Os Incêndios de 2017 e a Reconstrução dos Trilhos

Não o trail que o fogo cancelou, mas o trail que ajudou a replantar: um inventário documentado dos impactos dos incêndios de 2017 no trail por

O que está realmente documentado sobre os incêndios de 2017 e o trail português — e as correcções que a pesquisa obriga a fazer: a Serra da Freita ardeu em 2016, não há cancelamentos documentados, e a AXtrail correu a serra queimada da Lousã e plantou 4.000 árvores.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 17

Os incêndios de 2017 e a reconstrução dos trilhos

Não o trail que o fogo cancelou, mas o trail que ajudou a replantar aquilo por onde corre.

🔥 Centro de Portugal 📅 2016–2019 (período documentado) 📚 Dossiê 17 · corrige o artigo-base em 3 pontos ✍️ Luís Matos Ferreira
O que este texto é, e o que não é. Um inventário documental do impacto dos incêndios de 2017 no trail português — não uma crónica do fogo. Limita-se ao que tem fonte pública; testemunhos directos e imagem de época estão ainda por recolher, e isso é assinalado.

Pergunta-guia

O que está, afinal, documentado sobre o impacto dos incêndios de 2017 no trail português — e o que é que a comunidade fez com a paisagem que lhe ardeu debaixo dos pés?

Aviso de proximidade e de interesses. O autor é praticante de trail desde 2010 e cofundador da ATRP em 2012; conhece por dentro várias das provas e organizações citadas (a Confraria Trotamontes e a Serra da Freita, a rede das Aldeias do Xisto, a comunidade da Serra da Lousã). Este texto trata de um tema com custo humano que excede em muito o desporto — os incêndios de 2017 mataram mais de cem pessoas. A regra editorial aqui é dupla: limitar-se ao que está documentado em fonte pública e nunca converter dor humana em paisagem narrativa. Onde a memória pessoal não chega para afirmar, o texto di-lo.
Este dossiê expande o capítulo 13 do artigo-base da série — o capítulo que o próprio texto-mãe assumia como «deficitário». Lê-se em conjunto com o dossiê das Aldeias do Xisto, AXtrail e Mundial 2019 (Dossiê 16) e o dos voluntários (Dossiê 08).

1. 21 de Outubro de 2017: a prova que não fugiu

Na madrugada de 15 para 16 de Outubro de 2017, uma segunda vaga de incêndios — depois da de Junho, que matara mais de sessenta pessoas em Pedrógão Grande — varreu o centro de Portugal e queimou boa parte da Serra da Lousã. Cinco dias depois, no fim-de-semana de 20 e 21 de Outubro, a AXtrail — a prova da rede das Aldeias do Xisto — realizou-se na mesma serra, na sua 10.ª edição. Não foi cancelada. Correu sobre a paisagem ainda a fumegar. [R415]

A organização (a Go Outdoor, então operadora da prova) e o Município da Lousã fizeram um gesto que ficou registado: em vez de distribuir as habituais lembranças de presença, converteram-nas em árvores. Anunciaram uma acção de reflorestação e, «no seguimento dos incêndios que tanto afectaram a região», acabaram por plantar quatro mil árvores — duas mil em Castanheira de Pêra e duas mil na Lousã —, germinadas na própria Serra da Lousã para que tivessem, nas palavras da organização, «uma óptima taxa de sucesso». A edição reuniu, segundo a organização, cerca de 1.800 atletas est nas várias distâncias; na prova rainha de 50,6 km chegaram à meta 318 finishers. [R414][R415]

Esta é a imagem de abertura porque condensa a tese do dossiê. O reflexo documentado da comunidade do trail perante o fogo de 2017 não foi a fuga nem o cancelamento — foi a continuação transformada em reparação. Vale a pena tornar isto preciso, porque durante anos a própria série o contou mal.

2. Uma síntese impressionista que é preciso corrigir

O artigo-base v2 dizia, no capítulo 13, que «a Serra da Lousã, o Caramulo, a Serra da Freita, a Serra de Montemuro foram severamente atingidos» e que «Trilhos do AXtrail/UTAX, Louzantrail e UTSF foram destruídos ou danificados», que «vários eventos foram cancelados, alterados ou relocalizados», e fechava com uma confissão honesta: aquilo era «síntese impressionista», e um trabalho rigoroso «não foi feito».

Feita agora a pesquisa, três dessas afirmações não resistem à documentação — e dizê-lo é o primeiro dever deste texto.

