quinta-feira, 19 de junho de 2014

VCUF - Volta Cerdanya UltraFons - 214 km - 10.000m D+



"Uno de los trails de montaña más duros del panorama nacional, 214 km y 20.000m de desnível acumulado que deberán completarse en nom más de 56 horas."


Armada Lusa

Link para o site da prova:

“Há atletas que se deixam levar pelas emoções. Eu conduzo as minhas.”
- Luis Matos Ferreira

“A que devo as minhas conquistas desportivas? À fisioterapia… nunca fiz!”
- Luis Matos Ferreira



Como explicar a um não-iniciado como se vive o inexcedível prazer de correr longas distâncias na montanha?

Tipicamente devolvem-me as mais enfáticas reações de incredulidade:

“Correste 200 km?!! Tudo de seguida? Mas descansavas, certo? Ou ias sempre a correr? E dormiste? E tu gostas de fazer isso? Gostas de sofrer?”

Julgam que sou uma espécie de maluquinho. Mesmo as pessoas que admiram o feito, olham-me com um misto de espanto e de pena, como se eu fosse um fenómeno bizarro da natureza. “Este gajo não deve jogar com o baralho todo…”

E não jogo mesmo! Faltam-me algumas cartas mas tenho outras de reserva que mais ninguém tem! São só minhas. São aquelas que me dão a minha individualidade e me tornam um ser único.

Para a maioria das pessoas, correr durante 10 km já de sí é uma atividade exigente, durante 200 km então raia o absurdo. É impossível explicar que é uma distância perfeitamente atingível para qualquer pessoa suficientemente preparada. O corpo/mente humano é uma máquina altamente desenvolvida e é capaz de muito mais do que aquilo que lhe damos crédito.

Como explicar o prazer concentrado e intenso que sinto quando me embrenho na montanha e coloco um pé à frente do outro em cadência ritmada, atento à mais ínfima parcela do meu ser?


Não se explica, vive-se.


A Ultra distância faz bem à saúde? Penso que não, mas a minha posição filosófica em relação a este assunto é semelhante à do músico Lou Reed em relação a um seu hábito arreigado:

“Se fumar tanto não me faz mal à Saúde? É capaz de fazer, mas por outro lado quando estou a fumar não estou a emborcar uma garrafa de Whiskey em 15 minutos, e desse ponto de vista fumar até é capaz de me fazer bem à saúde…”
- Lou Reed



Como começou esta aventura?

Com um sorteio falhado para o UTMB – Ultra Trail du Mont Blanc.

Pela 2ª vez consecutiva não fui bafejado pela sorte no sorteio, apesar de ter resmas de pontos… como diz a sabedoria popular, à 3ª é de vez, e para o ano de 2015 a minha participação está garantida. Mas isso é só para o ano. Para este ano necessitava de outro desafio de magnitude semelhante.


Sorteio - UTMB



Inspirado pelo exemplo do meu bom amigo e companheiro de várias destas Ultra aventuras, Luís Freitas, resolvi inscrever-me nos 214 km da VCUF – Volta Cerdanya UltraFons. Sempre seria um upgrade no nível de dificuldade experimentado até à data, e uma boa etapa a caminho do objetivo último, que será completar os 330 km do Tor des Geans! Esse enorme objetivo estava na calha para 2015, mas como a seleção do UTMB me deu a volta aos planos, terá que ficar adiado para 2016.

Descrição da prova por quem já a fez:
http://jserrazina.blogspot.pt/2011/10/tor-des-geants-umas-ferias-de-sonho.html

Vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=H7dxdsjsmJs&sns=fb


Tor des Geants



A preparação para a prova está relatada no meu anterior post: 


Não voltarei a abordar o tema aqui, exceto para tecer algumas considerações acerca dos fatores de performance no Trail.

Existe uma multiplicidade de fatores que podem explicar o sucesso no Ultra Trail.

De acordo com os manuais, a performance desportiva pode-se explicar decompondo-a em 3 factores fundamentais: o VO2max, ou seja a ”potência do nosso motor” (a capacidade de transportar oxigénio até às células musculares), multiplicado pela nossa resistência ou endurance, que é a capacidade de mantermos um ritmo constante a uma percentagem elevada do VO2max, e dividido pelo custo energético da nossa locomoção (relacionado com a nossa técnica de corrida).

Para cada um dos 3 factores desta equação, existem vários contributos.

O VO2max pode ser melhorado, com trabalho duro de intensidade, mas depende também bastante da genética e da idade do atleta.

A endurance depende da nossa resistência à fadiga neuro-muscular, articular, da capacidade de ingerir alimento liquido e sólido durante longos períodos de esforço continuado, da resistência a amplitudes meteorológicas, ao esforço em altitude, etc, mas sobretudo endurance mental.

O custo energético está diretamente relacionado com a nossa técnica de corrida: a amplitude da passada, a postura na corrida, o deslocamento vertical e horizontal, o peso, etc.

No ultra Trail existe um trade-off entre estes dois últimos fatores. Para poupar as articulações e o sistema musculo-esquelético, o individuo tende a adotar uma passada menos eficiente mas mais protetora.
Em conclusão, a performance pode ser otimizada regulando os 3 fatores.

Mas quanto a mim, o mental continua a ser o fator mais determinante quando se percorre distâncias com 3 dígitos.

Eu chamar-lhe-ia a capacidade de mantermos um diálogo constante connosco próprios. Durante a corrida vou sempre alerta aos sinais do corpo e da mente e vou criando uma narrativa da prova. É como se tivesse uma banda sonora em fundo e um fluxo permanente de imagens a cruzarem o cérebro. Alimento a mente com as boas experiências que tive noutras provas e também noutras áreas de minha vida, como a familiar, os amigos, o associativismo, o trabalho. Uso todos esses ingredientes para tecer uma história que me embala e me faz avançar etapa a etapa.



Mas deixemo-nos de prolegómenos, e passemos à história:

Na 3ª feira dia 3/06, apanhei o Intercidades das 17h37, que me levaria até Ovar, a casa do meu bom amigo Luís Freitas. Como sempre, fui muito bem recebido pela simpaticíssima família do Luís.

Na 4ª feira acordámos bem cedo de madrugada e pelas 6 horas recebemos o Gabriel Meira e o Paulo Freitas que se nos juntaram para fazermos juntos a viagem para os Pirenéus no velho Ford do Luís.

Fizemos 1.200 km sem história desde Ovar até aos Apartamentos Gran Vall em La Molina, estância de ski nos Pirenéus Catalães, a 15 km de Puigcerdà, tendo chegado por volta das 21 horas. A viagem foi muito divertida e estabelecemos logo uma grande cumplicidade e coesão dentro do grupo, com o bom humor a predominar.


Itinerário


Selfie na fronteira de Vilar Formoso


O apartamento era muito agradável e dividimo-nos dois por cada quarto. Para além de grande atleta, o Gabriel é um cozinheiro exímio, o que nos deu muito jeito.

