sábado, 22 de novembro de 2014

Em Movimento






Permitam que me apresente.

Antes de o fazer consintam-me uma ressalva.

Cometemos o erro de pensar que somos definidos por um nome. Fulano de Tal.

Como se a nossa alma pudesse ser encerrada na toponímia estática do corpo que nos delimita e dos antepassados que carregamos aos ombros.

Não somos imóveis como um nome.

Somos antes uma topografia do caminho que percorremos.

O meu nome não é importante.

Até uma certa idade vivi uma vida estática. Mexia-me muito mas não saía do mesmo sítio.

Fumava, comia, bebia e trabalhava desregradamente. Dos 70 kg da juventude, cheguei aos 90 kg da meia idade. Colestrol alto, glicémia elevada, hipertensão, cortisol, Stress. 

Um fim prematuro pré-anunciado.







Tive a minha epifania redescobrindo o prazer de correr.

Chamem-me atleta neo-veterano. A meio da vida vi a minha luz no meu caminho de Damasco.

Comecei a correr.

Primeiro 20 minutos diários. Depois passei para 10 km numa hora.

Tracei objetivos. Objetivos ambiciosos que me desafiassem para além do razoável.

Cumprir a distância mítica da maratona, 42 quilómetros e 195 metros.

Assim o fiz, com dor e dificuldade, mas em movimento.

Feita a Maratona de Lisboa, precisava de continuar, não parar mais.

Então dediquei-me à Ultra distância em Trilhos de montanha. Comecei com 50 km na Serra do Gerês. Terminei no tempo limite, surpreendido comigo próprio por ter conseguido.

Segui para 70 km na Serra da Freita. Um enorme desafio, terminado novamente in extremis, mas irradiando o êxtase da luta.

Tudo isto apenas no meu primeiro ano.

Outros se seguiriam, com conquistas cada vez mais ambiciosas e recompensadoras.







E de repente a minha vida começou a mover-se.





domingo, 2 de novembro de 2014

UTAX - Ultra Trail Aldeias do Xisto - 2014





Esta crónica esteve quase para se chamar “És tu e o tralho!” mas como esse título não reflete o verdadeiro espírito do AXtrail preferi deixar de lado o trocadilho fácil e escrever algo um pouco mais sério.




Aldeias do Xisto



Na 6ª feira, dia 17/10/2014, saí de casa, levando a família, por volta das 18h15m. A viagem de 186 km até Castanheira de Pêra estava prevista demorar cerca de 1h45m e assim foi, sem qualquer incidente digno de registo. Fomos até ao secretariado, na praça da Notabilidade, levantar o Dorsal nº 52.

A Go-Outdoor, entidade organizadora do evento, presenteou-nos com uma interessante surpresa: uma pequena árvore das espécies autóctones para plantarmos em local à nossa escolha.

Depois aguardámos que a simpática família Ricardo, agradabilíssima companhia de diversas destas aventuras, viesse ter connosco para partilharmos companhia num jantar em restaurante local. Jantámos a horas um pouco tardias, um bitoque com batata frita, que no início da corrida ainda me daria algum trabalho a acabar de digerir.

Saímos do restaurante e eu deparo-me com uma tabuleta na janela de uma casa que grita: “ARREPENDA-SE!” Surpreendido olho novamente e rio-me com gosto ao constatar que o meu inconsciente me pregou uma partida. Na realidade a tabuleta tem escrito “Arrenda-se”.

Seja como for, já não vou a tempo. Ajoelhei, agora vou ter que rezar…

Tínhamos alugado um bungalow na Praia das Rocas e para lá no dirigimos, eu para me equipar, e a Lena e os miúdos para se deitarem.


Bungalows


Lá enverguei o material necessário para enfrentar a noite, que por sinal se anunciava razoavelmente quente: buff na cabeça, corsários Kalenji, camisola térmica da VCUF, manguitos e perneiras Compressport, meias de compressão CEP, os ténis Mizuno Wave Ascend 8 acabadinhos de chegar da Amazon no próprio dia e ainda por estrear. Se tivessem demorado mais um dia que fosse lá teria eu que correr com o modelo anterior, já todo esburacado dos milhares de quilómetros que fiz com ele desde que o comprei em 2013.

