Por Onde a Água Vai

A mesma vida, sonhada outra vez. Os episódios dissolvem-se uns nos outros, e as datas ficaram à porta.
Água
Há um homem velho a abrir um rego na areia com a ponta de uma enxada, e a água vem atrás dele como um cão que conhece o dono. Vai por onde ele manda, devagar, até ao pé de cada morangueiro, e para, e espera. Eu tenho poucos anos e estou de joelhos ao lado do rego, com as mãos na água, e não sei ainda que é dali que tudo parte. Ninguém sabe isso quando está de joelhos ao lado de um rego.
A água não acaba no morangueiro. Passa por baixo da cerca, atravessa o caminho de terra, entra numa ria parada onde um menino aprende que o corpo pode flutuar, e da ria sai para um mar tão frio que faz estalar o crânio. Estamos lá dentro, eu e os primos, até ficarmos azuis. Antes disso houve a espera, três horas exatas ao minuto, para fazer a digestão, e esse é o único relógio da minha vida em que todos acreditaram. Ainda hoje, antes de entrar em qualquer água, uma parte de mim conta.
Antes do mar houve outra luz, mais amarela, num sítio que não consigo desenhar. Uma bicicleta, um amigo sem nome, um cão atrás de nós, a ladrar, e nós a fugir a pedalar numa terra vermelha. Eu tinha três anos, ou quatro, ou nenhum. Dessa luz ficou-me só o movimento das pernas, que às vezes, de noite, ainda pedalam debaixo dos lençóis para fugir de um cão que morreu há mais de meio século e não sabe.
E antes dessa luz, dizem-me, choveu. Choveu numa noite o que chove num mês, e as ribeiras levaram casas, e semanas depois eu nasci, num país de onde as pessoas saíam a pé pelas montanhas para não voltar. Não me lembro da chuva. Lembro-me de que tudo, desde então, teve água por baixo.
Alguém me dá uma tigela de aletria. Cheira a canela e a casa de tia. Basta esse cheiro e a água volta toda, de uma vez, como volta a memória num romance francês que li muito mais tarde e que dizia exatamente isto, com mais páginas. A tia enche-nos de aletria, de sumol de ananás, de chocolates, e a despensa dela não tem fundo. Décadas depois, numa madrugada fria na serra mais alta, vou comer aletria antes de subir à montanha e não vou achar nada estranho. A tia tinha razão: há coisas que alimentam durante quarenta anos.
O velho da enxada endireita as costas, olha para o rego, e diz qualquer coisa que não ouço. Muitos anos depois há de morrer assim, calmo, meio acordado, como quem deixa a água ir sozinha pelo último rego. É a primeira morte que vejo de perto, e durante muito tempo vou pensar que todas são assim.
Não são.
Seda
A água entra numa caixa de sapatos. Dentro da caixa há folhas de amoreira e bichos-da-seda a comer com um ruído de chuva miúda. É uma chuva pequena, de quarto, que ninguém conta.
A caixa está numa cómoda, a cómoda num quarto, o quarto num bairro novo que ainda cheira a cimento fresco e onde as tardes descem uma rua em declive sem pressa nenhuma. Há o pião, o berlinde, uma vizinha que grita da janela, e um rádio. Um dia o rádio não para de falar. Os adultos ficam à volta dele como os bichos à volta da folha, e há flores vermelhas nos canos das espingardas, e eu tenho seis anos e não percebo nada, mas percebo que os adultos estão contentes de uma maneira que me assusta. No ano seguinte chegam à escola meninos com outro sotaque, vindos do sítio da luz amarela, com o que traziam nas malas. Eu também vinha de lá, mas cheguei antes, pequeno demais para trazer sotaque. Trouxe só o cão.
Os bichos fazem casulos, e o fio que tecem é tão comprido que ninguém lhe vê o fim. Pego na ponta e sigo-a. O fio sai pela janela, atravessa o bairro, atravessa o oceano, e vai dar a uma casa de madeira numa cidade pequena da América onde uma família desconhecida me espera num aeroporto.
Abro a mala para mostrar a roupa. De dentro da mala sai um pássaro, que é a minha timidez, e voa para o teto e nunca mais desce. A família guarda a mala vazia no sótão. Eu fico leve. Jogo futebol, luto, corro em pista, danço num baile com um laço ao pescoço, atiro um barrete ao ar. Elegem-me o mais simpático da escola, e ninguém ali sabe que é a primeira vez que alguém me vê. Há um treinador que diz que eu tenho jeito para correr. Guardo isso numa gaveta e esqueço-me da gaveta durante vinte e cinco anos.
