quarta-feira, 25 de abril de 2012

III Ehunmilak 2012 - Preparação - 2º Mesociclo


Desde o meu último relato da preparação para os 168km, com 11000m D+ (nunca é de mais relembrar...), do Ehunmilak (“Cem milhas”), completou-se mais um mesociclo de treino.

A minha preparação para este enorme desafio consiste num único macrociclo, em que o treino é pensado a longo prazo, com esse objectivo em mente. Pelo caminho vão-se incluindo algumas provas intermédias, que servem não só como preparação, mas também como objectivos per se.

O meu treinador, o Eduardo Santos, do Centro de Treino da Associação “O Mundo da Corrida”, vai definindo e adaptando regularmente o meu treino de mesociclo (conjunto de 4 microciclos de 1 semana cada), que vou cumprindo o melhor que posso e consigo. Faço sobretudo treino intervalado, reforço muscular e treino longo, intercalados com treinos mais leves de recuperação.

No mesociclo mais recente, completei 387 kms, e, sobretudo, escalei 8636 m de desnível positivo (D+), que me parece mais significativo ainda do que própriamente a distância, a fim de cumprir com sucesso o ambicioso objectivo a que me propus (em que vou ter que escalar 11000 m no tempo limite de 48 h). O campeoníssimo (e fenómeno do Trail) Kilian Jornet, define os seus treinos pelo D+ e não pela distância.

Competi ainda no II Ultra-Trail de Sesimbra (50 kms, 1300 m D+), que completei em 5h12.

No sábado passado voltei a fazer um treino longo na Serra, que me levou a completar 44 kms, com 1869 m D+, em 6h10.


Para o próximo mesociclo tenho previstas duas provas de Ultra Distância, o Trail do “Oh Meu Deus”, na Serra da Estrela (50 km) e o UTSM (100km) em Portalegre.


A dificuldade maior consiste, sem dúvida, em manter a frescura, tanto física como mental, necessária para cumprir um plano de treinos exigente. A recuperação entre treinos e provas não é fácil e a falta de tempo induz a tendência para cortar nos exercícios de alongamento e flexibilidade, essenciais para evitar lesões. Treina-se acompanhado crónicamente pela dor: uma contratura mal curada, joelhos massacrados, dores na região lombar, pubálgia, pés doridos, etc...

Boa parte das vezes é necessário treinar a solo, e muitas horas seguidas nos trilhos da Serra exigem um espírito contemplativo e alguma dose de introspecção. É preciso treinar em quaisquer condições meteorológicas, suportando o desconforto da chuva, do frio ou do calor.

Enfim, a constância e persistência são condições necessárias, e se acompanhadas por algum estudo, discernimento e muito trabalho, podem-se transformar também em condições suficientes para alcançar objectivos ambiciosos.


Recentemente li um livro muito interessante, dedicado ao tema da memória: "Moonwalking with Einstein - The Art and Science of Remembering Everything".


Nele, o autor, Joshua Foer, retrata a forma como o desenvolvimento e massificação de vários tipos de suporte de informação, que tem progressivamente facilitado o seu acesso, levou a que a nossa memória colectiva se tenha tornado cada vez mais externalizada e, enquanto individuos, tenhamos passado a recorrer muito menos à nossa memória interna.

No entanto, prossegue o autor, alguns individuos, algo excêntricos, persistem em manter viva uma tradição, que remota aos antigos gregos, que involve técnicas milenares, bastante criativas, para memorização de extensas quantidades de informação. Joshua propõe-se ele próprio aprender essas técnicas, no espaço de um ano, ao fim do qual competiria no Campeonato Norte-Americano de Memória.

No início a tarefa parece abismal, pois as provas do campeonato incluem feitos de memorização aparentemente apenas acessíveis a individuos dotados de talentos (ou desordens) inatos excepcionais, tais como memorizar a ordem de um baralho de cartas num minuto, ou mil digitos aleatórios numa hora.

A conclusão surpreendente do livro, é que graças a uma dedicação excepcional, muito trabalho e uma confiança inabalável, Joshua consegue, ao fim desse curto período de tempo de intensa preparação, vencer o Campeonato!

Retrospectivamente, o autor reflecte que a maioria das pessoas, nas tarefas a que se propõem, contententa-se em colocar apenas o esforço necessário para alcançar  o que ele chama o “OK Plateau.” Esse é um nível de competência apenas suficientemente bom para conseguirmos cumprir com os requisitos exigidos pela sociedade ou satisfazer as nossas necessidades. Uma vez atingido este nível, passamos a funcionar em modo automático, de menor esforço, e não evoluimos mais além.