Os homens são mesmo assim, só compram roupa nova quando aquela de que gostam mais se está a esfarrapar toda…

Coloquei na Mochila de Hidratação (Salomon XA skin pro 10+3) todo o material obrigatório e ainda mais algum, que eu na montanha não gosto de facilitar: manta térmica, apito, o casaco impermeável da TrangoWorld, dois frontais (um Petzl MYO RXP e outro Petzl mais fraquinho), ambos com pilhas de reserva, para o caso de mandar alguma cabeçada num ramo e partir o frontal (não se riam, já me aconteceu…) Há quem parta os ditos, eu parto o frontal…

De noite sem frontal não há nada a fazer. Ou seguimos apoiados por alguma alma caridosa ou temos que parar, com riscos para a nossa integridade física, caso a meteorologia esteja agreste. Eu não facilito nada neste ponto.

Mas prosseguindo a lista, copo com 15cl de capacidade, no mínimo, por razões ecológicas, para não multiplicar o plástico, alimentação de reserva (10 géis de 41g cada), 6 carteiras Redrate com eletrólitos, 2 comprimidos de anti-inflamatório apenas para emergências (é um risco acrescido para a função renal), 6 pastilhas imodium-rapid (para aqueles problemas que se resolvem no mato…), telemóvel com bateria carregada, luz traseira vermelha, ligadura elástica auto-aderente 3-M e sobretudo 2 bidons com capacidade de 500 ml cada.

Na mochila coloquei ainda uma t-shirt caso o tempo aquecesse demasiado. Nas mãos levarei as luvas sem dedos e os bastões Z-Pole Ultra Distance da Black Diamond (umas pequenas maravilhas da tecnologia).

O GPS é o meu velhinho Garmin 310XT que já percorreu largos milhares de quilómetros na minha companhia.

Esta crónica já parece um tratado de Product Placement, mas uma das vertentes interessantes do Trail é mesmo o nível de sofisticação que o material desportivo atinge, face à corrida de estrada e pista.

Antes de envergar toda esta armadura, passei uma quantidade generosa de vaselina pelos recônditos do meu corpo mais sujeitos à fricção. Garanto-vos que ao fim de uma centena de quilómetros de pele a esfregar contra pele, obtêm-se umas belas escaras, passíveis de serem mostradas num qualquer congresso de dermatologia.

Às 23h15 saí para a rua, bati à porta do Luís Ricardo e lá fomos os dois de encontro a mais um desafio na belíssima Serra da Lousã.


Foto do Luís Ricardo


Às 23h30 estávamos novamente na Praça da Notabilidade onde entregámos o saco com o equipamento para trocar nos 60 km, no abastecimento da Lousã. Encontrámos muitos amigos e conhecidos destas andanças. Estava lá o meu treinador, Paulo Pires, sempre presente nestas ocasiões, sempre disponível para apoiar os seus pupilos.

As duas principais razões que me fazem adorar este desporto são as seguintes:

  • O prazer imenso de correr na Natureza.
  • O alto quilate das pessoas que descubro.




As provas do AXtrail, organizadas pela Go-outdoor na Serra da Lousã, no seio das tradicionais Aldeias do Xisto, são das minhas favoritas desde sempre.

Iniciei o meu percurso no Trail Running em 2010, com os 52 km do Ultra Trail da Geira Romana, organizado por outra referência da modalidade, o José Moutinho, grão-mestre da Confraria Trotamontes.

Em 2011 participei na minha primeira prova do Circuito AXtrail, na 4ª edição dos 32 km da #01 Série em Ferraria de S. João. No mesmo ano fiz o K42 em Condeixa, onde fiquei em 3º lugar no escalão M40, no mesmo pódio que duas grandes referências do Trail Nacional, o Pedro Marques e o Francisco Mira Gaio. Em 2012 voltei para repetir os 32 km da #01 Série e em Novembro participei no primeiro UTAX, com 82 km. No ano passado, mercê de uma lesão, apenas pude participar na distância curta do UTAX, o TSL, com 42 km, que não deixa de ser uma prova muito desafiante e muito interessante.

