Histórias do meio da tabela
Companheiro do Dossiê 44: se os números medem o pelotão, estas dez crónicas contam-no. Histórias reais de quem corre no meio e no fundo da tabela — a primeira ultra, a transformação do sedentário, o joelho operado, o DNF sem remorso, o cut-off vivido —, recolhidas de blogues públicos, com citação verbatim e privacidade respeitada.
Histórias do meio da tabela
Se os números medem o pelotão, estas crónicas contam-no. Dez histórias reais de quem corre para acabar — escritas pelos próprios.
Os números medem o pelotão; não o contam. Este post é a outra metade — as histórias, uma a uma, de quem corre no meio e no fundo da tabela. E há uma verdade que percorre toda a série: o pelotão documentou-se a si próprio.
O Dossiê 44 mostrou, com meio milhão de classificações, que o trail português é sustentado pelo pelotão — a maioria para quem terminar já é vencer. Mas enquanto os resultados oficiais só guardaram os primeiros lugares, foram os corredores comuns que, à noite, depois de correr, escreveram a experiência num blogue (Dossiê 10). É lá que estas histórias estavam — não inventadas, escritas pelos próprios. Aqui recolhem-se, com fonte, data e as suas próprias palavras.
I. A estreia — a primeira vez que a meta pareceu longe demais
Quase todas estas crónicas partilham um momento fundador: a primeira prova longa, a distância que parecia impossível até deixar de ser.
José Guimarães deu ao seu blogue o nome que é, em si, uma tese: Ex-Sedentário. Em Janeiro de 2012 correu o seu primeiro ultra trail — os II Trilhos dos Abutres, em Miranda do Corvo (a mesma prova que, oito anos depois, serve de âncora estatística ao Dossiê 44). No fim, escreveu o essencial:
«foi uma prova sofrida, mas conquistada!»
«talvez para me relembrar o que custou e tudo o que aprendi ao fazer o meu primeiro Ultra Trail que, sem dúvida, irá ficar para sempre.»
Poucos meses depois, em Maio de 2012, Paulo Pires — que assina o Corremais, «Runbook de um gajo que mudou de vida» — estreava-se numa distância ainda maior: os 100 km do Ultra Trail Serra de São Mamede. E reparou que não estava sozinho na estreia:
«Já estávamos a fazer os primeiros Kms da minha primeira prova de 100Km.»
«Nunca tanta gente se estreou numa prova de 100Km em Portugal. Quase 200 pessoas à partida.»
A estreia não é só masculina — embora a blogosfera do trail o seja, de forma marcada (Dossiês 07 e 10). Brígida Pinto, em entrevista no blogue Sapatilhas Pensadoras (de autoria feminina, rara neste meio), descreve a sua primeira prova de trail, os ~39 km dos Trilhos do Almourol, no Entroncamento, como uma viragem:
«Foi uma verdadeira prova de superação para mim.»
«Depois de a terminar, senti que era capaz de fazer o que eu quisesse, bastava definir o objetivo e trabalhar para o atingir.»
E às vezes a estreia começa por um desafio que quase se recusou. A autora que assina «Vi», no blogue Com um chá me confesso, foi desafiada pelo seu ginásio a fazer o primeiro trail nocturno, em Maio de 2015:
«Eu podia ter dito logo que não... Mas não, aceitei o desafio.»
«Cortei a meta com tempo de chip de 1h51. Feliz. Eufórica.»
II. Do sofá à meta — a transformação
Se há um arco que define o pelotão, é este: a pessoa que era sedentária e passou a finisher. O nome do blogue de José Guimarães — Ex-Sedentário — é o programa inteiro. Em 2018, ele próprio o explicou:
«comecei a correr porque a vida que levava antes não me fazia muito sentido»
«um dia experimentei e conscientemente optei por começar a fazer mais vezes as coisas que sentia que me traziam felicidade»
A mesma viragem, noutro corpo e com números crus, está em Tripas e Nortadas, de Rui Pinho (Porto). Num texto de Outubro de 2012, «A história de 50 kgs», conta o momento em que decidiu mudar — e onde chegou:
«Fui-me pesar e vejo 137 kg. Assustei-me.»
«Peso neste momento 85 kg, e já completei 5 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha.»