Critério editorial. Este dossiê só regista como «impacto dos incêndios de 2017» aquilo para que existe fonte que ligue explicitamente um fogo de 2017 a um trilho, prova ou acção concreta. Danos a redes de percurso e respostas de reflorestação entram quando há documento; atribuições genéricas de «trilhos destruídos» ou «provas canceladas», sem caso identificável, ficam de fora — ou entram assinaladas como não documentadas. Um buraco visível vale mais do que uma afirmação impressionista, ainda que bem-intencionada.

Primeira correcção — a Serra da Freita ardeu em 2016, não em 2017. O grande incêndio de Arouca — que destruiu, entre outros, os Passadiços do Paiva — foi em Agosto de 2016, com cerca de 26 mil hectares ardidos nos concelhos de Arouca, Castelo de Paiva, Vale de Cambra e São Pedro do Sul. [R418] Colocar a Ultra Trail Serra da Freita (UTSF) no rol dos «trilhos destruídos em 2017» é um erro de calendário. Como se verá na secção 5, o próprio trabalho académico que a série mobiliza confirma-o: no percurso da prova da Freita não há área ardida registada em 2017. [R41]

Segunda correcção — não há, para já, um único cancelamento documentado. A pesquisa não localizou nenhum comunicado de organização, notícia ou registo que ateste uma prova de trail cancelada por causa dos incêndios de 2017. O caso mais visível aponta no sentido oposto: a AXtrail realizou-se (secção 1). A 7.ª edição da UTAX, prevista para Outubro de 2018, de facto não se realizou — mas nenhuma fonte atribui essa não-realização aos incêndios, e por isso não o faremos aqui.

Terceira correcção — nem toda a reflorestação «do trail» é do trail. O artigo-base juntava, como resposta da comunidade, o movimento «Terra de Esperança» e os «Amigos da Montanha». A secção 6 mostra que o primeiro é um movimento corporativo sem ligação documentada ao trail, e que a acção conhecida do segundo não está ligada aos incêndios de 2017.

O que sobra depois destas correcções é menos, mas é sólido — e, ao contrário da síntese anterior, é verdadeiro.

3. O que ardeu, com números: as Aldeias do Xisto (Junho de 2017)

O dano documentado com maior precisão não está numa prova, mas na rede de percursos de que várias provas dependem. A própria rede das Aldeias do Xisto publicou, na sua enciclopédia digital (Xistopedia), um balanço do impacto dos incêndios de Junho de 2017 sobre os seus caminhos. [R413]

Segundo esse documento institucional, o fogo de Junho atingiu cerca de 50 mil hectares da área da rede, com um perímetro de 153 km, e afectou aldeias como Mosteiro, Ferraria de São João e Casal de São Simão. Nos percursos pedestres, ficaram danificados troços dos Caminhos do Xisto (53 km de rede), incluindo a ligação Casal de São Simão – Ferraria de São João (12 km) e um troço de 40 km da Grande Rota do Zêzere na zona de Figueiró dos Vinhos. Na rede de BTT, o balanço é ainda mais duro: cinco percursos, num total de cerca de 150 km, destruídos. [R413]

Estes são os quilómetros que a síntese impressionista intuía e não conseguia nomear. Não são «trilhos de prova» no sentido estrito — são a infraestrutura pedestre e de BTT do território sobre a qual a AXtrail e outras iniciativas se montam. É a diferença entre dizer «trilhos foram destruídos» e poder dizer quais, quantos quilómetros e com que fonte.

4. A reconstrução: replantar aquilo por onde se corre

A resposta documentada do trail aos incêndios de 2017 não é a de vítima, é a de agente de reparação — e prolonga-se no tempo.

O gesto da AXtrail de Outubro de 2017 (secção 1) foi o primeiro e o mais visível: quatro mil árvores em vez de lembranças, germinadas na Serra da Lousã. [R414] Cinco anos depois, a Louzantrail, organizada pelo Montanha Clube na mesma serra, tornou o gesto rotina: em 2022, «em aliança com a Câmara Municipal da Lousã», reflorestou «uma parte de uma floresta que ardeu nos incêndios de 2017», mantendo desde 2019 uma «floresta Louzantrail» através de um programa de compensação de carbono. [R417]

«Em 2022, em aliança com a Câmara Municipal da Lousã, reflorestámos uma parte de uma floresta que ardeu nos incêndios de 2017.» — Montanha Clube, organização da Louzantrail [R417]