Na 5ª feira, após um passeio matinal, fomos a Puigcerdà buscar os dorsais. Encontrámos o pai do Kilian Jornet, Eduard Jornet, na tenda da organização, a supervisionar as operações. Levantámos o saco, com a térmica de oferta, muito boa por sinal. Marca SportHG. Eles tinham um stand de vendas e os preços são muito convidativos, uma vez que se encontram numa fase de entrada no mercado.

Ainda tomámos uma cervejinha na praça principal, em frente ao campanário. Puigcerdà é uma vila muito agradável. Pareceu-me que seria um bom sítio para levar a família de férias e os preços não são caros.


Convívio


Na 6ª feira acordámos às 5 horas da manhã, cheios de adrenalina e prontos para o combate!

Pequeno-almoço abundante, onde não faltou a  bela tacinha de arroz-doce, à falta da proverbial aletria.

Chegámos à Partida, entregámos os 2 sacos que iram ser levados para os abastecimentos do km 85 e 158, com muda de roupa e de outro material, e passámos pelo controle do material obrigatório.


Controle do Material Obrigatório



O material obrigatório consistia em:

  • Mochila
  • Casaco Impermeável
  • Calças impermeáveis
  • Roupa térmica que cubra todo o corpo
  • Frontal com pilhas de reserva
  • Refletor vermelho posterior
  • Manta térmica de sobrevivência
  • Recipiente com 1 litro de água (no meu caso, mochila de hidratação com 1.5 l + 2 bidons de 500 ml cada)
  • Copo
  • Telemóvel carregado
  • Apito


Eu nunca poupo no material obrigatório, pois no meio da montanha, sobretudo de noite, pode vir a revelar-se providencial. Pesa imenso na mochila, mas tem que ser (sem água, anda pelos 2.5 kg; se encher a bexiga e os 2 bidons então são mais 2.5 kg!).

Para além do obrigatório, levo ainda:

  • Bastões
  • T-shirt técnica
  • Corsários a cobrir os joelhos
  • 2ª camada para o tronco
  • Boné
  • Buff
  • Luvas
  • Manguitos
  • Meias de compressão
  • 5 géis de 42 g com 50 mg de cafeína + 5 géis de 42 g sem cafeína
  • 6 saquetas de redrate (eletrólitos)
  • 4 comprimidos de ibuprofeno (para ser usado em caso de emergência e com muito cuidado pois pode ter um efeito adverso na função renal)
  • 4 comprimidos de paracetamol
  • 4 comprimidos de imodium rapid
  • 2 comprimidos de pantoprazol
  • Bisnaga de vaselina para hidratar os pés
  • Bisnaga de protetor solar
  • Lenços de papel para limpar onde o sol não brilha.
  • Nota de 20 euros para alguma emergência



Material usado no MIUT



Agora a dúvida principal é como dividir o material pelos 2 sacos que serão levados pela organização até aos 2 pontos de muda?

A minha estimativa é conseguir progredir a um ritmo de cerca de 5 km/hora, ou seja demorar um total de 43 horas e chegar cerca das 3 horas da madrugada do 3º dia. Ou seja, chegar aos 85 km cerca da uma da madrugada do 2º dia e aos 148 km cerca das 10 horas da noite do 2º dia.

As condições meteorológicas prevêem-se amenas durante a noite, mas é sempre possível que de madrugada nos altos expostos, se façam sentir temperaturas próximas do zero. Pode também chover, embora não seja essa a previsão. Na montanha o tempo é altamente instável e é necessário ir preparado para tudo.


Previsão Meteorológica para Puigcerdà



Por segurança resolvo colocar mais material no 1º saco do que no 2º. Se for necessário carregarei com mais tralha a partir do km 85, e até ao fim, caso se justifique.

No 1º saco coloco:

  • Uma réplica de toda a roupa que levo na partida, exceto impermeáveis
  • Ténis de substituição
  • (Esqueci-me de trazer bastões baratos de substituição)
  • Frontal de substituição com pilhas de reserva
  • Refletor vermelho posterior de substituição
  • Telefone de substituição
  • 5 géis de 42 g com 50 mg de cafeína + 5 géis de 42 g sem cafeína
  • 6 saquetas de redrate
  • Carregador do GPS Garmin
  • Bisnaga de vaselina para hidratar os pés
  • Bisnaga de protetor solar


No 2º saco coloco:
·        
  • Uma réplica de toda a roupa que levo na partida, exceto impermeáveis
  • Uma camada polar, para o caso do meu ciclo circadiano levar a um arrefecimento acentuado do corpo durante a 2ª noite
  • 5 géis de 42 g com 50 mg de cafeína + 5 géis de 42 g sem cafeína
  • 6 saquetas de redrate
  • Bisnaga de vaselina para hidratar os pés
  • Bisnaga de protetor solar



No saco da chegada coloco:

  • Roupa quente
  • Ténis lavados
  • Toalha para banho + chinelos + sabonete
  • Frasco de azeitonas


Antes da partida apliquei uma camada abundante de vaselina em todos os locais onde é exercida fricção em movimento. 214 km podem originar muitas assaduras dolorosas. Já chegam todas as outras dores que iremos sentir, dispenso mais estas.


Altimetria


Percurso



Abastecimentos



Encontrámos os companheiros Célia Azenha, Jorge Serrazina, José Simões e Paulo Jorge, e tirámos as fotos de grupo. Somos 8 tugas, em 67 atletas. Trocámos encorajamentos e o Jorge Serrazina deu a palavra de ordem para a corrida: “ninguém desiste!”


A combinar a estratégia


Partida!


E foi ainda com este grito de guerra a ecoar-nos nos ouvidos que às 8 horas em ponto soou o tiro de partida. Arrancamos cheios de alegria, 67 atletas entusiasmados pela aventura que agora iniciamos. Passados 200 metros estacamos desorientados. Não se via qualquer fita e não sabíamos por onde seguir. Que anti-climax! Estava dado o mote para toda a prova: esta seria a prova mais mal marcada de todas aquelas em que tive o ensejo de participar!

Surgem então as motorizadas da organização que nos orientam até sairmos da Vila.

Vejo o Gabriel Meira e o Paulo Freitas a saírem disparados na cabeça do grupo. Sigo noutro grupo com o Luís Freitas e o José Simões. Logo à saída da vila entramos num ribeiro onde molhamos completamente os pés. O Simões vai o tempo todo a falar, como é seu hábito, sempre muito divertido e provocador, enredado naquele seu típico jogo psicológico.






O primeiro abastecimento é já em França, ao fim de 11 km. Até aqui vamos relativamente rápidos, a um ritmo de 6 min/km e frequência cardíaca a rondar as 150 ppm. Este percurso inicial é bastante rolante, feito totalmente em estradões, mas como quem não quer a coisa já acumulámos 700 m de desnível positivo (D+).