III. Quando o corpo — ou a cabeça — trava
O meio da tabela não é só estreia e euforia. É também o joelho operado, o muro psicológico, a decisão de parar. E é aqui que a crónica de pelotão é mais honesta do que qualquer relatório.
O corredor que assina «p18valentim», no blogue Por trilhos e pseudotrilhos, voltou à competição em Fevereiro de 2022 — os 111 km do Trail de Conímbriga–Terras de Sicó — depois de uma operação ao joelho. Não escondeu porque ali estava:
«o que me levou a participar foi o mau período do ano passado com uma operação ao joelho esquerdo, que tem sido figura principal de todas as minhas crónicas»
«Precisava de testar o meu joelho, precisava de pensar na vida, em suma, precisava de andar por lá.»
Às vezes o que trava não é o corpo, é a cabeça. Filipe Torres, no Quarenta e Dois (Ponto Dois), narrou o MIUT de 2023 (85 km) — uma crónica chamada «Apagou-se a luz» — com uma crueza rara sobre o momento em que «terminar» deixa de bastar:
«Merda. Merda pra isto. Fiz tudo bem até aqui. Não abusei nas subidas, não exagerei nas descidas. Fiz tudo bem e mesmo assim estava outra vez no poço do costume.»
«Algo tinha mudado em mim, simplesmente não queria estar ali e nem sequer a meta servia como luz ao fundo do túnel.»
Terminou, ainda assim, em 14h40. Mas o valor da crónica não está no resultado — está em admitir, por escrito, que o «orgulho de terminar» tem limites, e que houve um dia em que a meta deixou de puxar.
E há a decisão de parar sem drama. Lourenço Bray, no Diários de Corrida, descreve a sua única desistência — no MIUT, aos 98 dos 115 km — e recusa transformá-la numa tragédia:
«A minha primeira e até agora única desistência ocorreu no MIUT aos 98km, quando ia nos 30% primeiros e quando só faltavam 17km»
«Mas mesmo assim conseguia andar e podia ter andado até à meta e ser finisher dentro do tempo limite. No entanto desisti e sem qualquer remorso.»
A desistência de Lourenço Bray é por decisão, não por barreira horária: ele podia ter terminado dentro do tempo. É um DNF vivido — mas não ainda o cut-off propriamente dito, o relógio que persegue o corredor quilómetro a quilómetro. E essa história — a mais típica do fundo do pelotão — encontrámo-la no sítio menos esperado: no blogue do clube RUN 4 FUN, escrita pelo próprio autor desta série, que também é um atleta de pelotão a correr agarrado ao tempo de corte. No X Ultra Trail da Serra de São Mamede de 2023 (108 km), a barreira horária foi o adversário do princípio ao fim:
«Desde o início da prova que uma das minhas maiores preocupações consistia em não ser barrado em nenhum abastecimento por não cumprir os tempos de corte. Em 2 das 4 Ultras em que tinha participado desde o início da época de 2023, tinha chegado à meta com meia hora de atraso sobre o tempo limite.»
«Bem, não adianta ganir, o melhor é seguir em direção a Reguengo porque a folga horária tem vindo a diminuir e neste momento só tenho 90 minutos de folga sobre a barreira horária.»
É o cut-off na sua forma mais real: não o abandono por opção, mas a aritmética permanente da folga que encolhe — e a experiência de cruzar a meta fora de tempo e ficar dependente da tolerância da organização. Que seja auto-citação é, aqui, coerente: quem escreve a série corre no meio da tabela.
IV. Começar tarde — quando a corrida chega depois dos 40
Nem todas as estreias são de gente nova. Algumas das vozes mais serenas do pelotão são de quem descobriu a montanha com a vida já a meio — ou mais além. No arquivo de testemunhos «Como começou» do Trail de Portugal, Toni Viegas resume a viragem numa frase que vale por um programa (o erro é do original, e mantém-se):
«Tenho quarenta anos, nunca fiz desporto até à dois anos atraz!!!»
Dois anos antes pesava 80 kg; quando escreveu, 68. E há quem leve a estreia ainda mais longe na idade: Joaquim Sampaio, no mesmo arquivo, começou na montanha aos 41 anos e, à data em que escreveu, corria ultras de 52 e 55 km. Apresenta-se sem cerimónia:
«já não sou propriamente um menino, já cá cantam 65 anos»
V. Correr acompanhado — o pelotão em casal e em família
O pelotão raramente corre sozinho de verdade: atrás de cada dorsal há uma logística doméstica. Poucos o dizem por escrito. L. F. M. Ricardo, que assina o Uivos de Lobo (Portalegre), disse-o: na crónica do MIUT de 2015 — 115 km, 6.848 m de subida —, a parte mais reveladora são os agradecimentos, à companheira «pela compreensão desta forma de vida, pelo apoio e companhia» e às filhas «pelo incentivo e motivação».