Há aqui uma economia moral que merece ser dita sem retórica: as provas que correm nestas serras devolvem-lhes árvores. É modesto em escala — milhares, não milhões, de plantas — e é significativo em sentido, porque exprime uma consciência que as classificações não registam: a de que a modalidade depende da saúde do território que atravessa. Mas convém não a inflacionar. Não foi possível quantificar quantas árvores, no total, a comunidade do trail plantou depois de 2017, nem medir a sobrevivência dessas plantações. A tese central deste dossiê — o trail ajudou a replantar aquilo por onde corre — assenta em dois casos documentados (AXtrail 2017, Louzantrail 2022), não num inventário nacional que ainda está por fazer.

5. A Freita, a ciência e o mito dos «44%»

O trabalho académico que a série mobiliza para este tema é uma dissertação de mestrado da Universidade do Porto — e vale a pena apresentá-la com rigor, porque a série a vinha citando com o título errado e a interpretar mal o seu número mais citado.

Ficha da fonte (corrigida). A dissertação é de Ângela Cristina Cota da Silva, «Vulnerabilidade dos atletas de trail running em áreas de risco de incêndio: o caso do Elite Trail Serra da Freita 100 km», Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica e Ordenamento do Território, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, orientação da Professora Doutora Fantina Tedim, defendida em Julho de 2021. [R41] O título que a bibliografia-mestra da série vinha usando («Trail Running e susceptibilidade a incêndios — Portugal continental 2017–2020») não corresponde ao documento — erratum registado.

O estudo não é sobre os incêndios de 2017. É sobre uma pergunta mais interessante e desconfortável: estará um atleta seguro a correr cem quilómetros por uma serra que arde recorrentemente, no fim de Junho, à hora de maior calor? O caso é o Elite Trail Serra da Freita 100 km (ETSF100), organizado pela Confraria Trotamontes e por José Moutinho, em Arouca. A autora aplica análise multicritério em ambiente SIG (método de hierarquia analítica de Saaty) para cruzar a susceptibilidade do percurso ao fogo — ocupação do solo, declives, orientação de vertentes, distância acumulada — com a vulnerabilidade dos próprios atletas (escalão etário, velocidade média, e o quilómetro onde cada um estava às 14h da prova de 2019). [R41]

Os resultados, todos confirmados no documento:

  • 83% do percurso do ETSF100 decorre em áreas de susceptibilidade ao incêndio «elevada» ou «muito elevada» — o que o coloca entre as três provas mais expostas de um conjunto de onze ultra-trails portugueses analisados, atrás do Ultra Trail do Marão (86,5%) e do EstrelaAçor (85,6%). [R41]
  • Ao longo do período de 2005 a 2019, arderam pelo menos uma vez cerca de 99,8% da área do percurso; os anos de maior área ardida foram 2005 e 2016 — e, note-se, não houve área ardida no percurso em 2017. [R41]
  • Às 14h da prova de 2019, a maioria dos atletas concentrava-se entre os quilómetros 35 e 57, precisamente os troços de maior susceptibilidade.

É deste último ponto que nasce o número que a série vinha a citar torto. A afirmação correcta é: 44% dos atletas apresentavam vulnerabilidade «elevada» ou «muito elevada» à hora de maior calor (29,9% elevada + 14,3% muito elevada, dos 77 finishers de 2019). [R41]

Correcção de um número. Versões anteriores dos materiais desta série diziam que «cerca de 44% do percurso» estaria em vulnerabilidade alta à hora de maior calor. Está errado: o 44% refere-se a atletas, não a quilómetros. A métrica equivalente ao percurso é outra — 83% do traçado em susceptibilidade elevada/muito elevada, ou 19% do percurso classificado como «muito vulnerável» em troços concretos (subida da Pena, Portal do Inferno, subida da Besta). Confundir os dois é confundir o perigo do terreno com a exposição das pessoas.

A dissertação termina com recomendações que são, elas próprias, um documento sobre a imaturidade do sector em matéria de risco: plano de emergência, «manual do atleta» com informação sobre perigos naturais, aplicação móvel offline que mostre a localização em tempo real e o ponto de socorro mais próximo. E regista uma frase dos próprios atletas inquiridos que devia ficar: pediam mais voluntários espalhados pelo terreno, e não apenas nos controlos. É o reverso do dossiê dos voluntários (Dossiê 08) — aqui, o voluntário não é só logística, é dispositivo de segurança perante o fogo.