Sempre gostei muito destas provas, por razões acerca das quais já discorri profusamente neste meu blog.


Percurso

Altimetria


Aproveito para transcrever a descrição dos 109 km com 5650 m de desnível positivo (D+) que nos aguardavam, feita pela própria organização da prova:

«O percurso de 109 km de distância e cerca de 6000 m de desnível positivo, inicia-se na Vila de Castanheira de Pêra, na Praça da Notabilidade, tomando a direcção Noroeste para o Ameal e subindo depois por um fantástico single-track ao início do Parque eólico no cimo da Serra da Lousã, e continuando na direcção da Casa do Guarda Florestal. É então que se inicia a descida para as aldeias do Catarredor e Vaqueirinho, e daí para as Aldeias do Xisto do Talasnal (1.º abastecimento), Casal Novo e Chiqueiro (Lousã). O percurso segue para o "Terreiro das Bruxas", continuando depois na direcção da Ribeira do Conde, a partir de onde se sobe para o Parque eólico de Vila Nova (2.º abastecimento: Observatório de Vila Nova), já no Município de Miranda do Corvo, e alcançando depois a Praia Fluvial da Louçainha (Município de Penela). Ao chegar à aldeia com o mesmo nome, segue-se para Vila Nova (3.º abastecimento), e para a Sra. da Piedade de Tábuas e Gondramaz, onde se inicia um troço de percurso bastante técnico e de declive acentuado marcado pela presença da ribeira de Espinho, suas cascatas e pontes em madeira. A descida termina em Espinho, onde se encontrará o 4.º abastecimento do percurso.

Passados cerca de 8 km, o UTAX entra na vila da Lousã, onde estará instalado o abastecimento principal no qual os atletas poderão ter acesso ao seu saco de equipamento suplente. Da Lousã, o percurso segue pelo Caminho do Xisto - Rota dos Moinhos, passando ao lado da Fábrica do Papel do Prado, e acompanhando a Ribeira de S. João para montante, em direcção a um dos principais locais de visita deste concelho: o Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial. É neste momento que começa uma longa subida, inicialmente de suave inclinação até à Central Hidroeléctrica, que aos poucos aumenta de desnível, oferecendo em compensação excelentes panorâmicas. Depois de percorrer a levada, e de um longo troço de trilho técnico, surge a Aldeia do Xisto do Candal. Aos poucos abandona-se a aldeia e surge um novo trilho em direcção à aldeia de Cerdeira (6.º abastecimento). A passagem por esta Aldeia do Xisto adivinha o fim desta longa subida e depois de um último esforço começam a avistar-se os aerogeradores de Vilarinho e o Trevim (ponto mais alto da Serra da Lousã - 1205 m).

O percurso toma então a direcção de Góis e das Aldeias do Xisto de Aigra Nova (7.º abastecimento), Comareira e Pena, seguindo depois em direcção aos impressionantes Penedos de Góis, para mais adiante entrar no território de Castanheira de Pêra.

Ao chegar à Capela de Santo António e aos Poços de Neve, o trilho desce em direcção ao Coentral Grande pelo trilho do neveiro. Do Coentral, o percurso segue para as aldeias de Sarnadas e Pisões, continuando para a Praia Fluvial do Poço do Corga, Torgal, e terminando em grande com a passagem pela Praia das Rocas e o sprint final para a tão ambicionada meta.»






Pelas minhas contas, espero chegar à meta nas próximas 20 horas. Sei bem o que me espera, e o terreno, para além de muito técnico, não deverá estar nada fácil mercê da chuva que caiu profusamente nos dias anteriores. Em 2012 choveu o tempo todo e demorei 15h00 a completar os 82 km.





