigimo-nos para o mui agradável Hotel Meliá Palacio da Lousã, onde iriamos pernoitar nas duas noites seguintes.


Percurso

Após uma noite bem dormida, acordei sábado de manhã cedinho e equipei-me com o arsenal habitual, adaptado para o frio agreste que se anunciava: calções de licra, camisola interior térmica, t-shirt laranja com o logotipo do Run 4 Fun, corta-vento, meias de compressão, luvas, buff para a cabeça, mochila de hidratação, e dentro desta última, o material obrigatório, manta térmica e apito, e ainda o telemóvel, para o caso de alguma eventualidade. Coloquei ainda na mochila o meu combustível de eleição: cinco geís da power bar.

Tomei um farto pequeno-almoço no panorâmico restaurante do Hotel, na agradável companhia dos companheiros Run 4 Fun e depois fui de boleia com o João e a Luísa, pois a Lena e os miúdos iriam mais tarde, uma vez que o autocarro para o ponto de partida da caminhada apenas partiria às 9h45. A temperatura indicada pelo mostrador do automóvel rondava os 3ºC.

Chegámos a tempo de nos colocarmos na fila para o ponto de controle inicial, onde seria verificado o material obrigatório. Depois aguardámos no recinto, confraternizando alegremente, enquanto não era dado o tiro de partida. Foi mais uma entusiasmante oportunidade de rencontrar “velhos” companheiros destas andanças. Digo “velhos” porque embora ainda só ande nisto há dois anos (o meu primeiro trail foi a Ultra da Geira em 2010) sinto que já formei fortes laços de estreita amizade com pessoas interessantes deste intenso meio, que de resto se presta bem a isso. Para além da partilha deste interesse comum, talvez a partilha de momentos de grande esforço e intensidade emocional e a entreajuda física e anímica que emergem nestas provas,  expliquem o estabelecimento fácil de laços entre os participantes.


Alegre grupo Run 4 Fun

Este mecanismo, que forja fortes amizades,  recorda-me uma célebre passagem do discurso do dia de São Crispin da peça Henrique V, de W. Shakespeare:

"This day is call’d the feast of Crispian.
He that outlives this day, and comes safe home,
Will stand a tip-toe when this day is nam’d,
And rouse him at the name of Crispian.
He that shall live this day, and see old age,
Will yearly on the vigil feast his neighbours,
And say ‘To-morrow is Saint Crispian.’
Then will he strip his sleeve and show his scars,
And say ‘These wounds I had on Crispian’s day.’
Old men forget; yet all shall be forgot,
But he’ll remember, with advantages,
What feats he did that day. Then shall our names,
Familiar in his mouth as household words-
Harry the King, Bedford and Exeter,
Warwick and Talbot, Salisbury and Gloucester-
Be in their flowing cups freshly rememb’red.
This story shall the good man teach his son;
And Crispin Crispian shall ne’er go by,
From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remembered-
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
This day shall gentle his condition;
And gentlemen in England now-a-bed
Shall think themselves accurs’d they were not here,
And hold their manhoods cheap whiles any speaks
That fought with us upon Saint Crispin’s day."

- From St. Crispin's Day Speech of Shakespeare's Henry V


Para melhor me situar no espaço e no tempo, vou ocasionalmente socorrer-me da útil informação dos excelente relatos do João Ralha, Nuno Dias de Almeida e Luís Ricardo.



Altimetria e Ritmo

Assim que o “tiro” de partida foi dado os atletas que estavam na fila da frente partiram tão rápido que mais parecia se prepararem para correr 10 kms em lugar de 45. Eu próprio completei este primeiro km em 4’13’’. Deve ter sido da excitação do início e da vontade de não ficarmos bloqueados na fila nalgum single-track que estivesse aí ao virar da esquina. Démos uma volta a Miranda do Corvo, passámos pelo parque biológico e depois seguimos em direção à Serra. Ao fim de 10 minutos a correr já me sentia cheio de calor e tive que remover o corta-vento e colocá-lo na mochila. Já devia saber, pois em corrida alguma necessitei de mais do que uma camisola interior, para além da t-shirt.

Levada
Durante os primeiros 16 kms fui sendo sucessivamente ultrapassado por mais de duas dezenas de atletas. Sentia-me lento e pesado e interrogava-me acerca do que teria comido aquela gente ao pequeno-almoço para acordarem tão cheios de energia.