Há também o outro lado do fio, o que não brilha. Há quem não se sente à mesa com quem, há palavras ditas baixinho sobre a cor da pele, há rituais rígidos como colarinhos. Aprendo que a minha terra não é a medida das coisas. Aprendo-o como se aprende uma língua: primeiro com vergonha, depois sem dar por isso.
E há uma pequena chama, no fundo do ano, que ninguém vê. Pensamos todos que é só um rapaz muito feliz. É isso também.
O fio continua. Não tem fim. É por ele que me guio quando as luzes falham.
Cimento
O fio prende-se numa esquina escura. São cinco e um quarto da manhã e espero uma furgoneta.
Ela vem. Vem sempre. Dentro dela há homens que atravessaram o mar à procura de uma vida menos incerta e que trazem o sal da travessia nos bolsos, e alguns ainda falam da fronteira a pé como se a tivessem passado ontem. Vamos ao armazém, carregamos camiões, vamos para a obra. As horas da furgoneta não são pagas. Com elas, muito mais tarde, construí uma casa onde moro agora.
Levanto formas de aço com o peso de um homem adormecido. À noite os dedos doem-me. Encosto as mãos a uma parede de betão fresco, por cansaço, e as mãos ficam lá. Há uma parede numa cidade americana com as minhas mãos dentro, e nas noites frias, aqui, os dedos doem-me com o frio de lá.
Aos domingos vou ver universidades por fora. Têm portões altos e relvados que ninguém pisa. Do lado de fora, imagino-me do lado de dentro, e pela primeira vez a imaginação não me assusta.
Volto. A furgoneta continua a passar. Às vezes buzina duas vezes, em português, para ver se mudei de ideias.
O cimento da parede ainda está fresco quando encosto a cara a ele, e já não é cimento, é a parede branca de um hospital, e eu já não estou de pé, estou deitado.
Os dois homens
Numa Lisboa quente, um rapaz de dezassete anos é deitado entre duas macas. Chamei-lhe X durante muito tempo. Era um, era ninguém, era cem mil, como na novela daquele italiano que vê o nariz torto ao espelho e descobre que os outros o veem de outra maneira. Hoje chamo-lhe eu, sem grande convicção.
À esquerda, um homem que foi tocado pelo fogo. À direita, um homem por quem o asfalto dançou. Os dois têm a carne desfeita. O rapaz no meio tem um intestino rebelde, uma jiboia que se enrolou sobre si mesma, e um medo que procura por onde entrar. Deixa-o entrar só até à porta. O resto da casa defende-o com piadas.
O monitor cardíaco toca rock. O rapaz pede ao anestesista que mude para um requiem. A luz fria pinta sombras nas paredes, e as sombras não são do rapaz, são de outros, mais velhos, que ainda não chegaram.
Abrem-no como a um melão. Na unidade de cuidados intensivos, de noite, um homem geme sem parar e uma mulher canta canções de esperança com uma voz de cristal. A sede é uma tortura lenta. Molham-lhe os lábios com uma gaze, e essa água é a mais preciosa do universo. É a água do rego. Chegou até aqui.
Na enfermaria, um africano de olhos sonhadores sussurra-lhe planos de fuga. Fogem. De pijama, agarrados aos suportes do soro, pelos corredores que se bifurcam e voltam a bifurcar-se, e cada bifurcação é um ano diferente, e numa das portas há um recém-nascido a chorar às oito e vinte da noite e um homem de trinta e três anos a olhar para o relógio, e numa outra porta há um velho deitado cujo corpo se recusa a morrer, e numa terceira há uma mulher a quem tiraram quase tudo e que não desiste. O rapaz não sabe ainda quem são. O africano sabe. Diz: volta para a cama, ainda não é a tua vez. O rapaz volta. O africano fica no corredor e lá fica para sempre, a sorrir, com o soro como quem leva um bordão.
Os dois homens das macas não eram desconhecidos. Um entrou para dentro do rapaz e viveu lá sem nome durante trinta anos. O outro esperou-o numa estrada e, um dia, começou a correr ao lado dele.