Vale da Cerdanya




Luís Ferreira



O perfil altimétrico do terreno é altamente enganador. Esta parte inicial da corrida parece ser mais rolante do que aquela que iremos apanhar a partir dos 100 km, mas a verdade é que pela marca dos 100 km já teremos feito quase metade do desnível acumulado positivo total. É pois necessário gerir a prova com cuidado. Eu tento correr de trás para a frente. Nos primeiros abastecimentos passo na posição 35ª da geral da corrida, ou seja, a cerca de meio da tabela.


TraceMyWay



Aproveitei a viagem de comboio para Ovar para estudar com muito cuidado o percurso. Quase que o conheço de cor, com os abastecimentos, distâncias e desníveis característicos. Tenho uma boa ideia do que me espera.

No abastecimento de Brangoly, aos 11 km, esqueço-me dos bastões e tenho que voltar para trás para os ir buscar. Entretanto perco-me do Luís e do Simões que se adiantaram.



Luís Freitas



José Simões



O dia vai aquecendo progressivamente. Em Llívia, aos 22 km volto a alcançar o Luís e o Zé, quando eles vão a sair do abastecimento. Paro para comer e repousar um pouco. Os abastecimentos em geral são ótimos, com grande variedade e abundância de comida. Sempre que posso aproveito para comer um pouco de presunto salgadinho. Infelizmente não encontro azeitonas.


Abastecimento do Refúgio de Vilallobent

A minha estratégia para a prova vai ser levar a mochila de hidratação com cerca de 1 litro de água e dois bidões de meio litro cada, um com isotónico, marca powerade azul, e o outro com água com sal sempre que possível (saquetas de eletrólitos da redrate).

Tomo duas pastilhas de imodium para curar a diarreia de que venho sofrendo desde o início da prova. Remédio santo! Bem me tinham dito que o imodium é como uma rolha. Funciona sempre!

Quando arranco vejo chegar o Paulo Jorge, que também vem em bom ritmo.

Mais 8 km e chego a Saillagouse, km 30, 1.372 m D+. Aqui têm um abastecimento mais ligeiro e demoro-me pouco. À saída de Saillagouse dá-se o primeiro incidente: encontro-me perante um estradão que para a esquerda sobe e para a direita desce, mas não se vislumbra uma única fita!

Subo, depois desço e volto a subir, e fitas nada! Filhos da p#$%&! Estou desorientado, eu e os companheiros que entretanto vão chegando. Felizmente pouco depois chega o Paulo Jorge, que tem o track no GPS. Verificamos o track e pronto, é para subir!


Onde estão as fitas?!!



Ao fim de muitas centenas de metros lá aparece uma fita. Quem marcou esta parte marcou com os pés em vez de ser com as mãos! Nunca deve ter corrido uma prova de Trail…

Até ao alto é raro passarmos por uma fita. É uma sensação muito desconfortável a dúvida que se instala, “será por aqui, não será?”

O que é de esperar numa prova é que existam fitas de tantos em tantos metros. Quando prosseguimos mais do que uma certa distância sem encontrar fitas, então o procedimento recomendado é voltar para trás e procurar as fitas. Aqui não podemos fazer isso, pois existem troços com mais de 2 km sem qualquer fita. Bem, há que continuar em frente e acreditar que se está a ir pelo caminho certo. Não é a vida toda ela assim?



Cerdanya



Na próxima paragem, no Camping Las Closas, no km 43m, encontrei o Luís, que tinha parado por estar muito enjoado e ter já vomitado algumas vezes. Tento engolir uma tigela de massa. Está um calor terrível. A malta já deve estar a sofrer com a torreira do sol. Enquanto estou sentado chega o Paulo Jorge, em grande forma. Ainda me ajuda a encher a mochila de hidratação. Vou precisar de toda a água que puder levar.

Uma maratona de montanha já foi! 43 km com 2.300 m D+ já cá cantam! Um GTSA – Grande Trail Serra D’Arga para abrir o apetite. Só faltam outras 4 maratonas iguais.



Entretanto, na linha da frente, o Gabriel seguia em luta pelos 3 primeiros lugares, juntamente com o Eugeni Rosseló Solé, vencedor da edição de 2013, e com o Ivan Galván Siveiro. A luta é renhida. O Gabriel faz as despesas da corrida e os espanhóis vão-se colando atrás. O Eugeni é atleta patrocionado e tem uma equipa que lhe trata de tudo nos abastecimentos. É só chegar e encontrar a papinha toda feita. Depois arranca primeiro e aguarda um pouco à frente que os outros se lhe juntem para se colar novamente atrás. Todas as pequenas artimanhas contam, para ganhar uma prova. Devem ter lido Sun Tzu, os sacanas dos Catalães…


3 primeiros


3 primeiros - Gabriel a rebocar


À falta da padeira de Aljubarrota, o Gabriel vai fazendo o papel de D. Nuno Álvares Pereira.

Nos entrementes, o Paulo Freitas seguia em 7 ou 8 lugar, também ele a fazer uma prova magnífica.


Paulo Freitas



Sigo para Osséjá. Pelo caminho apanho o Jorge Serrazina. Seguimos os dois juntos, numa parceria que se iria estender por muitos quilómetros e que se revelaria essencial para a minha boa progressão na prova.



Jorge Serrazina



Chegamos a Osséjá, ao km 50, sem incidentes e daí partimos para o Refúgio de Vilallobent. A certa altura as fitas mandam-nos seguir para a esquerda, subindo um trilho junto a um ribeiro.

Começa aqui uma parte da corrida em que vamos ter que subir bastante.





O Jorge ganha-me algum terreno pois ele é um exímio trepador. Este é mais um daqueles troços sem qualquer fita. Apenas a confiança de que estou no trilho correto me impulsiona para a frente e para cima.

Ao fim daquilo que parece uma eternidade chego ao fim deste trilho. Encontro enfim uma fita que me manda seguir para a direita. Continuo mais alguns quilómetros, até finalmente chegar ao pequeno abastecimento no topo do monte, após ter subido 800 m e chegado ao km 60. Reencontro o Simões e o Jorge. O Simões parte e pouco depois o Jorge segue-o. Eu bebo e alimento-me e saio também. Em poucos quilómetros volto a apanhar o Jorge.






Seguimos mais 10 km até La Barraca ao km 70, onde reencontramos o Simões. Daqui até La Molina são 7 km aos altos e baixos, em carrocel. A meio do caminho passamos o Simões, que é mais lento a subir. Começa a entardecer. No alto sente-se um vento forte e fresco. Visto a térmica e coloco os manguitos. Quando estou a puxar o manguito direito este rasga-se! Raio de porcaria! Logo na estreia! Tenho que ir reclamar junto da Compressport.

Chegamos juntos ao abastecimento de La Molina. Repousamos um pouco e depois seguimos para Masella. O Jorge vai mais rápido e adianta-se.





Chego ao abastecimento ao anoitecer, às 21h50m, com 13h50m de prova nas pernas. Este abastecimento fica no km 85, já com 4.500 mD+ acumulado. É aqui que está o 1º saco com a muda de roupa, o 2º frontal para a noite para a eventualidade remota de o 1º se avariar, os géis adicionais e outro material de substituição.