Às 00h00 em ponto soa o tiro da partida. Algumas centenas de pessoas estão alinhadas atrás da meta (havia 330 inscritos) e arrancam como se não houvesse amanhã. Bem sei qual a razão da pressa: umas centenas de metros adiante o percurso vai afunilar e começar a subir, o que tornará as ultrapassagens muito complicadas. O que a malta não se apercebe é que ainda faltam 109 km para esta prova acabar: há muito tempo para tudo. Apenas os líderes da corrida se deveriam preocupar com evitar engarrafamentos.



Single-track



Todos parecem animados. Chovisca um pouco. Alguns seguem de t-shirt, outros levam o impermeável ou o corta-vento vestidos. Prefiro levar apenas a térmica muito respirável, pois sei que por vezes terei frio mas noutra terei muito calor, sobretudo nas subidas inclinadas e não quero desidratar. É desconfortável correr com frio mas é ainda mais desconfortável correr encharcado no nosso próprio suor e sofrer intermitentemente com o vento inclemente.

Subimos, pela Serra acima, eu e o Luís Ricardo, em tandem, na direção do Parque eólico no cimo da Serra. São 5 kms até lá chegar. No alto, no meio do nevoeiro conseguimos ouvir bem próximo o forte zumbir das pás.


eólicas



O Luís vai forte, eu não tanto. A época já vai longa e este já lá vão 7 Ultras, com muitos kms e D+ acumulados nos músculos, tendões e articulações. Faço o que posso. O Luís vai-se refreando, adaptando-se ao meu ritmo. Estou-lhe grato pela companhia (já em 2012 fizemos o último terço da prova em conjunto, com ele a rebocar-me misericordiosamente). Nunca me agradou muito correr de noite, prefiro a luz do dia, e o terreno da Lousã é especialmente propício a incidentes. Para mais ainda não curei completamente uma entorse recente e o tornozelo vai acumulando ressentimento contra o esfoço a que o estou a obrigar. Suspeito que mais cedo ou mais tarde se vai rebelar contra mim e tentar fazer com que eu atire a toalha ao tapete. Iremos ver quem manda!

Prosseguimos nas trevas pelas Aldeias fantasmas de Catarredor e Vaqueirinho, esta última ocupada por uma comunidade hippie de nórdicos. Não se vê vivalma a esta hora imprópria para andar a explorar serranias por single-tracks com lajes de xisto escorregadias como gelo e movediças poças de lama onde afundamos as pernas até ao joelho. Por diversas vezes me salvo de cair mesmo no último momento. Devo estar protegido pelo Deus Nórdico dos inconscientes, se é que tal personagem faz sequer parte do panteão de divindades loiras e brutais.



Abastecimento do Talasnal



Ao fim de 16 km chegamos ao primeiro ponto de suporte de vida, o abastecimento do Talasnal. Conheço bem esta Aldeia e já aqui pernoitei. É uma pérola da nossa cultura, hoje vazia, com um único habitante permanente, uma espécie de hermita recluso. O pequeno comércio abre apenas ao fim-de-semana, pequenas lojas onde se servem bebidas e doces regionais e onde se vendem algumas das especialidades locais.



Talasnal



Em tempos idos, quando ainda era habitada, a população vivia da omnipresente castanha e pouco mais.


Aldeia do Xisto



Comemos sofregamente algumas batatas fritas, pelo sal, marmelada, amendoins, bebemos água e isotónico e partimos novamente.

Um pouco adiante o caminho separa-se em dois: o Ultra Trail para a esquerda e o Trail para a direita. Seguimos agora em direção ao Observatório de Vila Nova. Pelo caminho passamos pelas Aldeias do Casal Novo, do Chiqueiro e pelo Terreiro das Bruxas. A certa altura o companheiro e amigo Paulo Jorge apanha-nos, juntamente com um grupo de atletas, e prosseguimos juntos. A água já se me tinha acabado e resolvo encher o bidão num dos inúmeros cursos de água que caiem serra abaixo. Água é coisa que não falta nesta serra!