Giz
A cama do hospital é uma carteira de anfiteatro. O rapaz está sentado com metade da barba feita, mesmo em frente ao professor, por causa de cem escudos.
A metade barbeada fica em Biologia. Lá há um jardim botânico onde as plantas se endireitam quando o velho professor fala delas, e torres inacabadas à beira de um estuário de onde contamos golfinhos, e os golfinhos contam-nos a nós, lá de baixo, e o número deles bate sempre certo. Há uma colega cujos apontamentos são tão exatos que leio a aula antes de o professor a dar, e ele entra e repete-a palavra por palavra. Há um inverno que não vem no calendário, cinzento por dentro.
A outra metade da barba vai para a Física. Lá há uma máquina que lança raios no ar e um assistente alentejano que foge da sala antes de cada demonstração e pergunta, não faz mal, já viram a cara dele. Há uma câmara onde o som morre, onde gritamos à professora tudo o que pensamos dela, e ela, cá fora, diz, estão a ver, não ouvi nada, e nós dizemos, ainda bem, professora, e as palavras ficam lá dentro, empilhadas no escuro, as nossas e as de todas as gerações, à espera de que alguém abra a porta. Há uma gota de mercúrio que fugiu de um medidor de vácuo e ainda corre por baixo da avenida. Há uma folha A3 dobrada à perfeição, que foi o nosso maior triunfo.
E há as manhãs em que não vou às aulas e vou nadar. A piscina fica por baixo da sala, e entre duas braçadas ouço, abafada, a voz de um professor a explicar uma equação que nunca cheguei a ouvir lá em cima. A água clorada não marca faltas.
E há o escuro do cinema. Num, passam homens que falam ao contrário em quartos vermelhos, ciganos que fazem levitar as colheres, anjos que se cansam de ser anjos e caem para dentro da cor. Noutro, mais antigo, passam os mestres de quando o mundo era mais lento e as pessoas ainda ouviam histórias de outras pessoas, e há uma mulher gorda a dançar numa praia, e um transatlântico iluminado a passar de noite diante de uma aldeia inteira de barcos. Saio para a rua e a rua tem mais portas do que de manhã. Foi aí que esta casa aprendeu a sua arquitetura.
Tu, que estás a ler, já percebeste o truque. Cada sala desta casa é um ecrã, e cada ecrã dá para outro. Não procures a ordem. Senta-te.
Na véspera de uma apresentação falta-me um passo numa demonstração. Ando à volta dele como um cão à volta de uma porta. Deito-me vencido. De noite, um velho senta-se na beira da cama, com a minha voz um pouco mais grave e um joelho que estala, e dita-me o passo devagar, como quem dita uma receita. Ao acordar, a solução está lá. Durante uns segundos vejo tudo, num ponto do tamanho de uma moeda, como naquele conto em que debaixo de uma escada de cave cabe o universo inteiro: as equações, os golfinhos, a máquina de raios, a mulher gorda na praia, a parede com as minhas mãos. Depois o ponto fecha-se. Nunca mais voltou a abrir-se assim.
A lâmpada ardeu de tanto estar acesa. Durante um ano, só dei aulas às terças-feiras, e o resto foi praia e cinema, um oásis com areia no chão. Recebi duas cartas de universidades antigas e guardei-as numa gaveta que nunca abro. Dentro dela, outros eus estudam à luz de vitrais e não envelhecem.
Carris
O giz desfaz-se em pó, o pó levanta-se de uma autoestrada estrangeira onde um carro avariou e onde, depois de muito discutirmos a teoria da coisa, descobrimos que a peça que faltava viajara connosco no tejadilho, a ver a paisagem.
Há comboios cheios e noites em estações e encontros combinados sem telefone que acontecem porque têm de acontecer. Vou para leste, para um país que três anos antes ainda estava do outro lado de um muro, onde uma rapariga me espera. Paro numa cidade alemã. A morada está errada, a polícia leva-me à certa, o meu amigo casa-se no dia seguinte, e a família, mesmo assim, dá-me jantar e um lugar no celeiro. Durmo entre o feno e as vacas, e a meio da noite a banda do casamento vem ensaiar para não acordar a casa, e toca valsas até de madrugada, e as vacas sonham com a noiva.
Depois os carris continuam para outro continente, e o celeiro abre-se para um calor húmido que entra pelos poros. É um país de cores que gritam e de cheiros que não têm nome na minha língua. Vamos de comboio sem reservas, e à saída de cada estação há alguém a oferecer um quarto. Há quem viaje no tejadilho. Há mercados com pedras onde a luz fica presa.