A fim de se ultrapassar esse plateau e alcançar feitos verdadeiramente excepcionais é necessário um exigente e continuado esforço, consciente, metódico e concentrado. A lição principal, que o autor extraiu da sua experiência, é que tal é alcançavel por individuos em tudo o resto perfeitamente vulgares, apenas excepcionais na tenacidade com que estão comprometidos em levar a cabo essa jornada de descoberta.

to be continued...

domingo, 22 de abril de 2012

II Ultra-Trail de Sesimbra



No passado domingo, dia 15, decorreu a 2ª edição do Ultra Trail de Sesimbra. Esta foi a minha segunda participação nesta magnifica prova.

Tal como referi na crónica do ano passado, no domingo tive que acordar muito cedo, para conseguir estar frente ao Hotel Sesimbra Spa antes do “tiro de partida,” que seria dado às 7h30. Como cheguei em cima da hora, já não tive tempo de ouvir o briefing inicial, mas ainda fui a tempo de arrancar com o grupo compacto de cerca de 150 atletas.

Lá corremos pela marginal, até passarmos o porto de abrigo e começarmos a subida para a pedreira. Devido ao frio matinal, e aos ameaços de chuva, iniciei a corrida com o corta-vento vestido. No entanto, rapidamente o despi e guardei na mochila, pois depressa aqueci, como de costume.

Ao fim de cerca de 4 kms, virámos para a esquerda, seguindo em direcção à praia do cavalo, e entrámos nos single-tracks iniciais (trilhos onde só passa uma pessoa) onde tiveram início as primeiras subidas e descidas da prova.


Altimetria

Este ano o percurso teve a particularidade de ser feito no sentido inverso ao do ano passado, o que nos permitiu efectuar a parte mais técnica da prova ainda com alguma frescura. Na minha opinião, isso foi vantajoso. Por outro lado , a perpectiva sobre as magnificas vistas proporcionadas pelo trajecto foi também a inversa do ano passado, o que terá os seus detractores e os seus apoiantes. Seja como for, a verdade é que o percurso é de facto de uma beleza única e existirão poucas provas de trilhos que permitam o usufruto deste tipo de paisagem natural.

Percurso

O trajecto estava muito bem marcado, com fitas vermelhas e brancas e marcações azuis no solo. Segui, inserido num pequeno grupo composto pelo Renato Velez, pelo Helder Rosa e por mim. Lá fomos cumprindo o carrocel de subidas e descidas o melhor que conseguíamos. Às tantas perdi o equilíbrio e dei uma queda aparatosa, mas sem quaisquer consequências para além de umas pernas e mãos esfoladas.


Caminheiros

Cerca do 13º km, descemos até às ruinas do Forte de São Domingos da Baralha. Depois subimos novamente e entrámos num estradão de areia que nos levou até ao Cabo Espichel, onde encontrámos o primeiro ponto de controlo, por volta do 16º km. Nesta altura seguia em 17ª posição. Depois passámos pelo Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel. A partir daqui a progressão foi relativamente fácil e rapidamente chegámos ao início do troço na praia do Meco, ao fim de 2h36 e 25,5 kms percorridos.

Os 3,5 kms da praia são bem durinhos e enquanto os percorro vou-me perguntando como será fazer 43 kms disto na Ultra Melides-Troia...

Saimos da praia e chegamos ao 2º ponto de controlo. Neste momento já passei para a 11ª posição. Daqui para a frente o trajecto é feito dentro do pinhal, de volta para Sesimbra. Tentei aguentar-me o melhor que podia, mas fui sempre com receio que a qualquer momento me desse um “estoiro” monumental. 

Ao 42ºkm, ao fim de 4h17, entro novamente na pedreira, a caminho do Castelo. Deste ponto em diante a minha prova é practicamente idêntica à do ano passado.

Pedreira

Os quilómetros até ao Castelo são bastante penosos mas vão-se fazendo. Quando finalmente chego lá ao alto, já levo 4h54 de prova.