Finalmente chegamos ao Observatório, no km 28, ao fim de cerca de 5 horas de prova. Estamos no alto da Serra. Vamos ter que descer até ao abastecimento do km 37. Descer não é mais fácil do que subir, e temos que fazer um esforço enorme a fincar as pernas no chão para não escorregarmos e cairmos. É extremamente desgastante para os músculos das coxas, os quadricípites. A determinada altura vejo-me forçado a tomar um anti-inflamatório pois as dores no tornozelo já são difíceis de suportar. Passa-me brevemente pela mente o receio de não acabar a prova. É o maior pesadelo do Trail Runner. Pelo menos é o meu maior pesadelo. Já terminei 27 trails com mais de 42 km e nunca tive que desistir em nenhum. Não há-de ser este o primeiro!

Se necessário abranda-se. Se não se conseguir correr, anda-se. É possível percorrer rapidamente vários quilómetros em marcha a um ritmo vivo. É preciso ter a humildade de nos adaptarmos à prova que estamos a viver e ajustar as nossas expetativas de acordo com o desenrolar da mesma.






Estamos no km 37, em Vila Nova, cerca das 6h30 da manhã. Ainda é de noite. Será necessário mais cerca de uma hora até o dia clarear finalmente. É já com alguma ansiedade que aguardo o momento do sol despontar atrás da serra. Sei que ganharei nova vida quando isso acontecer. Devo ser o inverso de um vampiro.

Agora marchamos em direção ao abastecimento de Espinho, no km 52. Estamos a passar pelo troço que se dirige para Gondramaz e que é dos mais técnicos que iremos encontrar. Este troço é comum ao Ultra Trilhos dos Abutres, que se realiza no fim de Janeiro. Felizmente o dia já clareia e podemos ver melhor o terreno que pisamos.

Vamos progredindo o melhor que pudemos. Iremos passar por Gondaramaz no km 47 antes de finalmente chegarmos à Aldeia de Espinho no km 52, cerca das 9h30. Até aqui a progressão ainda faz adivinhar um tempo final na ordem das 20 horas. Vamos ver se nos aguentamos nos cinquenta e picos kms que ainda faltam percorrer.

Recordo-me bem do abastecimento de Espinho da edição de 2012. Nessa edição este abastecimento já cheirava a meta, uma vez que a prova tinha tido início na Lousã e aí terminaria. Recordo-me particularmente do amigo Vitorino Coragem à entrada do abastecimento com uma bagaceira numa mão e um sorriso nos lábios.

Desta vez ainda só vamos a meio. Coragem, há que continuar! A Lousã está a uns meros 8 kms. Aí encontraremos com certeza um Oásis, com os sacos de muda de roupa e um abastecimento que esperamos seja mais substancial.

Às 10h30 chegamos à Lousã, km 60, e ao abastecimento principal. Infelizmente não encontramos a sopa desejada, mas pela parte que me toca ingiro grandes quantidades de pão com chourição, tostas com mel, marmelada, bananas, gomos de laranja, batatas fritas, coca-cola, etc. Vou sair dali a rebolar...

Decidimos os 3 não trocar de roupa. Está a chuviscar e o terreno continua muito molhado. O nosso raciocínio é que não vale a pena trocar nada pois vamos ficar molhados na mesma. Após um breve repouso partimos novamente, desta feita em direção à Ribeira de S. João, e ao Castelo de Arouce, ermidas e praia fluvial.

Quando estamos a subir em direção ao Castelo passam por nós os 3 líderes da corrida de 42 km, reconheço o Pedro Marques e o Marco Martinho, que sobem em grande ritmo.

A nossa previsão confirma-se. Breves kms após deixarmos a Lousã vemo-nos forçados a enfiar as pernas na ribeira, com água até aos joelhos. Rimo-nos ao pensarmos em todos os companheiros de aventura que tiveram o cuidado de trocar as meinhas e mesmo os ténis por equipamento sequinho. O trail é mesmo assim, vamos passar 20 horas molhados até aos ossos.