E há a febre. Durante sete dias habito um país que existe dentro daquele país e só se vê a arder. Lá as ventoinhas do teto falam, as paredes respiram, e passam na rua pessoas que morreram há séculos e não se importam. Nasci no fim de uma chuva grande, num país que estava a acabar, e por isso entendo os que nasceram à meia-noite de outro país a começar, com o destino colado ao calendário. Na febre, falo com eles.
Numa terra à beira-mar, velhos falam português de outro século, com palavras que eu só conhecia dos livros, à espera de quem lhes responda na mesma língua. Respondo. Não sei se me entendem.
Subo com a rapariga a uma montanha onde o nevoeiro se senta como um animal manso. Ela chama-se Lena. Mais tarde, noutros sítios, vai chamar-se Helena. É a mesma. As duas vão amparar-me.
Não trouxe nenhuma explicação daquele país. Trouxe imagens que mudam de lugar quando não estou a olhar.
Sal
O nevoeiro desce para o mar e fica salgado. Estou sentado numa laje de cais, imóvel, a ver os veleiros saírem da barra, e em cada um desejo embarcar. E vou vendo, e sonhando.
Um dia o barco para à minha frente. É pequeno, quatro homens em sete metros, e eu nunca pus os pés num veleiro. Aprendo a segurar o leme de noite, com as estrelas tão baixas que dá vontade de as afastar com a mão. Depois do cabo, o enjoo. Depois tempestades e calmarias. O homem que sabe conduzir o barco cai à água, e tiramo-lo, e percebemos que sem ele seríamos apenas quatro pessoas a flutuar numa casca. Na calmaria, mergulho. Há quilómetros de água debaixo de mim. Abro os olhos lá em baixo e, muito longe, no escuro do fundo, vejo uma luz pequena a subir uma encosta, uma luz de testa, emprestada. Ainda não sei de quem é.
Há um capitão, noutro livro, que persegue uma baleia branca até ao fundo do mundo e se deixa amarrar a ela. Eu não persigo nada. Deixo-me levar treze dias. Quando o avião me devolve à cidade em duas horas, os carros da rotunda atiram-se a mim a uma velocidade obscena e os relógios andam mais devagar à minha volta. Sou o gémeo que regressa das estrelas e encontra o irmão mais velho. A física diz que treze dias não chegam para isso. A física nunca esteve ao leme às quatro da manhã.
O sal seca-me na pele e cristaliza em letras. São de um exame noutra língua, num país frio, onde dou doze horas de aulas por semana e assisto a mais cadeiras do que devia. Os exames correm bem. Mesmo assim, reprovam-me. O presidente do júri não gosta de mim desde o dia em que lhe fui irreverente, e eu, que nunca suportei a autoridade e preciso tanto que ela me aprove, fico entre as duas coisas como entre duas macas. Reprovado por ter passado: há um romance sobre uma guerra onde isto seria uma regra do regulamento. Peço outra oportunidade. Dão-ma. Mesmo assim, vou-me embora daquele caminho.
Um físico aceita orientar-me noutro. Escrevo grafos que crescem dentro do computador como trepadeiras. Hoje crescem no quintal. Aprendo que, para certas pessoas que pensam nestas coisas, o tempo não existe lá no fundo, que é feito de acontecimentos e das relações entre eles, que surge como surge a temperatura, de muitos choques pequenos que não sentimos um a um. Nada é, tudo acontece. É a melhor descrição de um sonho que conheço.
Depois vêm anos de arquivos e entrevistas com homens que pensaram o universo inteiro, e recibos verdes, que nesta casa forram uma divisão e fazem, quando chove, o barulho de folhas secas.
Leite
Num corredor que já conheço, a água do rego chega a uma sala de partos. Um rapaz nasce às oito e vinte, e eu estou lá de pé, a olhar para o relógio, como um rapaz de dezassete anos me tinha visto fazer de pijama, por uma porta entreaberta. Ao fundo do corredor, acho que vejo um homem africano a sorrir.
Mais tarde nasce uma rapariga.