Terminou os 115 km. Mas o que fica não é o tempo: é a expressão «desta forma de vida» — o reconhecimento de que uma ultra de pelotão se corre a partir de uma casa, e com o consentimento de quem lá vive.
VI. As vozes que faltam — mulheres no pelotão
A blogosfera do trail é marcadamente masculina (Dossiês 07 e 10), e por isso cada crónica de pelotão de autoria feminina vale duplamente. Além de Brígida Pinto e de «Vi» (secção I), esta pesquisa encontrou mais duas. Katia Almeida correu o Ultra Trail da Lousã — 45 km, +3.350 m — e terminou em 9h30, a meia hora do fecho: uma corrida vivida no fundo da tabela. A crónica não fala de tempos; fala de medo:
«E descobrimos efetivamente que as melhores coisas da vida estão do outro lado do medo.»
«O ponto de perigo máximo, é sem dúvida o ponto de menos medo.»
E há a corredora que assina RUN BABY RUN, cujo blogue é, ele próprio, um regresso. Data com precisão o intervalo — e não diz porque parou; não se especula:
«Deixei de correr no dia 26 de outubro de 2019. Recomecei no dia 25 de abril de 2023. Dia da Liberdade.»
«Sou uma corredora porque corro. Não porque corro rápido ou porque corro muito.»
A mesma autora recusa qualquer épica, com uma auto-ironia que é, ela própria, uma forma de verdade:
«Mas como impera em mim o discernimento de me considerar uma corredora mediana-quase-medíocre-ó-coiso vou regressar à Serra D'Arga com a esperança de fazer uns 17km cheios de vontade e garra.»
O que não encontrámos — e o que os números mostram
A honestidade da série exige dizer o que ficou por documentar. Continua por fechar uma lacuna central:
- O último classificado literal, com dignidade. Não se localizou uma crónica de alguém a narrar o seu próprio último lugar — o «lanterna vermelha» que fecha a prova atrás de todos. Procurou-se por tema e por blogue, sem resultado em primeira pessoa. O ângulo que resta é inverso: partir do arquivo de resultados (Dossiê 44 §2), identificar o último classificado nominal de uma prova concreta e só então procurar se deixou relato público — pesquisa por nome, não por tema. (Por fazer.)
Ficaram também por preencher, por falta de voz portuguesa verificável, o relato de uma estafeta de pelotão e o de quem corre em memória de alguém — dois ângulos procurados e não encontrados. Ficam no convite.
Onde a voz falta, ficam os números. Nos Trilhos dos Abutres de 2019 (Ultra, 762 finishers), o vencedor terminou em 4h18; o último classificado, em 9h59 — colado ao corte das 10 horas, 2,3 vezes o tempo do vencedor. E não chegou sozinho: catorze corredores cruzaram a meta nos derradeiros 30 minutos, na compressão típica de quem corre agarrado ao relógio (arquivo de resultados — cf. Dossiê 44 §2). A crónica em primeira pessoa que falta a esse último lugar tem, pelo menos, a forma medida por estes tempos — e uma voz que dela se aproxima: a de Katia Almeida, a terminar a Lousã a meia hora do fecho.
A — fonte primária verificada: crónica assinada, URL vivo, citação confirmada verbatim (Guimarães, Pires, Pinho, Torres, Bray, «p18valentim», o cut-off do autor no RUN 4 FUN, Katia Almeida e L. F. M. Ricardo/Uivos de Lobo). B — voz autêntica mas com autoria/pseudónimo por confirmar, sem data no post, ou testemunho/entrevista (Brígida Pinto/Sapatilhas Pensadoras; «Vi»/Com um chá me confesso; RUN BABY RUN; Sampaio e Viegas/Trail de Portugal). Privacidade: pseudónimos mantidos quando o autor não se identifica; matéria de saúde usada só quando auto-divulgada por autor identificado, no tom do próprio texto.
pesquisa-historias-pelotao-2026-07.
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