Consegui chegar 3 horas antes da minha previsão inicial! Estou em grande!

Quando chego, o Jorge está a tentar dormir um pouco. Alimento-me bem, mudo algumas peças de roupa e hidrato bem os pés, a fim de evitar as bolhas. Telefono à minha mulher e ao meu treinador, o Paulo Pires. Digo-lhes que a corrida me está a correr muito bem. Não tenho tido quaisquer problemas gástricos, os músculos, os tendões e as articulações continuam em boa forma. Os pés estão frescos e sem bolhas. Enfim, a minha componente de endurance está a responder muito bem. Congratulo-me por isso, mas sei que ainda faltam quase 2/3 de prova e portanto ainda é muito cedo para soltar foguetes, à boa moda portuguesa.

Aguardo um pouco pelo Jorge, que está a acabar de comer, e saímos os dois juntos, com um entendimento tácito que iremos percorrer esta primeira parte noturna da prova juntos. O Jorge é um bom parceiro. Temos um ritmo muito semelhante e vamo-nos apoiando um ao outro. Saímos do abastecimento pelas 22h40m. Ainda vislumbro o Paulo Jorge a chegar ao abastecimento, com excelente aspeto.

Ao fim de uma curta distância apanhamos um grupo de 3 espanhóis. O Jorge conhece um deles da prova do ano passado. Dois deles decidem seguir connosco. Vou na liderança e acelero pela encosta abaixo. Com o refrescar da noite, a mudança de roupa e a refeição completa do abastecimento anterior, sinto-me mais afoito. Contudo, mercê desse meu ritmo mais vivo, tropeço por duas vezes nas pedras, e caio ao comprido, felizmente sem qualquer consequência para além de pequenas escoriações.

Rapidamente alcançamos o abastecimento de Úrus, ao km 92, após descermos 733 m a um ritmo meio alucinado. Espero não vir a pagar por esta ousadia. Nestas descidas violentas os músculos das coxas, o s quadríceps sofrem um desgaste muito grande. Encontro-me neste momento na 19ª posição.

No abastecimento comento com o Jorge que me esqueci do frontal de substituição no abastecimento anterior. Gosto sempre de levar um frontal extra mais pequeno para o caso do frontal principal se avariar. De noite a falta de frontal é a morte do artista, sobretudo se estivermos sozinhos. Não temos qualquer possibilidade de progredirmos no terreno a menos que algum bom samaritano nos alumie o caminho.

Arrancamos e seguimos novamente com os dois espanhóis, o Juan Salvador Oroval, Valenciano velho conhecido do Jorge, e do outro não me recordo o nome. Eu e o Jorge fazemos a despesa da Corrida, indo sempre à frente a liderar. O Jorge bem tenta incentivar os “nuestros hermanos” a passarem para a frente, mas estes assobiam para o ar. Deve ser um costume espanhol, deixar os portugueses irem à frente para depois lhes roubarem as conquistas. Já vem desde o tempo dos descobrimentos…

Parecemos um grupo de guerreiros Masai, em fila, com o líder mais experiente à frente (o Jorge), em perseguição de um leão assassino. Só que o nosso leão são os nossos medos internos…

Vamos ter que subir 700 m até ao km 104, onde se encontra o Refugio Cortals de l'Ingla. Já que não querem liderar, os espanhóis terão que seguir ao sabor do nosso ritmo e dos nossos caprichos. A certa altura o Jorge decide que nos encontramos num sítio bom para nos encostamos um bocadinho, na relva fofinha. Os castelhanos anuem de imediato. Até fecham os olhos os cabrões!

Uns minutos depois levantamo-nos e seguimos. Vamos fazer os sacanas suar as estopinhas! Continuamos a imprimir um forte ritmo. De noite está mais fresco para correr. Não sofremos com o bafo insuportável do calor que se verifica durante o dia. Ouço Nick Cave a cantar as “Murder Ballads” alto e bom som na minha cabeça. Vou embalado.

Quando chegamos ao refúgio, o Juan Salvador começa a vomitar. Informa-nos de que já não é a primeira vez. Mais tarde o Paulo Freitas confirmará que pode testemunhar essa indisposição intermitente, pois ainda correram os dois juntos durante bastante tempo.

Um dos principais desafios da corrida de Ultra-Distância, versão XL, senão mesmo o principal pois tudo depende da boa performance neste fator, é a capacidade do sistema digestivo ingerir alimento sólido e líquido sem atingir a saturação começando a rejeitar tudo.

Depois do refúgio, descemos 580 m até Ajuntamento Bellver no km 112. Já começo a sentir o esforço das descidas a acumular-se nas coxas. As contrações excêntricas são muito desgastantes para os grandes músculos das pernas. Este misto de colaboração/competição com os espanhóis, tem as suas vantagens e os seus inconvenientes. Andamos mais depressa mas também nos desgastamos mais.

A verdade é que já subimos um total de 5.451 m e descemos um total de 5.735 m.

Quando finalmente chegamos ao Bellver, encontramos um abastecimento ao ar livre em frente a um pavilhão desportivo! Cá fora está fresco, mas dentro do pavilhão está quentinho. Que raio de ideia ter um abastecimento exposto aos elementos, com um pavilhão quentinho mesmo ao lado! A maioria dos abastecimentos desta prova estão expostos aos elementos. O que vale é que a temperatura noturna está amena.

O voluntário da organização conta-nos que existem imensos portugueses a incentivarem-nos nas redes sociais, nomeadamente no twitter e no site da TraceMyWay. É sempre muito animador sentir que somos alvo desse tipo de carinho e apoio! Dá-nos uma alma nova.

O Jorge pergunta se pode se ir estender um pouco dentro do pavilhão. Lá lhe respondem que não há camas mas que sim, que pode. Depois de comer qualquer coisa, sigo-o até lá dentro. Um dos espanhóis deita-se num colchão de ginástica. O outro faz alongamentos. O Jorge deita-se nas bancadas e eu sigo-lhe o exemplo. Estamos ali uns 10 minutos a olhar para o teto de olhos arregalados e levantamo-nos novamente. Amigos, é altura de avançar! Bamo-nos nosotros!!!

À saída o Jorge come uma banana e subitamente, sem qualquer aviso, fica com um ar muito enjoado e vomita numa valeta.

Após um bocadinho para recuperar, lá seguimos novamente. Ao fim de pouco tempo perdemos os espanhóis. Que é feito deles? perguntamo-nos. Encolhemos os ombros e seguimos.







Subimos 288 m até Nas. no km 118, com 5.740 m de D+ acumulado. É quase como se tivéssemos acabado de completar um MIUT, com os seus 115 km e 6.800 m D+.

Estamos com 21 horas de prova e são 5 horas da manhã. Em Abril demorei 26 horas a completar o MIUT. É certo que neste momento ainda tenho menos 1.000 m D+ que na prova da Madeira, mas a verdade é que me sinto bem mais forte do que me sentia há 2 meses atrás. É bom sinal.