Tal como eu previra, com o novo dia e o abastecimento mais substancial dos 60 km ganhei uma nova vida. Sinto-me recuperado das agruras da noite. Estou quase eufórico. Será do café? Bem vou precisar pois ainda há muito desnível por vencer.



Levada


Passamos por uma levada estreita, com um abismo do lado esquerdo para onde não convém nada cair. Vamos sendo ultrapassados por atletas da corrida curta, que seguem num ritmo muito mais vivo do que o nosso. Chegamo-nos para o lado para os deixar passar. É uma das regras não escritas do trail: se alguém estiver mais forte do que tu e te quiser ultrapassar, facilita a monobra!

Estamos agora a subir em direção à Aldeia do Xisto do Candal e de seguida para a Aldeia de Cerdeira onde se encontra o 6º abastecimento.

Sou ultrapassado por alguns companheiros do TSL, o Ricardo Bomtempo, o João Mota e muitos outros, que nos deixam palavras de incentivo, do tipo: "seu maricas, não consegues andar mais do que isso?!" Parecemos camiões TIR a rolar devagarinho pela faixa da direita enquanto os desportivos nos ultrapassam velozes pela esquerda…





As escadarias nas aldeias do Xisto são muito inclinadas e custam-me imenso a subir. Vou sentindo cãibras que me dificultam muito a marcha. Quando por fim chego ao 6º abastecimento no km 70, às 13h00, resolvo dissolver as minhas saquetas de sais em água e beber a mistura resultante. Como ainda quantidades industriais de chourição coberto por sal refinado Vatel.

O truque resulta, e as cãibras dão-me folga. Encaminhamo-nos agora para o abastecimento de Aigra Nova, no km 78. A determinada altura, ao chegarmos a um estradão, o caminho separa-se novamente e o Ultra Trail vai para a esquerda e o Trail para a direita.

Vamos subir, andar pelo alto, e subir e descer por uns trilhos recentemente desbravados, com uma progressão muito complicada, dificultada pelas inúmeras raízes salientes, silvas afiadas que nem facas e lajes de xisto. Passamos pelo Parque Éolico de Vilarinho e encontramos uma descida muito acentuada que termos de fazer antes de chegar ao abastecimento de Aigra Nova onde chegamos às 15h00. É aqui que finalmente encontramos a sopa prometida e há tanto tempo desejada. É uma autêntica sopa da pedra, com couves e feijão. Adoro e repito umas duas vezes.

Olho ao redor e parece-me que neste abastecimento a malta já tem um ar bastante desgastado. Imagino que devo estar igualmente com aspeto destroçado. Enfim, já só faltam 30 km. Lá havemos de chegar.

Nestes últimos abastecimentos temo-nos cruzado frequentemente com os mesmo companheiros, o Zé Capela, a Amélia Costa e outros. É reconfortante ver caras conhecidas.

Daqui saímos em direção ao ponto mais alto do percurso, aos 92 km e 1150 m de Altitude, no Trevim, já perto das Antenas, antes da Capela de Sto. António e dos Poços de Neve. Ao fundo divisamos as silhuetas de alguns companheiros que nos precedem na subida e que imergem no nevoeiro. Ainda nos vai custar a lá chegar no meio de nevoeiro cerrado, e da subida acentuada, mas por lá passamos às 18h00. Ainda nos faltam uns 3 km até ao abastecimento do Coentral. Queremos chegar lá ainda de dia.

A descida é muito técnica e fazemo-la em marcha. Somos ultrapassados por vários companheiros que correm por ali abaixo. Eu já não me atrevo a correr com receio de me despenhar pelas fragas.

Lá chegamos ainda de dia ao abastecimento, às 18h40. A primeira pessoa que encontramos é o Fernando Pinto, que nos pergunta jocosamente, “então ainda por aqui?!” – “Hê pá, isto não dá mais”, respondo.
“- Então ainda há muita gente pela serra?”
“- Alguns…”

Todas as organizações deste tipo de prova passam por alguns momentos de ansiedade. Até o último atleta cortar a meta é uma preocupação constante. Para complicar alguns fazem-se ao trilho sem estarem preparados para completar um desafio destes. Para isso é que existem tempos limites de passagem, mas é sempre complicado gerir algumas situações.

