domingo, 30 de dezembro de 2018

Andorra Ultra Trail VallNord - Ronda dels Cims 2019 - S02E04







"All of the sons of Adam are part of one single body.
They are of the same essence.
When time afflicts us with pain
In one part of that body
All the other parts feel it too.
If you fail to feel the pain of others
You do not deserve the name of man."

Persian poet Saadi Shirazi (Persian: سعدی) ‎(1184 - 1283/1291?)



Penso que o que de mais fundamental a corrida nos proporciona é precisamente aquilo que está espelhado no poema de Saadi Shirazi: o sentido de irmandade que se atinge através do esforço e da alegria de superação partilhadas.
Correr faz-me sentir parte de uma corrente humana, de solidariedade, compreensão mútua e empatia.

E a vertente do Trail Running é aquela onde esse sentimento é mais forte e acentuado.

Quantos amigos já fiz em corrida pelas montanhas? Muitos. Mas, sobretudo, a qualidade dos laços que se forjam é única. Ultrapassar grandes dificuldades em conjunto deixa marcas para a vida. Num único (longo) evento, parece que se vive tanto quanto em meses de vida. Em intensidade, profundidade, alegria, dor, tristeza, exultação, sofrimento, euforia, abatimento, entusiasmo, desespero, júbilo, desalento, regozijo, desânimo, glória.

Para o Trail Runners, não há proveniência, estrato social, profissão, raça, etnia, nacionalidade, idade, género, orientação, pois o que se vê é uma pessoa com a mesma paixão (e para fazer Trail de forma sustentada é necessária paixão) e o que se sente é a irmandade dos elementos desta tribo.

É esta a principal razão que me mantém no Trail.

E por isso mesmo é que os últimos dois anos, em que pratiquei muito pouco esta minha paixão, me custaram muito mais do que poderiam ter custado. O Trail ameniza e relativiza tudo. Não há nada como estar na Serra ou na Montanha e sentir a brisa no rosto, o coração a pulsar, os pulmões a inflar e as pernas a moverem-se ritmadamente.

E a vertente competitiva também é significativa. O que há de mais natural nos seres vivos é serem competitivos. Está inscrito na matriz genética. Penso que todos nós necessitamos de nos medir contra uma referência qualquer, e essa referência pode ser o nosso próprio progresso, mas invariavelmente também será as marcas dos nossos pares, digamos o que dissermos. As pessoas passam demasiado tempo a negar a sua própria natureza. É uma perda de tempo. O que se deve fazer é abraçar essa natureza e orientá-la para fins úteis e produtivos.

Pode parecer que a prática da corrida não obedece a nenhum fim útil, mas isso é um grande equívoco. É extremamente útil, não só ao melhorar a nossa saúde física e sobretudo mental, mas também pelas externalidades positivas que traz para a vida em sociedade. Os grupos de corrida são redes sociais de partilha e apoio mútuo extremamente benéficos.

Na nossa sociedade de hoje, parece que todas as atividades têm necessariamente que ter um objetivo económico. Pessoalmente, sinto como fundamental precisamente este sentido de libertação que uma atividade sem qualquer objetivo monetário, para quem a pratica, nos proporciona.

Eu diria, portanto, que o mais fundamental que correr nos trás são o sentido de pertença e de liberdade.









Mas voltemos ao tema do título desta crónica.

Desde que a 15 de Novembro me inscrevi novamente nos míticos 170 km de Ronda dels Cims, tive que delinear novamente um plano de treinos ambicioso para que não venha a sofrer da mesma desilusão de 2017.

O plano está relatado neste post: S02E02 e neste: S02E03.

Trata-se de cumprir 8 Mesociclos, compostos por 4 Microciclos de uma semana, cada um.

Os dois primeiros Mesociclos estão cumpridos, um pouco ad-hoc e sem grande planeamento, exceto pela vontade de fazer quilómetros e sobretudo desnível, que é o que verdadeiramente conta numa prova com 13500 mD+.

A fórmula que gosto de usar para aferir do volume do meu treino é aquela que foi definida pela ITRA e que conjuga a distância percorrida com o desnível subido: km-effort = Km + (mD+)/100

No seguinte gráfico vê-se a progressão de treino desde que comecei a treinar de forma sistemática. Em resumo, vê-se uma progressão razoavelmente constante desde o final de 2009 até Novembro de 2016 (embora se note já alguma quebra desde o UTMB, em Agosto de 2015). Depois há um grande hiato até Agosto de 2018, apenas interrompido por 3 meses de treino para Ronda dels Cims em Abril, Maio e Junho de 2017.





Portanto, de acordo com histórico dos 5 anos em que completei provas com mais de 160K / 10KD+ (2012, 2013, 2014, 2015, 2016), eu diria que, para ser bem sucedido, terei que fazer volumes de km-effort de cerca de 500 km por Mesociclo.





Decompondo em Kms e altimetria, dará cerca de 400 km e 10 KD+ por Mesociclo.






Um factor fundamental, para conseguir completar estas cargas de treino, é o peso, que terá que baixar para os níveis de 2013. Isso significa perder cerca de 2 kg por mês até o início de Maio, quando participarei nos 80K / 5KD+ do Estrela Grande Trail, que encaro como uma prova de preparação para Ronda dels Cims.






Resumo do GARMIN








“Uma vez que nos espera uma longa vida, mais vale viver esse tempo cheio de vitalidade, com objectivos bem claros em mente e perseguindo com firmeza as nossas metas, do que atravessar os anos que nos esperam no meio do nevoeiro. Nessa perspectiva, julgo que correr constitui uma verdadeira ajuda. A essência da corrida consiste em nos obrigar a dar tudo por tudo, dentro dos nossos limites. E isso funciona como uma metáfora da própria vida (…)”
 

- Haruki Murakami, "Auto-retrato do escritor enquanto corredor de fundo."









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