No abastecimento de Nas, o Jorge vê-se forçado a parar, pela incapacidade em ingerir alimento e pelo enjoo. Já experimentei enjoo numa prova e garanto que é altamente debilitante. Já para não falar na falta de energia que provoca, pela incapacidade de assimilar calorias.

Já falta apenas uma hora para o dia clarear e o Jorge incentiva-me a continuar. Acordamos que o melhor é o Jorge ficar algum tempo a recuperar e eu vou seguir pois estou bem.

A partir daqui tenho uma subida acentuada e muito mal marcada até à passagem do homem morto (Coll de l’Home Mort). Que nome tão sugestivo… Subo 815 m durante cerca de 8 km. Entretanto amanhece. É sempre com uma enorme alegria que acolho o amanhecer! O deus Sol saúda-me com os seus raios maravilhosos. Desligo o frontal. Até aqui as pilhas aguentaram-se e não necessitei do 2º frontal. Que alívio!

Chego ao topo às 7h da manhã, já com um sol resplandecente. O tempo anuncia-se quente. Vamos ter um dia infernal, com mais de 30ºC nos locais expostos! Não será o inferno de Hieronimus Boch mas muito perto…

O abastecimento é muito pequenino, apenas com duas cadeiras para quem chegar poder sentar-se. O voluntário que lá está diz-me que estou a ir muito bem. Aponta para uma aldeia na encosta da serra em frente e diz que agora vou ter que descer até lá abaixo e depois subir até alí.

A aldeia chama-se Estana e está apenas a 13 km. No entanto vai ser necessário descer 976 m e depois subir 657 m até chegar ao km 139.

Ponho-me ao caminho. Ao fim de pouco tempo sou apanhado pelo Juan Salvador, que parece ter ganho uma nova vida com o amanhecer. Ele desce a bom ritmo e acelero tentando segui-lo. A certa altura somos ultrapassados pela primeira mulher em prova e ele segue disparado em sua perseguição. Ai o orgulho dos homens! O que os leva a fazer!

Deixo-o ir curar o seu orgulho ferido e lá sigo ao meu ritmo. Eu não tenho qualquer problema em ser ultrapassado por elementos do sexo forte. Até me agrada, sempre lavo a vista cansada de homens barbudos a cheirar a cavalo.

A descida e subida parecem nunca mais acabar. Quase não existem fitas, o que me deixa muito desconfortável.

Já com a vila à vista vou desembocar a uma estrada onde se encontra uma placa rodoviária com a indicação de Estana. Que raio, onde estão as fitas da organização?!! Julgo que já deveria ter passado por uma fita que me indicasse para subir. Estana está mesmo ali em cima! Resolvo continuar pela estrada, que por ai é garantido lá chegar, mesmo que leve mais um ou dois quilómetros. Quando é necessário, improvisa-se!



Estana



Quando finalmente chego, lá reencontro o Juan Salvador, que se prepara para sair. A primeira mulher tem um ar um pouco combalido, julgo que do calor intenso que já se sente. Ele sai primeiro que ela. Deve estar satisfeito.

Em Estana dizem-me que os abastecimentos foram alterados. O próximo, o Óasis com a 2ª muda de roupa, será não em Martinet a 9 km, mas sim em Arànser a 20 km!!! Filhos da p#$%&!!! Com este calor, obrigarem-nos a andar 20 km sob um sol inclemente chega a ser criminoso!

Encho a mochila de hidratação até deitar por fora, com 1.5 litros de água, e atesto também os dois bidões de 500 ml, um com água com sal e o outro com água apenas. Vou necessitar de toda a água que puder levar, mesmo que isso represente carregar com mais 2.5 kg às costas, além de toda a outra tralha.


TraceMyWay






A subida para Arànser é um verdadeiro tormento de Tântalo. Vou bebendo água com moderação, com receio que se acabe a qualquer momento. Felizmente por vezes sopra uma brisa muito ligeira que me vai permitindo arrefecer um pouco.

Espanto-me por não encontrar quaisquer bicas de água nas povoações por onde passamos. Que raio! Não estamos nos Pirenéus?! Deveria existir água por todo o lado! Mas sempre que passo por um ribeiro aproveito para encharcar a cabeça, para ver se arrefeço a moleirinha, antes que o meu cérebro se liquefaça…

Após um enorme sacrifício, às 13h lá chego ao Oásis do abastecimento, no km 158. Basicamente já cumpri 100 milhas, com cerca de 8.000 m D+, e tenho 29 horas de prova. Ou seja, tenho seguido num excelente ritmo para as minhas capacidades. Estou contente com o meu desempenho até aqui. Continuo 3 horas adiantado à minha previsão. Estou agora na 13ª posição.

Para celebrar, e para recuperar energias para as duas grandes subidas e descidas que ainda faltam, resolvo tomar um banho de chuveiro e hidratar a pele, sobretudo dos pés, com doses abundantes de vaselina. Troco a roupa, carrego um novo conjunto de géis, pois suspeito que agora é que vão começar a fazer muita falta, quando o estomago já não suportar mais nada.

Como e bebo com moderação, pois o estomago já está muito massacrado.

Penso nos companheiros e pergunto-me como estarão. Espero que o Luís e o Jorge tenham recuperado completamente. Estou certo que sim.

Mais tarde vim a saber que o Jorge, ao passar no abastecimento que ficava à entrada do restaurante, julgo que aquele onde me encontro neste momento, terá olhado fugazmente para a comida da organização e terá dito de imediato: “ná, nada disto!!!” Dirigiu-se mas é ao dono do restaurante e perguntou-lhe o que este lhe poderia servir por 10 euros! Ao que parece o homem terá preparado uma grelhada mista por 8 euros e ainda deu para uma cerveja, que o Jorge não dispensa nas provas. Excelente isotónico, posso comprovar!



É este espírito que me faz adorar o Trail! Lidamos com o imprevisto e temos que nos adaptar a ele, não o contrário. Como um companheiro muito bem disse, a preparação é ainda muito mais importante que o planeamento. Se estivermos bem preparados, o que poderá fazer a diferença é a capacidade de adaptação, o improviso e nisso toda a gente sabe que nós Portugueses somos mestres.


Estarmos preparados, é termos em antecipação tentado prever as várias contingências e termos ensaiado na nossa mente como poderemos responder a elas. Mantermos as nossas opções em aberto, e termos vastos recursos de experiência e imaginação para respondermos ao imprevisto.

A Economia é a ciência da alocação ótima dos recursos escassos. É também precisamente nisso que o Ultra Trail consiste.

Por exemplo, num Ultra Trail ao fim de 30 km já consumimos todas as nossas reservas de glicogénio que levávamos acumuladas no fígado e nos músculos. Passamos a degradar gorduras e viver do que consumimos nos abastecimentos e daquilo que carregamos connosco. No entanto é praticamente impossível ingerir calorias suficientes para substituir aquelas que vamos consumindo. Acabamos a prova com alguns kgs a menos mercê da desidratação mas também da degradação da gordura e do catabolismo do músculo.