Os filhos são como polvos que se cravam nas nossas entranhas. São velhos carvalhos de olhos líquidos. São o vento que nos empurra para um país onde a terra se derrete em lava e os cavalos correm para trás. Não saem de dentro de nós. Nascem de um mistério que nunca entenderemos. Caminhamos com eles ao colo, mas são eles que nos levam. Há uma fotografia de um dente-de-leão na mão do meu filho, e na casa a flor nunca acabou de se desfazer; as sementes andam no ar há muitos anos.
Por causa deles troco os recibos por um ordenado. Entro numa sala cheia de máquinas que zumbem como colmeias de metal e não percebo nada, zero, nicles, niente. As máquinas sonham de noite com mensagens que atravessam o país em fila. Aprendo-lhes os nomes e os humores. Aprendo o que é um telefone que toca de madrugada e faz o carro dar meia-volta. Numa reunião pedem um voluntário para tomar conta de uma máquina difícil, e quando olho em volta todos deram um passo atrás, ao mesmo tempo, como num bailado. Numa noite de futebol, com toda a gente importante a olhar, o sistema cai, e eu carrego nos botões de desligar das duas máquinas porque não sei mais nada, e as máquinas, que perceberam que eu tinha medo, têm pena de mim e voltam.
O telefone da prevenção nunca deixou de tocar. Toca ainda, aqui, de madrugada. Já não atendo. Do outro lado, alguém está a resolver.
O escritório dá-me varizes, sobretudo na cabeça. Tenho dois monitores cheios de janelas que não dão para lado nenhum. Tenho saudades genéticas de caçar mamutes. Pergunto-me se compro um veleiro e me lanço ao mar, ou se calço os ténis e nunca mais paro. O veleiro já foi.
Fogo
Numa primavera, um médico dá um nome ao homem da maca da esquerda.
Ele estava cá dentro desde a América, desde antes, sem rosto. Agora vira-se e mostra a cara, e a cara é a minha. Tem divisões só dele. Numa, os relógios correm ao dobro, as ideias chegam aos bandos como estorninhos e pousam todas ao mesmo tempo, as luzes ficam acesas porque apagá-las parece desperdício, e escrevem-se muitas páginas numa noite e fazem-se promessas que não cabem em vida nenhuma. Noutra, as luzes nunca se acenderam. Não há nada lá dentro para contar. Só se atravessa, às apalpadelas, guiado pelo fio de seda.
Houve quem se rendesse à minha fuga para a frente, à energia louca que eu punha em tudo. Pelo menos no início. Depois o combustível acabava e eu regressava ao estado de menor energia, como um átomo que irradiou o último fotão.
Na mesma primavera, alguém me fotografa numa espreguiçadeira de praia. Quarenta anos, noventa e dois quilos, a tensão alta, o açúcar alto, etc. O etc. é a palavra mais honesta. Abro uma folha de cálculo e começo a pesar-me, e a folha cresce sozinha pela parede como uma trepadeira de números.
Aprendi a jantar com o homem do fogo. Medicação, sono, exercício, escrita, pessoas: são as janelas da casa. Sem elas, ele ocupava-a toda. Com elas, discutimos o que fazer com tanta luz.
Asfalto
E então o outro homem, o da maca da direita, levanta-se.
Já não tem a carne desfeita. Tem umas sapatilhas gastas e uma pressa tranquila. Põe-se a correr ao meu lado sem dizer nada, numa manhã de nevoeiro tão cerrado que os indecisos ficaram em casa e os decididos ainda hoje dão voltas a um oceanário à procura da partida. Corro em grupo, e em grupo nem se dá por isso. O meu irmão já tinha corrido uma maratona. Corro a minha. Os quilos ficam nas bermas como coisas que já não fazem falta.
Durante um tempo breve sou rápido. Ganho uma prova de montanha, uma vez, uma só, numa vila serrana, e a taça brilha num nicho da escada quando passo. Corro quarenta e dois quilómetros quase por acaso numa manhã de inverno, sem rumo, para onde os olhos pousam, e escrevo nesse dia que estar vivo é isto.
Depois o asfalto acaba e começa a montanha.