A partir daqui é sempre a descer! Ganho fôlego e lá vou eu tentar percorrer os últimos 3 km o mais depressa que conseguir. Chego ao porto de abrigo e percorro a marginal até à meta, onde termino no 10º lugar da geral, 6º do escalão, após 5 horas e 12 minutos de muita dureza mas também de muita beleza natural. O meu Garmin marca 50,9 km. O objectivo principal, que como sempre é terminar, foi cumprido, mas, desta feita, com o prazer acrescido de ter melhorado a minha prestação em 1 hora e 20 minutos em relação ao ano passado.



Recebo um abraço do Eduardo Santos, reencontro a minha mulher e filhos, que fizeram a caminhada de 15 kms, e vou confraternizando com os atletas presentes e com aqueles que vão chegando. O Renato chega dois minutos volvidos, com um ar muito fresco, de quem aparentava estar apenas a começar.

Não deixo passar a oferta de uma (na verdade foram duas) cervejinha fresquinha, cortesia da organização. Aproveito a oportunidade para receber uma massagem revigorante, que muito bem me soube. Gostaria também de salientar a presença de insufláveis, que muita alegria deram aos petizes presentes, incluindo os meus filhos.

O Luís Mota teve mais uma excelente prestação, vencendo em 4 horas e 28 minutos. Uma vez mais, a organização de “O Mundo da Corrida” esteve muito bem. É sem dúvida um trail a manter e eu estarei cá para o ano para o fazer novamente.





domingo, 1 de abril de 2012

22ª Meia Maratona de Lisboa


No passado domingo, dia 25 de Março, o dia amanheceu fresco, mas a prometer subida de temperatura e muito sol. Acordei cedo (ainda mais do que o costume, devido à mudança de hora) tomei o pequeno-almoço e dirigi-me para a estação do Arreiro, onde me encontrei com a restante comitiva do Run 4 Fun, pois tinhamos combinado apanhar o comboio das 8h13. E lá fizémos a curta viagem até ao Pragal, divertidos como sempre.

Este ano o acesso ao garrafão da ponte estava facilitado, pois a rampa da descida tinha sido alargada, e como chegámos cedo nem sequer apanhámos a multidão do costume.

Depois esperámos 2 horas que fosse dado o tiro de partida, tentando colocarmo-nos o mais à frente possível. Vislumbravamos o grupo do dorsal VIP, que fazia o seu aquecimento sem restrições, no espaço vazio que medeava a zona de partida e o cordão de segurança, atrás do qual nos mantinham.

Finalmente foi dado o tiro de partida e lá arrancámos a trote em direção ao início, pois a confusão era tal que não permitia correrias.  

A primeira metade da ponte foi feita a custo, em cima do gradeamento, pois era o único local onde se podia progredir sem obstáculos. A descida para Alcantra permitiu acelerar e lá embaixo, a seguir ao primeiro abastecimento, começou finalmente a verdadeira corrida.

Fui em grupo com o Carlos Silva e o Mário Gomes, até que o Carlos ficou para trás, mercê de uma lesão que o tem incomodado, e avancei com o Mário. Fui-me sentindo bem durante toda a corrida e a companhia do Mário foi ajudando a manter um ritmo forte. Para quem já está habituado a fazer distências maiores, 21 km passam depressa.

Já depois da volta de Algés, o último quilómetro custou-me a fazer, o que me deu a sensação que nesta corrida dei tudo o que tinha para dar. Cruzei a meta já em esforço, mas com um sprint final nos últimos 200 metros.

Meta

Mesmo assim consegui bater, por uns diminutos 10 segundos, a minha melhor marca na distância, conseguida no ano anterior, na mesma prova. Terminei em 222º lugar da classificação geral, 36º do escalão, em 1h23'58''.


Esta foi a minha 18ª Meia Maratona, desde que comecei a participar em provas de estrada. Teve um sabor especial, uma vez que a minha primeira prova foi a 12ª Meia Maratona de Lisboa, que teve lugar em Março de 2002, há precisamente 10 anos.

Palmarés

Terminada a corrida, juntei-me aos companheiros, em frente ao Planetário, e tirámos esta bela foto de grupo:

Run 4 Fun

Fui para casa tomar banho e juntei-me novamente ao grupo, na mui agradável Quinta de S. António, na Malveira da Serra, onde um belissimo cozido nos esperava e muita boa disposição e alegre convívio nos prometia o resto da tarde.



Antes de ir para casa, ainda fui ver a esplendorosa vista do mar no Bar "O Moinho".
 E assim terminou mais um agradável e bem passado fim-de-semana.