Temos que gerir o uso dos músculos e articulações de forma inteligente. As fibras vão acumulando micro-roturas que nos podem fazer parar completamente antes do término da prova.

Temos que saber gerir a roupa, para não aquecermos ou arrefecermos demasiado e não eliminarmos demasiada água pelo suor. Gerir os sais minerais para não sofrermos de cãimbras.

Enfim, o Ultra Trail é uma disciplina altamente técnica, que exige algum estudo e experiência e muita capacidade tática e estratégica. É isso precisamente aquilo que o torna fascinante.



Às 13h50m abandono o Oásis, com alguma relutância. Ainda me falta cumprir 54 km de corrida com 2.350 m D+. Enfim, mais um Ultra Trail até chegar à meta. E o perfil altimétrico deste troço restante assusta! Duas subidas com um aspeto intimidante!

O calor continua sufocante! O Juan Salvador tinha partido pouco depois de eu chegar, com a promessa de tomar um banho de imersão no primeiro rio ou ribeiro que encontrasse. Grande maluco este espanhol! Até agora tem sido sem dúvida uma companhia refrescante, sempre muito animado. Chama-me “O Português”. Tomo isso como um elogio.

Teoricamente o próximo abastecimento é em Cal Jan de la Llosa, a 13 km de distância. Na prática corro kms intermináveis sem encontrar a porra do abastecimento! Um pouco antes de Cal Jan de la Llosa sou acompanhado por um membro da organização, que corre ao meu lado incentivando-me. Passamos por Cal Jan de la Llosa e nada de abastecimento. Ele diz-me que ainda tenho que correr mais uns 2 ou 3 kms. E de facto, só ao fim de mais 3 kms é que finalmente chego a uma curva da estrada onde se encontra um voluntário com água e isotónico. Ele confirma que o abastecimento foi alterado porque 3 km atrás não havia rede!

Por hoje já me chega de surpresas. São agora 16h10m da tarde, tenho 34 horas de prova nas pernas, estou no km 175 e ainda me faltam 39 km até ao fim. Já bati o meu anterior recorde de distância, que se cifrava nos 168 km. Progrido agora em terra incógnita. Acabei de dobrar o meu Cabo Bojador!

Ao virar da curva, dou com o Juan Salvador, encostado a uma carrinha, a beber isotónico e água fresquinha. Parece que ele tem a sua própria equipa de apoio, na pessoa do seu filho!

Mais tarde venho a saber, pelo Paulo Freitas, que também andou bastantes kms com ele, que o filho o acompanhou sempre pelos pontos de abastecimento, com alimentação própria e computador e tudo, para poder verificar a posição dele na corrida. Isso é que é serviço!


Juan Salvador e Paulo Freitas


Aos 85 km, ele terá ficado uma horita a dormir e o Paulo deixou-o para trás.

A partir daqui seguimos novamente juntos. Subimos, subimos e subimos… Passamos por manadas de imponentes vacas que pastam em prados verdejantes. Finalmente alcançamos os 2.200 m de altitude.

Agora temos que descer 560 m até Talltendre. A descida é agreste, com bastante pedra, sigo na liderança com o espanhol atrás. Estamos ambos massacrados mas vamos com bom ritmo.

Lá chegamos ao abastecimento, no km 181. É aqui que a corrida dos 87 km se junta à nossa. Pela primeira vez encontro um abastecimento cheio de gente. Continuo na 13ª posição. A malta dos 87 km olha-nos com uma enorme admiração.


Por esta altura estará o Gabriel a bater-se pelos primeiros lugares. A escassos quilómetros da meta segue destacado em 3º lugar. Já falta pouco e o pódio já é garantido quando a fatalidade acontece! Numa curva mal assinalada (mais tarde eu próprio tive a mesma dúvida no mesmíssimo local) o Gabriel entrou por um campo de milho e perdeu-se completamente. Quando retornou ao ponto do erro, já estava em 4º lugar a 20 minutos do 3º. Nada a fazer, apenas cerrar os dentes e seguir até à meta, que nas grandes adversidades é que se vê de que matéria são feitos os homens.

Após 33h58m de prova o Gabriel cruza enfim a linha de chegada, ainda em pleno dia. Chegou com os pés num estado verdadeiramente lastimável. A organização até lhe tirou umas fotografias à planta dos pés toda cozida, tal o aspeto. Seguiu direto para o pequeno hospital local para lhe enfaixarem os pés.


Gabriel Meira



Suponho que tenha tido problemas com os ténis, que não escoavam a água. Os meus ténis são altamente permeáveis. A água entra facilmente mas como entra, também sai com toda a facilidade. Enquando corro, em minutos secam.

O Paulo Freitas chega duas horas e meia depois, num excelente 8º lugar, e com os pés também bastante massacrados.


Paulo Freitas



Entretanto já saí de Talltendre atrás do Juan Salvador. Ele encontrou uns amigos e parece outro! Sou ultrapassado pela malta mais fresca dos 87, mas o Juan Salvador vai buscar forças para seguir num grupo com eles.

Mais tarde virei a saber que ele fez 4º lugar na prova do ano passado, por isso não é um gajo qualquer mas sim um atleta experimentado.

Nos próximos 14 km vou ter de descer 390 m e subir 200 m. Não é muito mas o calor continua a afetar-me. São umas 20h da tarde mas o tempo mantém-se quente.

Sigo ao meu ritmo até finalmente chegar a Meranges, já muito cansado. Passaram-se 195 km desde o início. Já subi 9.500 m D+. São 20h40m. Já estou a correr há quase 37 horas. Faltam 19 km. Ou seja, mais umas 4 horas para chegar à meta, estimo eu. Já não vou conseguir manter as 3 horas de antecipação ao plano e chegar antes da meia-noite. Também, que se lixe, os meus ténis não se vão transformar em abóboras…

Recebo uma enorme ovação quando chego ao abastecimento. A malta dos 87 km tem mesmo um enorme respeito por aqueles, como eu, que já fizeram mais 120 km do que eles.

Repouso 10 minutos e arranco para a etapa final. Esperam-me 3 km de subida agreste, com uma pendente de 20%, onde vou subir 586 metros até ao refúgio de Malniu. Depois terei que subir mais um pouco até aos 2.300 m de altitude, antes de finalmente baixar para Puigcerdà.



Eugeni a trepar



A subida para o refúgio é extenuante. Vou subindo passo a passo, tentando acompanhar o ritmo da malta dos 87 km, mas com uma enorme dificuldade. O meu peito quase rebenta. Ouço Beethoven na minha mente. Sinfonia nº 6 (Pastoral). O poder telúrico da música romântica ajuda-me a subir.

Quando enfim, após o que parece uma eternidade, chego ao refúgio, nem quero acreditar! Estou no km 198, já só faltam 14! Sinto-me como se tivesse atingido o cume dos Himalaias. Não tenho qualquer dúvida que chegarei à linha da meta.