As provas de cem milhas são amantes. A primeira é basca, e na segunda noite, quando a minha luz fraqueja, o amigo que corre comigo empresta-me a dele. É a luz do fundo do mar. Era emprestada. Quase toda a luz com que atravessei a vida foi. A segunda é francesa, dos Pirenéus, e com a perna a doer ouço atrás de mim os passos curtos de um homem que cresceu a subir encostas. A terceira é catalã e quente. A quarta é a de Chamonix, a mais exigente, e depois dela, debaixo de um chuveiro, longe de toda a gente, desabo, e a mulher dos dois nomes senta-me, envolve-me numa toalha e abraça-me até passar. A toalha ainda está húmida. A quinta é madeirense, uma volta inteira a uma ilha, e na segunda noite o relógio morre e o tempo deixa de correr, e vejo pessoas onde há caixotes, animais onde há pedras, voluntários a acenar em cada curva que desaparecem quando chego. É a melhor descrição desta casa. A sexta é andorrenha e derrota-me. A sétima é beirã e a tempestade interrompe-a. A oitava é minhota e cobra-me mais do que qualquer derrota.
Entre elas há outras, sem nome de amante. Uma montanha africana onde uma batata cozida me salva a vida e onde passamos por aldeias da cor da terra que só se distinguem pelas antenas nos telhados. Uma ilha onde adormeço a andar e acordo a perguntar onde estou, a subir para um pico, esmagado pela gravidade como na borda de um buraco negro. Um cume onde estão três graus e ninguém. Desde a montanha africana levo sempre uma vela e um isqueiro. Nunca os acendi.
Disse uma vez na televisão que na montanha o tempo deixa de existir. Os relógios da casa ficaram ofendidos durante uma temporada.
Estas corridas não são a vida, escrevi, mas confundem-se com ela. Como se distingue o que é real do que está só na imaginação? Está tudo na imaginação. Nada disto é real. E mesmo assim cada aventura me dava alento para mais um ano.
Pedra
O asfalto vira pedra, e a pedra é uma serra pequena onde um homem me leva pela mão numa tarde remota. É o meu pai. Muitos anos depois, diante da Ceifeira, hei de recordar essa tarde, como o coronel que recordou o gelo diante do pelotão. A serra tem o nome que a minha boca aprendeu antes de saber o que era uma montanha.
Uma noite, o telefone. A voz da minha mãe basta. O meu pai está inconsciente. Durante semanas não me reconhece e olha para mim como se olha para uma sala onde se esteve muito tempo e de que já não se sabe o nome. Num dia de fevereiro, reconhece-me. Guardo essa alegria numa caixa pequena, ao lado dos casulos.
Cinco anos depois, o corpo dele recusa-se a morrer. Não há nada de nobre nisso. É só a vida a lutar contra a morte à sua maneira teimosa, sem perguntar a ninguém. Aprendi com um homem que voltou do pior lugar do século que a dor menor se esconde atrás da maior, e que é assim que se sobrevive. Morre ao fim da tarde enquanto subo as escadas para o quarto. Todos os relógios da casa param nessa hora. Chego a tempo de amparar a minha mãe. Há um canto antigo em que um rei velho atravessa as linhas inimigas para pedir o corpo do filho; eu só tive de subir umas escadas, e mesmo assim cheguei tarde de mais e a tempo.
Tínhamos o mesmo humor. Era aí que nos encontrávamos. Anos depois, na serra pequena, organizo um treino para os pais que já morreram, e no fim, atrás dos amigos, sobem uns homens de boina e casaco de domingo que ninguém conhece e todos reconhecem, e no alto desaparecem no nevoeiro como quem volta para casa. No almoço, pedimos mais pão do que éramos.
Depois há uma divisão de paredes brancas sem nada pendurado. O meu pai morreu, a casa a dois desabou, mudei de casa e a casa dos anos mudou comigo, às costas, como um caracol cansado. Bebi de mais. Faltei-lhe demasiadas vezes. Estava ocupado demais para ver os sinais. Quando percebi, era tarde. A mulher dos dois nomes dizia que eu era a pessoa mais combativa que tinha conhecido. Fui muitas vezes ao tapete. Levantei-me sempre. Há um ringue pequeno no sótão que só serve para isso.
Vieram anos de vida petrificada. Mas até um buraco negro evapora, devagar, partícula a partícula.
Desisto numa serra, pela primeira vez, num abastecimento ao fundo de um vale. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Atravesso o sul a pé com amigos, durmo debaixo de um pinheiro, chego a um cabo onde anos antes tinha passado de barco, enjoado, e olho para o mar à procura de mim. Desisto numa montanha de outro país, a meio da noite, num refúgio. Paro. Engordo. Esqueço-me de correr.