6. Voluntariado ambiental: o que é do trail e o que não é

Há a tentação de anexar ao trail todo o esforço de reflorestação que se seguiu a 2017. É preciso resistir-lhe, porque a maior parte desse esforço tem origem e dinâmica próprias.

O movimento «Terra de Esperança», frequentemente evocado neste contexto, é um projecto da Fundação Galp com a ANEFA, lançado a 23 de Novembro de 2017, cinco semanas depois dos fogos de Outubro. Mobilizou milhares de voluntários e plantou dezenas de milhares de árvores autóctones em concelhos afectados — arrancou com 600 voluntários e 7.500 árvores na Serra do Açor. [R419] É um belo caso de voluntariado ambiental nacional; não é um caso de trail. Não há ligação documentada entre este movimento e clubes, provas ou atletas da modalidade, e atribuí-lo ao trail seria apropriação indevida.

Do mesmo modo, os Amigos da Montanha (de Barcelinhos, Barcelos) são uma associação real de montanha e trail com uma cultura ambiental documentada — fazem acções de reflorestação, como a do «Souto dos Burros» (2023), com mais de duas centenas de voluntários e centenas de árvores autóctones. [R420] Mas essa acção concreta não está ligada aos incêndios de 2017 nem a uma prova; serve para ilustrar a cultura ambiental do meio, não uma resposta ao fogo daquele ano.

Lacuna assumida. A distinção entre «reflorestação feita por gente do trail» e «reflorestação feita por causa de uma prova de trail» é fina e importante. Os dois casos que sobrevivem ao critério (AXtrail 2017, Louzantrail 2022) são de provas que reflorestaram território ardido em 2017. Tudo o resto que a pesquisa encontrou é voluntariado ambiental de origem não-trail (Terra de Esperança) ou de trail mas sem ligação a 2017 (Amigos da Montanha). Se existem outras acções de clubes ou provas dirigidas às áreas ardidas de 2017, escaparam a esta pesquisa — e são exactamente o tipo de contributo que este dossiê pede.

7. Do fogo à lei: a resposta institucional que também tocou as provas

A maior consequência estrutural de 2017 não foi desportiva, foi legislativa — e, indirectamente, alterou o quadro em que as provas de trail se realizam.

Os incêndios de 2017 levaram à criação, no Parlamento, de Comissões Técnicas Independentes cujas conclusões estão na origem da reforma da política de fogos rurais. Dessa reforma nasceu, em 2021, o Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), consolidado no Decreto-Lei n.º 82/2021 e coordenado pela AGIF. [R421] Para o trail, o ponto de contacto concreto é o regime de acesso e circulação em espaço florestal em dias de perigo de incêndio: em dias classificados de perigo «muito elevado» ou «máximo», ficam condicionados ou proibidos, no território florestal, os comportamentos de risco — o que, na prática, pode abranger a realização de eventos desportivos organizados ao ar livre.

Lacuna assumida. Não foi localizada nenhuma norma ou procedimento de autorização de provas de trail que tenha sido explicitamente criado ou alterado por causa de 2017. O enquadramento que existe (SGIFR, condicionamento de acesso ao espaço florestal em dias críticos) é geral e não específico da modalidade. A pergunta — como é que os incêndios de 2017 mudaram, na prática administrativa, a autorização e a calendarização de provas em áreas de risco? — continua em aberto e exige consulta às federações, ao ICNF [R32] e às autarquias.

8. O eucalipto, sem narrativa fácil

O artigo-base fazia notar que os incêndios reabriram o debate sobre o modelo florestal português e a monocultura de eucalipto, e que a comunidade do trail «foi nele apanhada» porque os seus trilhos atravessam essas plantações. A observação mantém-se — mas agora pode ancorar-se num dado em vez de numa impressão.

A caracterização do percurso da Freita feita na dissertação [R41] mostra um mosaico: 46% de matos, 37% de floresta (com o pinheiro-bravo e os carvalhos à frente, e o eucalipto em cerca de 5%), o resto repartido por agricultura e espaços descobertos. Não é a paisagem de eucaliptal contínuo do imaginário; é um terreno misto, em que a susceptibilidade ao fogo vem tanto dos matos e do declive como da espécie florestal. Serve de aviso contra a narrativa fácil: nem todo o trilho arde por causa do eucalipto, e o risco de incêndio de um percurso é uma combinação de factores, não um único culpado. O tema florestal excede este dossiê e a competência do autor — mas ignorá-lo, como dizia o artigo-base, seria desonesto.