Chego ao anoitecer. Tenho que vestir roupa mais quente e colocar o frontal para a noite que cai rapidamente.

Às 22h arranco para as 3 últimas etapas, curtas cada uma delas.

Corro, mais 5.7 km e subo mais 127 m até Fontanera. Já passei a barreira dos 200 km! Que número tão redondo! Faltam 11 até à meta. Aqui já nem existe controle de dorsal. Nem paro para comer ou beber. O estomago já se recusa a ingerir o que quer que seja. Cada vez que levo água à boca sinto logo vómitos.

Toca a descer que já se vê as luzinhas lá em baixo. Faltam descer mais 800 m. As canetas que se aguentem carago! Dou-lhe com força, sempre no risco iminente de mandar um bom tralho. Depois de um troço inicial sobre a relva fofa, passo para um troço com muita pedra solta. Vou o melhor que aguento. Só espero não me despenhar nesta parte. Vejo e ouço umas luzinhas brancas a aproximarem-se. Serão atletas dos 87 km, mas eu não quero facilitar. Acelero ainda mais. A distância mantém-se. Faço prodígios de equilibrismo. Salto, pulo, danço sobre as pedras, numa coreografia louca,qual Baryshnikov dos Trails. Estou quase a chegar ao último abastecimento, em Guils. Mais um pequeno esforço… e lá chego antes dos pirilampos que me perseguem. Nem abrando, sigo pela estrada e depois pelo estradão que desce para Puigcerdà. Na 6ª feira de manhã já tinha passado por aqui. Vou recordando o percurso. Estou quase, estou quase, estou quase!!! Agora é o Ó Fortuna da Carmina Burana que me ecoa nos ouvidos.

Vou num ritmo que me parece quase um sprint, a cerca de 5 min / km. As fitas continuam escassas, mas lá me vou conseguindo orientar com alguma dificuldade e muita fé. Sigo novamente pelo leito do ribeiro. Nem hesito em molhar os pés. É coloca-los completamente dentro de água que nem vale a pena tentar evitar o ribeiro.

Ainda não parti nenhum osso, nem sei bem como. Finalmente saio da água e pouco depois chego aos arrebaldes da Vila. Ainda vai ser necessário correr um pouco mais, mas já cheira a meta. Tento não abrandar. Entro numa estrada com um carreiro para os corredores demarcado por umas grades amovíveis. Corro com os braços e pernas coordenados para uso dos bastões. Corro com as orelhas, os olhos, os lábios, tudo, tudo, tudo! A dado ponto tropeço sem saber como e caio desamparado de queixo no alcatrão. Foi como se levasse um forte gancho de esquerda do Jon ‘Bones’ Jones. O queixo sangra, mas nada de especial. Doem-me os maxilares, mas não necessito desses para correr. Não estou num combate de MMA – Mixed Martial Arts, embora por vezes pareça estar.

De cara à banda e sangue no queixo lá prossigo para a meta. Este troço final parece que foi desenhado por um sádico. Depois das duas subidas demolidoras até aos 2.300 m, ainda temos que fazer umas subidinhas dentro da própria vila, incluindo escadarias que já dispensaria de bom grado…


Final



Ainda por cima já só disponho de um bastão utilizável, uma vez que o da mão direita se partiu na queda. Uma coisa vos digo: não vejo como poderia ter feito esta prova sem o auxílio precioso dos bastões. Foram imprescindíveis e tornaram-se mesmo uma segunda natureza ao longo da prova. Um prolongamento dos meus braços. Próteses providenciais. Ainda hoje me espanto quando olho para as mãos e não os encontro lá.

Finalmente entro no túnel da meta, basta sprintar mais uns metros para por fim cortar a linha de chegada, às 00h50m, após 40h50m de prova. Cheguei, cheguei cheguei!!!


Diploma



Encontra-se pouca gente por ali a estas horas. Nem sequer tenho direito a uma foto na linha de chegada. Há os massagistas e a refeição quente, mas não me apetece nem uns nem outros. De qualquer forma não há azeitonas... Peço a um voluntário que me leve a algum sitio onde façam a revisão ao meu queixo, caso precise de pontos, arames, próteses, ou o que for.

Levam-me ao minúsculo hospital local onde sou muito bem atendido. Mais tarde venho a saber que o Gabriel já por lá teria passado para tratar os pés muito massacrados.

Sou atendido por um médico muito bem disposto que insiste em falar comigo num português abrasileirado muito macarrónico. Faz-me a minha história clínica e eu conto-lhe que sou hipertenso desde 2008. A partir daí ele não me larga e pergunta-me repetidamente se não sinto o peito comprimido quando subo a montanha. Eu penso com os meus botões: “sim, eu e todos os outros… tenta lá tu subir a montanha ó gordo!” mas não digo nada.

Verificam-me o maxilar e o queixo. Parece estar tudo em ordem, apesar de a mim me parecer que os tímpanos estão prestes a explodir. Colocam-me um penso no queixo e mandam-me embora.
Recebo uma chamada da Helena, muito feliz por eu já ter acabado, e eu muito feliz por poder partilhar com ela mais esta conquuista.

Telefono também para o meu treinador, o Paulo Pires, que também fica muito contente por eu já ter terminado.

De facto a prova correu-me bem. Para mim, correr bem significa sentir que fiz aquilo que estava ao meu alcance. Dei o que tinha para dar. Não ficou nada de reserva. Não há arrependimentos.

Entretanto na montanha o Jorge tinha um azar com o frontal, que se avariou. Isso custou-lhe ficar imobilizado algum tempo e perder o 1º lugar no escalão de Masters. Mas como sempre o Jorge encarou essa contrariedade com fair-play e às 5h24m da manhã cruzava finalmente a linha de meta, cansado mas feliz, sobretudo por ter completado mais um dos inúmeros Ultra Desafios da sua longa carreira.

O Paulo Jorge seguiu-se-lhe pouco depois, às 6h19m, já com o início do novo dia. A Teresa esperava-o na meta. Este homem tem um andamento muito certinho e termina sempre todas as provas que inicia. Já tem também um curriculum invejável de provas tamanho XL.



Paulo Jorge - Refeição de acolhimento



Entretanto o Paulo Freitas tinha-me ido buscar e às 2h eu estava no apartamento. Conforme combinado, fiquei eu de ir buscar o próximo elemento, que seria o Luís Freitas.

Quando falei com o Paulo Pires, este mostrara-se preocupado com o facto de o Luis estar dado dado como desistente pela organização. No entanto não se conseguia contactá-lo pois tinha o telemóvel desligado.

Fiquei um pouco preocupado, mas imaginei que talvez o Luís tivesse ficado a descansar nalgum abrigo e na realidade ainda estivesse em prova. Parecia-me o mais provável.

Depois de um banho revigorante, e de uma cerveja geladinha, deitei-me completamente vestido para a eventualidade do Luis telefonar a qualquer momento. Acordei pouco depois com o sms do Paulo Jorge a dar-me a novidade de que já tinha chegado, o que me deu uma grande alegria. Aos poucos a Armada portuguesa ia dando à costa.