Logo no início tivémos que enfiar os pés dentro da água de um ribeiro e logo de seguida na lama que encontrámos em abundancia nesta parte inicial do percurso, devido aos profusos cursos de água que corriam dentro de uma floresta cerrada. Foi um baptismo que deixava antever o que iriamos encontrar mais para a frente. Felizmente esse previsão saiu gorada e a maior parte da humidade concentrou-se nestes kms iniciais, senão julgo que teríamos tido grandes dificuldades nas partes mais técnicas que se concentraram na segunda metade do percurso.

Os primeiros 11 kms não apresentaram dificuldades de maior, mas a partir desse ponto teve início uma subida muito acentuada, até ao km 16 e depois novamente entre o km18 (2º abastecimento) e o km 20, onde, cumpridos 2h30 de prova, atingi finalmente o ponto mais alto do Concelho, com 940 metros de altitude, perto das eólicas. 

Depois, até aos 24 kms, foi sempre a descer, com um troço particularmente difícil num corta-fogo inclinadíssimo que atrapalhou, e muito, bastantes atletas. Foi nesta descida que comecei a recuperar rapidamente os lugares que tinha perdido na primeira metade da corrida. Ultrapassei dezenas de companheiros. Aguentei um ritmo elevado e voei veloz até ao 28º km, onde se encontrava o 3º abastecimento. Após esta fase da corrida raramente me cruzei com alguém.

Ao km 34 entrei na bonita Aldeia de Xisto de Gondramaz mal sabendo da surpresa que nos aguardava logo de seguida: um troço de cerca de 200 metros em que tivémos que descer agarrados a cabos de aço para não nos despenharmos pela escarpa abaixo.  Os quilómetros seguintes não foram significativamente mais fáceis, feitos em single-track junto ao rio, num percurso belíssimo mas perigoso, em que era necessária uma atenção constante onde colocávamos os pés.  Passámos por várias cascatas e atravessamos o rio diversas vezes, sobre escorregadios troncos de madeira. Ia com o coração apertado ao pensar que os meus filhos tinham passado por aquele percurso algum tempo antes, integrados na caminhada dos 13 kms. Por cada bombeiro que passava fazia insistentemente a mesma pergunta: “não ocorreu nenhum acidente com nenhuma criança, pois não?!”


Cascata


Subida final
Por fim cheguei ao abastecimento do km 39, onde parei para beber uma coca-cola e ingerir um cubo de marmelada. Até aqui ainda não tinha parado nos abastecimentos, socorrendo-me da minha provisão de água e geis energéticos. No entanto, cumpridas 5h14 de prova, essas provisões já se revelavam manifestamente insuficientes, pelo que foi necessário um pequeno reforço.

Daqui arranquei para a parte final da corrida, cerca de 4 kms entre pinhais e dois já na vila. Gastei as últimas forças que ainda tinha, e deparei-me ainda com uma curta mas dolorosa subida final em que fui atacado por caimbras pela primeira vez. Duzentos metros depois estava a meta, dentro do pavilhão desportivo. Cruzei-a depois de 5h49 de esforço,alegria, sofrimento, exultação, espanto e muitos mais sentimentos contraditórios que se vivem com intensidade nestes eventos repletos de momentos ímpares. Tinha percorrido 45 kms com 2100 m de desnível positivo e chegado em 27º lugar da geral, 11º do meu escalão (M40M).

Bebi umas minis fresquinhas para repor os electrolitos :-) e fui confraternizando com quem chegava. O Zé Carlos Santos já lá estava, tendo conquistado galhardamente o 1º lugar do seu escalão, em 5h39. Foi um enorme regresso às provas, e às vitórias, muito bem merecido dado os treinos rigorosos que cumpriu e que eu tive a honra de acompanhar numa pequena parte.


Zé Carlos, no esforço final

O vencedor da edição deste ano foi o Armando Teixeira, numas incríveis 4h21! Enfim, esses tempos não são para todos...

Pouco depois chegaram os membros Run 4 Fun da minha família, juntamente com a Vânia, mulher do Zé Carlos, felizmente sãos e salvos, e até bastante satisfeitos apesar das cerca de 4h30 de passeio.