E um dia recomeço. O pior adversário é um homem mais novo e mais leve que corre nos espelhos e tem o meu nome. Volto à serra onde desistira. No abastecimento do fundo do vale está o meu eu de dois anos antes, sentado à porta. Não lhe digo nada. Subo durante horas ao ponto mais alto do país, cada passo uma luta contra um dragão, cada batimento um universo novo, e lá em cima dobro o meu cabo das tormentas. Desço ao poço do inferno, que é uma metáfora tão óbvia que até a montanha se ri, e chego à vila, de noite, ao fim de dois anos e umas horas. Dentro da nossa cabeça, escrevi então, temos a possibilidade de criar mundos.
Volto à montanha estrangeira. No refúgio onde desistira está o homem que desistiu, sentado numa pedra. Dou-lhe a mão. Chegamos juntos.
Vidro
Depois o mundo fecha-se. Um vírus entra-me nos pulmões e a cidade inteira fica parada como os relógios do chão. Quando saio, corro junto ao mar sem me cruzar com ninguém, e a cidade, vista do telhado, parece uma maqueta de si mesma. O meu irmão está do outro lado de um ecrã, num país muito longe, e a mulher dos dois nomes, que é médica, diz-me o que fazer.
Numa serra, em plena peste, atravesso uma fenda de granito para sair do outro lado, e de noite, sozinho, construo uma teoria: só existimos na relação, é o olhar do outro que nos mostra quem somos. De manhã vejo uma matilha de cães atrás de uma cerca. São videiras. Uma borboleta bate as asas noutro sítio e uma tempestade fecha-nos a montanha. Há o eu que vive e o eu que se lembra. Esta casa é toda do segundo.
Atravesso a costa a pé, sozinho, com uma tenda pequena, até ao mesmo cabo. É a terceira vez que lá chego, de barco, a pé pelas serras, a pé pela areia. O farol, da terceira vez, acende-se de dia, só para mim. Serenidade sim, escrevi, juízo não.
E então a mulher dos dois nomes adoece.
Encontram-lhe água onde não devia haver água. A mesma água do rego, agora do lado errado. Abrem-na durante horas, como a mim me abriram aos dezassete. Os corredores do hospital do meu sonho voltam a bifurcar-se, e eu percorro-os do outro lado da maca. Ela, que me sentou no chuveiro e me envolveu na toalha, está agora do lado de dentro da toalha, e eu aprendo devagar a segurá-la. Perde o cabelo. Perde peso. Ganha uma impaciência feroz com a imobilidade, que é sinal de que continua ela. Mando aos amigos mensagens que hoje leio como se fossem de outra pessoa: numas vezes melhor, noutras nem por isso. Mando uma borboleta e um girassol. Um ano depois ela volta a trabalhar. Ao fundo de um desses corredores está o homem africano, encostado ao suporte do soro. Desta vez acena.
Depois, o joelho. A dor diária, a cirurgia, uma peça que me tiram de dentro. Não volto a correr, sobretudo a descer. Quando tento descer uma encosta, a encosta anda para trás e eu fico no mesmo sítio, como os cavalos daquele país do poema. Afinal sempre lá fui parar. Não é tão mau. Uma noite, no corredor, um vaso que eu tinha partido anos antes junta-se sozinho e volta para a mesa. Talvez o meu joelho também não saiba para que lado corre o tempo e esteja à espera de que eu lhe explique.
A divisão de azulejos azuis abre-se outra vez. Nado em água aberta, com o céu por cima, e a água segura-me como me segurou na ria. O homem do asfalto, que esperou por mim tantos anos, não se zanga. Agora pedala ao meu lado. Diz que também tinha saudades de se sentar.
Durante muito tempo não quis voltar a ser vulnerável. Numa noite de janeiro escrevi uma pergunta curta: existe mais alguma coisa além da família e dos amigos? Um mês depois encontrei a resposta. Tinha um sorriso muito aberto, uma ternura muito própria e uns olhos que se acendiam. Tínhamos a mesma idade e uma vida longa e muito vivida às costas, cada um com a sua casa. Na noite em que ela entrou, apareceu um prego na parede branca. No dia seguinte, um quadro.
Ar
O telefone de baquelite toca no átrio. É a minha mãe, adepta incondicional, que sempre soube das provas dos outros mais do que eu da minha. Às vezes conta-me coisas que ainda não vivi. Nunca se engana.