9. O que sabemos — e o que ainda não podemos afirmar

Sabemos, com documentação disponível, que:

  • em Junho de 2017 os incêndios destruíram troços concretos da rede de percursos das Aldeias do Xisto — Caminhos do Xisto, Grande Rota do Zêzere, cinco percursos de BTT / ~150 km [R413];
  • em Outubro de 2017 a AXtrail realizou-se na Serra da Lousã dias após o fogo e converteu as lembranças de presença em ~4.000 árvores [R414][R415];
  • a Louzantrail reflorestou, em 2022, área ardida em 2017, com a Câmara da Lousã [R417];
  • o grande fogo da Serra da Freita foi em 2016, não em 2017, e o percurso do ETSF100 não ardeu em 2017 [R418][R41];
  • o percurso da Freita está entre os mais expostos ao fogo do país (83% em susceptibilidade elevada/muito elevada) e 44% dos seus atletas de 2019 estavam em vulnerabilidade elevada à hora de maior calor [R41];
  • a reforma da política de fogos rurais (SGIFR, 2021) nasceu das comissões técnicas de 2017 e condiciona o acesso ao espaço florestal em dias críticos [R421].

Ainda não podemos afirmar:

  • que alguma prova de trail tenha sido cancelada, adiada ou relocalizada por causa dos incêndios de 2017 — não há caso documentado;
  • quantos quilómetros de trilho de prova (por oposição a rede pedestre geral) foram destruídos, nem em que provas;
  • o total de árvores plantadas pela comunidade do trail depois de 2017, nem a sua taxa de sobrevivência;
  • se houve alteração administrativa específica na autorização de provas em áreas ardidas por efeito de 2017;
  • qual foi a experiência humana concreta de correr, treinar ou organizar em paisagem queimada — falta o testemunho com nome e a imagem de época.

Nenhuma destas lacunas autoriza inventar. Uma prova que se realizou não é uma prova cancelada; um movimento corporativo de reflorestação não é uma acção do trail; um fogo de 2016 não é um fogo de 2017.

10. Próximo passo editorial

O que falta — e como obtê-lo. As duas maiores lacunas deste dossiê são o testemunho com nome e a imagem de época. O passo concreto seguinte é consultar manualmente o Arquivo.pt e as páginas de Facebook das provas (AXtrail / Go Outdoor, Louzantrail / Montanha Clube) para Outubro–Novembro de 2017, à procura do comunicado original das quatro mil árvores e de fotografias legendadas dos atletas na serra ardida. Em paralelo, contactar directamente a organização da AXtrail / rede Aldeias do Xisto (ADXTUR) e o Montanha Clube (Louzantrail), para documentar as reflorestações; a Confraria Trotamontes / José Moutinho, sobre a gestão do risco de fogo na Freita; e a autora da dissertação, Ângela Cota da Silva, sobre metodologia e desenvolvimentos posteriores.

Qualquer testemunho recolhido entrará como fonte primária, datado e atribuído, com consentimento explícito e revisão prévia — dada a memória traumática associada, nenhum excerto será publicado que banalize a dimensão humana dos incêndios. Há ainda uma tarefa de inventário: cruzar os calendários da ATRP, FPME e FPA de 2017–2018 com as áreas ardidas, para responder, com método, à pergunta a que este dossiê só pôde responder pela negativa.

11. Convite ao contraditório e aos contributos

Este texto corrige o artigo-base em três pontos e assume que continua incompleto. São especialmente úteis contributos documentados sobre:

  • provas concretas canceladas, adiadas, encurtadas ou relocalizadas em 2017–2018 por causa dos incêndios, com fonte (um comunicado, um cartaz, um regulamento alterado) — a lacuna mais importante do dossiê;
  • fotografias datadas de trilhos ardidos, de atletas em paisagem queimada ou das acções de reflorestação de 2017, com autorização de uso;
  • testemunhos de organizadores sobre a decisão de manter, adiar ou alterar uma prova naquele Outono, e sobre o trabalho de remarcar e limpar trilho ardido;
  • outras acções de reflorestação de clubes ou provas de trail dirigidas às áreas ardidas de 2017 (para além da AXtrail e da Louzantrail);
  • documentos institucionais (ICNF, autarquias, federações) com alteração de procedimentos de autorização de provas motivada por 2017;
  • correcções factuais a este dossiê — incluindo, se for o caso, a demonstração de que houve cancelamentos que a pesquisa não encontrou.