Infelimente não pude esperar que os restantes companheiros do Run 4 Fun cumprissem a sua chegada à meta, em triunfo merecido para cada um deles, pois os miúdos já começavam a ficar impacientes. Deixo aqui os meus parabéns ao Nuno pela sua mui auspiciosa estreia nestas lides, ao Paulo Jorge por mais uma excelente prestação, ele que se iniciou nestas andanças há apenas 9 meses (até custa a crer!), ao Jorge e ao Teodoro por mais um desafio completado, eles que já são experientes Ultra-trailers, e ao João e à Luísa pela sua primeira Ultra, completada com sucesso, e logo que Ultra!!!

Cabe aqui uma palavra de apreço para a organização, que esteve impecável.  Nunca tinha visto uma marcação de prova tão cerrada: existiam fitas laranja quase de 10 em 10 metros! Os abastecimentos eram abundantes, via-se o corta vento laranja da Associação Abutrica por todo o lado e existiam bombeiros em todos os pontos essenciais. O almoço/jantar estava bem organizado e toda a gente foi de uma simpatia extrema.

É certo que existiram alguns troços um pouco perigosos, mas a mim isso preocupou-me mais no caso dos participantes na caminhada do que nos das provas competitivas. Estes últimos usualmente já sabem ao que vêm e devem abster-se de dar o passo mais largo do que a perna onde a tecnicidade recomenda prudencia. O único senão que tenho a apontar é o facto de a caminhada ainda estar a decorrer quando atletas das provas competitivas já estavam a terminar, o que obrigava a alguma ginástica para não nos atropelarmos mutuamente.

Enfim, em jeito de resumo, gostei muito da prova e penso voltar para o ano. Os Abutres estão sem dúvida de Parabéns com P grande!

Quanto a nós, família Bárrios Ferreira, ainda aproveitámos o domingo para ir almoçar ao célebre restaurante “O Burgo”, onde retemperámos as forças com um excelente cozido, copiosamente regado com um encorpado jarro de tinto da região.

Depois tivémos que voltar para Lisboa, onde nos aguardavam os afazeres mundanos da vida.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

4ª S. Silvestre de Lisboa



Em Dezembro de 2010 dei início a este blog e o meu 2º post relatava a minha 1ª participação numa S. Silvestre, neste caso na de Lisboa, que ia na sua 3ª edição.
Na altura o meu objectivo passava por baixar dos 40 minutos numa corrida de 10 km.
Hoje, 20 crónicas passadas sobre esse início de contribuição para a blogoesfera, relato aqui a minha experiência em mais uma S. Silvestre de Lisboa, desta feita na edição de 2011.
Este ano a corrida teve lugar no sábado, último dia do ano, com início às 16 horas. Achei óptimo a corrida ter lugar ainda durante o dia (em 2010 fora à noite), pois assim envolvi a família toda, Helena, Rui e Rita, os quais participaram na Mini de 5 km, tornando o evento muito mais agradável. Apanhámos o metro e lá nos dirigimos para a Praça dos Restauradores, a qual se encontrava bastante animada quando chegámos.  Encontrámos logo o alegre grupo dos Run 4 Fun, que se dintinguiam claramente, mercê da fluorescente t-shirt laranja.




Um minuto e trinta e sete segundos antes da elite masculina, partiram as atletas da elite feminina, com a Ana Dulce Félix a encabeçar um grupo de resolutas atletas. Depois partiram os restantes atletas. Eu aranquei juntamente com o meu amigo Gonçalo Cardoso e lá fui aproveitando o ritmo vigoroso que ele impunha.


Os primeiros 5 kms foram relativamente planos e simples de fazer. O problema foi quando começou a subida da Av. da Liberdade. Aí o meu ritmo baixou acentuadamente. Quando comecei a subir a Fontes Pereira de Melo ainda tive a oportunidade de vislumbrar a Dulce Félix a descer,  já ladeada pelo Tiago Costa e pelo Hermano Ferreira, que haveriam de cruzar a meta de mãos dadas, embora este último fosse dado como vencedor.


Chegado ao Saldanha, foi altura de ir buscar forças onde elas ainda existissem, para acelerar na descida e fazer os últimos 2 kms o mais rápido possível. E lá cheguei à meta em 38’52’’, menos um exacto minuto do que no ano anterior. Suspeito que para baixar um minuto na próxima edição, vai ser necessário muito mais treino...




Alguns segundos depois chegou o meu filho Rui, tendo acabado de completar os 5 kms, logo seguido pelos restantes membros da família.



E assim passámos mais uma divertida e saudável tarde, nesta nossa bela cidade de Lisboa.