Conta-me como vai ser o inverno em que faço sessenta anos. A casa ganha a sexagésima divisão, pequena, com uma janela para a serra pequena. Subo-a a pé, pelo caminho do meu pai, e desço devagar. Entro no mar de dezembro só uns minutos, até ficar azul, como os primos me ensinaram. À noite conto sessenta anos de portas e percebo que ainda há algumas por abrir. Pergunto-lhe se há mais. Diz que sim, mas que o resto fica para outra chamada.
Nasci num país que já não existe, onde era normal um bebé morrer, normal não saber ler, normal um rapaz ir para a guerra e uma mulher precisar de licença para viajar. Quase tudo isso deixou de ser normal enquanto eu crescia. Sei, por isso, que tudo pode mudar numa só vida. Quem nascer agora há de ver, aos sessenta, coisas tão impossíveis como era, no ano em que nasci, o fim do império.
Há uma frase de um escritor da nossa língua que guardo: não fujas do que sentes, não permitas que a vida se perca no vazio, que a morte ao chegar encontre já feito o seu trabalho. Tentei não fugir. Nem sempre consegui.
Esta noite a casa está cheia. O velho da enxada abre um rego da porta até à cozinha. A tia traz aletria. Os primos trazem camarinhas. O cão da luz amarela entra a correr e desta vez ninguém foge. A família americana devolve-me a mala vazia. O assistente alentejano entra a fugir de um raio. Os golfinhos contam-nos lá de fora. O homem que caiu do barco chega ainda a pingar. A banda do celeiro afina as valsas. O amigo da luz emprestada traz um frontal de reserva. Os homens de boina ficam à porta. O meu pai senta-se à lareira sem dizer nada, como fazia. A minha mãe pousa o telefone, porque já não há nada para relatar. A mulher dos dois nomes entra por uma só porta. A mulher dos olhos que se acendem sorri, e com os olhos dela acendem-se as lâmpadas da divisão branca. O rapaz e a rapariga, os polvos, os carvalhos, o vento, levam-me pela mão até ao meio da sala. Os dois homens das macas sentam-se um de cada lado, como da primeira vez. Desta vez sou eu que faço a piada.
Sou uma nota que ressoará durante algum tempo, até desaparecer no silêncio. E isso é belo.
Lá fora ainda está escuro. Daqui a pouco serão cinco e um quarto. Vou ouvir a furgoneta parar ao fundo da rua e buzinar duas vezes em português. Vou abrir a porta. Na rua, onde devia estar o asfalto, há um rego de água a correr na areia, devagar, para onde alguém o mandou ir.
Vou atrás dele.
Ainda a estou a contar.
Nota sobre esta versão
Esta é a terceira forma de contar a mesma vida, depois de «A vida que levo comigo», a memória, e de «A casa dos anos», a versão em realismo fantástico. Aqui pedi ao assistente de IA com quem escrevo que deixasse os episódios dissolverem-se uns nos outros, como nos sonhos, e que esbatesse o que é concreto: há poucas datas, quase nenhuns nomes e nenhuma ordem garantida. Cada parte passa à seguinte através de uma substância, a água, a seda, o cimento, o giz, o sal, o fogo, a pedra, o ar.
Para o tom fomos buscar os escritores de que falei nos posts com a etiqueta «Literatura»: a memória involuntária de Proust, as frases longas e o diálogo sem aspas de Saramago, o «tu» de Calvino, o ponto que contém tudo de Borges, o um, ninguém e cem mil de Pirandello, o coronel de García Márquez, a baleia de Melville, os nascidos à meia-noite de Rushdie, o regulamento absurdo de Heller, a lei de Primo Levi e o rei velho de Homero. Os filmes do King e da Cinemateca são de Lynch, Kusturica, Wenders e Fellini, sem que os nomeie.
Os factos de base são os de «A vida que levo comigo» e de «A casa dos anos». As invenções também; algumas mudaram de lugar.
Fontes
- Estilo: Em Busca do Tempo Perdido, Memorial do Convento, Se Numa Noite de Inverno um Viajante, O Aleph, Um, ninguém e cem mil, Cem Anos de Solidão, Moby Dick, Midnight's Children, Catch-22, Se isto é um Homem, A Ilíada
- Factos e textos de base: as fontes de «A vida que levo comigo» e de «A casa dos anos»
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