Seguimos. A partir daqui é uma descida suave com terreno fácil, até a meta em Castanheira de Pêra a 11 km de distância.

No asfalto damos largas ao entusiasmo e aceleramos a fim de tentarmos chegar o mais depressa possível. As 20h00 ainda são possíveis.

No entanto o joelho do Paulo Jorge ressente-se da dureza do asfalto e forçamo-nos a abrandar. Talvez seja pelo melhor pois não sabemos se aguentaríamos um ritmo daqueles durante os kms que ainda faltam. Também qual é o interesse em fazer mais ou menos uma hora neste ponto da nossa prova? É completamente irrelevante. O que interessa é chegar ao fim.

Estes kms finais parecem nunca mais acabar. O Fernando tinha-nos dito que os estradões tinham sido substituídos por trilhos e a certa altura essa afirmação confirma-se. Somos obrigados a fazer umas acrobacias numas piscinas em Poço de Corga. Ainda enfiamos mais algumas vezes os ténis em poças de lama. Por fim enfiamos por um single-track que desce para Castanheira. O Paulo Jorge adivinha: vão-nos fazer passar pelo rio de certeza! Bem dito, bem feito! Vamos mesmo atravessar a ribeira com água pelos joelhos e uma corrente que ameaça fazer-nos mergulhar na água fria. Bem, como anti-inflamatório natural não está nada mal e de qualquer forma tínhamos que lavar os ténis…



Ribeira



Lá atravessamos mais este obstáculo e em mais umas centenas de metros avistamos a meta. Arranjamos forças para um sprint final. Uns metros antes da meta a filha do Luís e os meus filhos juntam-se a nós na apoteose final. Cruzamos a meta todos de mãos dadas, às 20h41m.


O Trio Maravilha


Ficamos a meio da tabela, nos lugares 80, 81 e 82. Atrás de nós ainda haveriam de cruzar a meta mais 78 atletas. A contagem seria encerrada, em 24h47m, pelo Vitorino Coragem, que aos 61 anos de idade continua cheio de força.

O primeiro classificado foi o Luís Duarte, da RUN.PT, que acabou com um magnífico tempo de 13h06m. Impressionante mesmo!

Foi para mim uma experiência diferente fazer toda a prova com mais dois companheiros de jornada, e grandes amigos, o Luís Ricardo e o Paulo Jorge, que muito enriqueceram esta aventura. Repito: O Trail é a partilha de momentos únicos com pessoas que admiramos.

Possa eu viver muitos anos com saúde para poder usufruir desta paixão!

Afinal não me arrependi, apesar de ainda estar todo empenado, enquanto escrevo estas linhas, duas semanas depois de terminar o desafio.

Em 2015 esta prova fará parte do Circuito Nacional de Trail Ultra Endurance, e tenciono cá voltar para fazer a minha peregrinação anual em torno da Serra da Lousã.

Do Circuito constarão ainda o MIUT, que tenciono repetir, o UTSM, em que também participo desde a primeira edição e o UTCTS, em que não poderei participar pois a Gala de Entrega de Troféus da ATRP terá lugar na noite da prova. Tenciono assim terminar 3 das 4 provas com 3 dígitos e ainda realizar finalmente o sonho de completar os 168 km do UTMB, em Chamonix.

Vai ser um ano em cheio!




Outros Blogs com crónicas interessantes sobre a prova:


...Uivos de Lobo...

Quarenta e Dois


Vídeo do UTAX, prova de 109 km:




Vídeo do TSL, prova de 42 km:


TSL AXTrail 2014 from João Vaz on Vimeo.