Daí a pouco o resto da malta acordou e decidimos ir para Puigcerdà para tentar descobrir o que se passava com o Luís e para o Gabriel mudar as ligaduras no hospital.

Deixei o Gabriel e o Paulo e frente ao hospital e fui estacionar o carro.

Cheguei à meta mesmo a tempo de ver chegar o José simões e o Luís Freitas em tandem!!! Eram 10h54 da manhã e eles estavam visivelmente cansados mas bem de saúde. Tinham ultrapassado as enormes dificuldades que tinham encontrado pelo caminho e aqui estavam, mais dois guerreiros vitoriosos!


José Simões e Luís Freitas



O Luis contou-nos então a sua história. Alguém da organização tinha-se enganado no dorsal e tinha identificado incorretamente o Luís como desistente, quando ele nunca se deu por tal em qualquer momento da prova. O mais desagradável disto é que nem sequer tinham levado o 2º saco para o abastecimento dos 158 km!

Enfim, mais um erro de amadorismo. Não fizeram double-check de uma informação errónea.


Dêem-me uma cervejinha, por favor...



Depois do Luis se alimentar, fomos esperar pela cerimónia de entrega de prémios, uma vez que vários dos nossos atletas iriam subir ao pódio!

Eu aproveitei logo para beber duas canecas fresquinhas quase de penalti, que me sentia seco que nem um bacalhau…


Isotónico!



Entretanto fomo-nos perguntando como estaria a Célia. Sabíamos que ela teria chegado ao topo da última subida e portanto já não seria barrada até à meta. O tempo limite para completar a prova era de 56 horas, mas estávamos convictos que ela chegaria ainda bem dentro desse limite.

Mais tarde ela contou-nos que tinha ficado presa no alto da montanha durante algumas horas e só depois é que conseguiu prosseguir.

E foi com enorme alegria que ouvimos anunciar o nome Célia nos altifalantes à medida que se aproximava da meta, à 13h43m. Agora sim, estávamos todos os 8 portugueses que tínhamos iniciado esta enorme aventura mais dois dias e algumas horas antes!


Célia Azenha



Tínhamos conseguido a quadratura do círculo! Tínhamos chegado à Índia e retornado com as valiosas especiarias!

Fomos aplaudir todos os nossos companheiros que foram ao pódio, e combinámos jantar juntos essa noite.

O vencedor da prova foi novamente o Eugeni Rosseló Solé em 32h17m.


Pódio Séniores Masculinos

Pódio Geral Feminina 

Pódio Masters Masculinos



Chegado a La Molina ainda mamei duas cervejas fresquinhas antes de fechar a pestana durante uma horita, para recuperar para a night. Infelizmente não havia azeitonas para acompanhar.


Às 23 horas encontrámo-nos com os restantes portugueses voadores e fomos jantar a primeira refeição a sério desde o término da corrida. A comida soube-me divinamente, apesar de sofrer de uma grande dificuldade em mastigar, fruto do gancho de esquerda que tinha recebido há algumas horas atrás, do traiçoeiro alcatrão. Mas melhor ainda me soube a conversa, a amizade e o convívio. Estávamos todos nas nuvens, e o grau de cumplicidade que se estabeleceu entre nós nas últimas 56 horas era denso e palpável.


Armada Lusa



Pertencemos a uma tribo muito especial, a tribo dos Trail Runners. Entre nós existe sempre motivo de conversa, experiências para trocar, admiração e respeito mútuos.

Na 2ª feira levantámo-nos bem cedinho para embarcarmos na longa viagem de regresso para Ovar. Foram 1.200 km bem durinhos para atravessar a comprida meseta ibérica. Já não tínhamos posição para colocar as pernas.

Foi com grande alegria que cruzámos a fronteira de Vilar Formoso. Não há nada como a nossa terra! Aproveitámos para repetir a selfie, desta vez em versão pós-prova.


Selfie de Vilar Formoso


Em Ovar separámo-nos do Gabriel e do Paulo, que ainda teriam que fazer mais alguns kms até Viana.

Jantei com os Freitas, uma excelente feijoada, que repeti 3 vezes, quase até rebentar. Caí na cama como uma pedra. Graças à hospitalidade dos Freitas, pude regressar para Lisboa, no Intercidades das 13h17, 3ª feira dia de Portugal, data altamente simbólica. Ainda levei um tupperware cheio de feijoada, não fosse ter fome pelo caminho! Havia de ser lindo, eu, na 1ª classe, a sacar da colher e regalar-me alarvemente com a feijoada. Faria lembrar uma cena muito famosa de um filme do Terence Hill, para quem se recorda dos Western Spaguettis cheios de porrada, em parceria com o Bud Spencer.

Em casa, qual Ulisses que retorna à pátria, fui recebido pela minha maravilhosa família, que faz com que tudo isto valha a pena.

Tomei então conhecimento do enorme apoio que nos foi dado à distância pelos nossos familiares e amigos, nos social media, sobretudo Facebook e no site da TraceMyWay, onde li os inúmeros comentários de incentivo e apoio que foram sendo colocados ao longo de toda a Odisseia por toda uma comunidade que vibrou connosco, sobretudo a minha Mãe que acompanhou sempre muito de perto a prova de toda a Armada Lusa.


TraceMyWay




Para terminar, deixo algumas estatísticas dos 214 km da VCUF 2014:






Nota-se bem que os resultados da representação Portuguesa são superiores em média aos das restantes nacionalidades.

Chegámos mesmo muito perto de ter um representante no pódio da Geral Masculina, na pessoa do Gabriel Meira, que fez uma prova soberba e só mesmo no fim, fruto de má marcação do percurso, viu escapar o 3º lugar.

Tivémos, no entanto, uma representante no pódio da Geral Feminina, na pessoa da grande Célia Azenha, preseverante até ao fim, após ultrapassar grandes dificuldades.

Todos nós tivémos que, em diversos pontos da corrida, ultrapassar fortes obstáculos, de variadas naturezas, mas todos os conseguimos superar e isso deu uma consistência ao grupo fora do comum.

Julgo que estes resultados se deveram em boa parte ao grande espírito de camaradagem, solidariedade e entre-ajuda que existiu entre os elementos da comitiva Lusa, e também dos muitos portugueses que nos apoiaram à distância!

Pela parte que me toca, garanto que senti a presença de muita gente comigo, durante todos os 214 km da prova.

Em suma, foi com indesmentível orgulho que tive o privilégio de fazer parte desta equipa magnífica.

Gostaria também de endereçar um agradecimento especial ao meu treinador, Paulo Pires. Sem o treino rigoroso que ele prescreve isto seria possível, mas muito mais difícil (não seria a mesma coisa).




Link para um vídeo da prova dos 87 km:
http://vimeo.com/99013920

Fotografias da prova dos 214 km:
https://plus.google.com/u/0/photos/+VoltaCerdanyaUltrafons/albums/6026436482617954385