Testemunhos pessoais só serão citados nominalmente com consentimento. Gostava muito de ouvir a tua opinião — e, sobretudo, de conhecer as provas, as pessoas e as imagens que faltam para tornar este capítulo verdadeiramente documentado.

12. Referências

  • [R25] Aldeias do Xisto — UTAX / AXtrail (Xistopedia): aldeiasdoxisto.pt
  • [R32] ICNF — Códigos de Conduta e regras de acesso a áreas florestais e protegidas (enquadramento institucional).
  • [R41] Silva, Ângela Cristina Cota da (2021) — Vulnerabilidade dos atletas de trail running em áreas de risco de incêndio: o caso do Elite Trail Serra da Freita 100 km, dissertação de Mestrado em SIG e Ordenamento do Território, FLUP; orientação de Fantina Tedim. Caso ETSF100 (Arouca): 83% do percurso em susceptibilidade elevada/muito elevada; 44% dos atletas de 2019 em vulnerabilidade elevada/muito elevada às 14h; 99,8% do percurso ardido pelo menos uma vez (2005–2019), sem área ardida em 2017: repositorio-aberto.up.pt [PDF]
  • [R413] Aldeias do Xisto / Xistopedia — «Impacto dos incêndios de junho 2017 nas Aldeias do Xisto»: ~50 mil ha e 153 km de perímetro; danos nos Caminhos do Xisto (53 km), troço Casal de São Simão–Ferraria de São João (12 km), 40 km da Grande Rota do Zêzere (Figueiró dos Vinhos); 5 percursos de BTT / ~150 km destruídos: aldeiasdoxisto.com
  • [R414] Trail-Running.pt — «AXtrail comemorou 10 anos, reuniu 1800 atletas e plantou 4000 árvores» (Outubro de 2017): reflorestação da Serra da Lousã na sequência dos incêndios; 2.000 árvores em Castanheira de Pêra + 2.000 na Lousã, germinadas na serra: trail-running.pt
  • [R415] UTMB World — base de dados «AXtrail Ultra Trail Aldeias do Xisto TSL 2017»: 50,6 km / 2170 m D+, realizada a 21 de Outubro de 2017, 318 finishers: utmb.world
  • [R416] Notícias de Coimbra — «Inscrições esgotadas na décima edição do AXtrail» (2017): confirmação, em imprensa regional, da realização e adesão da 10.ª edição na Lousã: noticiasdecoimbra.pt
  • [R417] Montanha Clube / Louzantrail — «Louzantrail no trilho da sustentabilidade» (Pro Runners) e «Louzantrail 2024» (Trail-Running.pt): reflorestação em 2022, com a Câmara da Lousã, de área ardida em 2017; «floresta Louzantrail» desde 2019: prorunners.pt · trail-running.pt
  • [R418] «2016 Portugal wildfires» / incêndio de Arouca (Agosto de 2016): ~26.821 ha ardidos em Arouca e concelhos vizinhos, destruição dos Passadiços do Paiva — correcção de calendário face à atribuição do fogo da Freita a 2017: en.wikipedia.org
  • [R419] Fundação Galp / ANEFA — Movimento «Terra de Esperança» (lançado 23 de Novembro de 2017): reflorestação com árvores autóctones em concelhos afectados; movimento corporativo, sem ligação documentada ao trail: fundacaogalp.com
  • [R420] Amigos da Montanha (Barcelinhos, Barcelos) — «Amigos da Montanha ajudam a reflorestar o "Souto dos Burros"» (2023): associação de montanha/trail em acção de reflorestação (projecto BiodiverCidade); não ligada aos incêndios de 2017: amigosdamontanha.com
  • [R421] Decreto-Lei n.º 82/2021 (Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais — SGIFR) e AGIF: reforma nascida das Comissões Técnicas Independentes de 2017; condicionamento do acesso ao espaço florestal em dias de perigo «muito elevado»/«máximo»: diariodarepublica.pt · agif.pt
Série · Dossiês publicados. Este texto integra a série História do Trail Running em Portugal. Lê-se com o dossiê das Aldeias do Xisto, AXtrail e Mundial 2019 (Dossiê 16) e o dos voluntários (Dossiê 08).
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