Se gostaste desta Crónica, recomendo a leitura desta outra, com o relato de uma aventura de 214 km nos Pirinéus Catalães, na terra do Kilian Jornet (é só carregar no link):


Volta Cerdanya UltraFons


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Réccua Douro UltraTrail





«O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».
                                                                                    Miguel Torga in "Diário XII"


Neste sábado, 13 de Setembro de 2014, dia de São João Crisóstomo, patrono da eloquência sagrada, senti-me um “homem titânico a subir as encostas, volumes, cores e modulações” que gravaram a ferro em brasa uma marca indelével nas retinas dos meus olhos.

O Douro é como um cavalo selvagem, domado pela vontade férrea do dono. São socalcos esculpidos no xisto por titãs primevos. É luz, cor e cheiro. Tudo em dose excessiva.





Na 6ª feira, após uma jornada de trabalho, eu e a Lena saímos de casa, por volta das 19h30, entusiasmados por mais uma oportunidade de percorrer este nosso belo país.

Às 23h15 chegávamos a Peso da Régua. Tivemos apenas tempo para fazer check-in no Hotel Régua Douro e em seguida dirigi-me para o Museu do Douro, onde estava sediada a organização da prova.

Assim que lá cheguei perguntei pelo João Marinho, o organizador deste soberbo evento e pelo Hélder Monteiro, experiente fisioterapeuta, fundador da TMG – Terapias. O João veio logo receber-me calorosamente e apresentou-me ao Hélder. Eu tinha contactado previamente o João pois a minha participação na prova de 80 km estava em risco, mercê de uma entorse ocorrida num treino na Serra no sábado anterior.




Com algumas manobras eficazes, as mãos experientes do Hélder aliviaram o edema pronunciado que eu tinha no tornozelo direito. De seguida ligou-me o pé e fiquei logo a sentir-me bem melhor. Acordámos que eu iniciaria a prova dos 80 km e a meio avaliaria se estaria em condições de terminar.

Levantei o dorsal às 24h, hora de fecho do secretariado, tendo primeiro mostrado o material obrigatório, e voltei para o Hotel. Cerca das 1h30 lá adormeci, para o que iria ser um sono curto mas revigorante. 

O alarme tocou às 4h50 e depois de vestir o equipamento habitual tomei o pequeno-almoço mais frugal de todas as provas em que participei: meia-dúzia de bolachas e uma maçã. “Que se lixe”, pensei eu, como no primeiro abastecimento que houver.






Às 5h50 cheguei à linha de partida, no jardim em frente ao Museu do Douro, onde o meu dorsal foi controlado. Cento e poucos Trail Runners já se encontravam alinhados para o tiro de partida, era ainda noite escura.

Reencontrei o amigo Luís Ricardo, que tinha vindo com uma alegre comitiva alentejana no autocarro do Centro Vicentino da Serra e também o Nuno Rocha, colega da Vodafone, que se está a preparar afincadamente para o desafio “Vodafone First – UTMB 2015”.






Às 6h em ponto soa o tiro de partida e somos guiados pela povoação até sairmos para as vinhas circundantes. Levamos os pirilampos ligados para vermos o caminho. Temos uma subida e descida suaves pela frente até chegarmos ao abastecimento da povoação de Rede, a 14 kms, junto ao Douro, onde chegamos já dia claro. Aproveito para tomar o pequeno-almoço, enchendo a barriga de aletria docinha, que me sabe que nem ginjas (muita aletria ingeri eu ao longo de toda a prova...).

Tenho vindo sempre acompanhado pela presença reconfortante do Luís, e vou-me cruzando com o Nuno. Vejo outras caras conhecidas, como o Zé Capela e a Susana Simões.

De seguida seguimos para Mesão Frio, a 4 km de distância. A partir daqui o percurso vai ser sempre a subir até chegar ao alto da Senhora da Serra, a 1400 m de altitude.

Perto de Passos cruzamo-nos com um velhote que nos diz que se comermos as uvas levamos com chumbo grosso. Ficamos na dúvida se a ameaça era a brincar ou para levar a sério, mas na dúvida o melhor é não mexer na uva.

Vamos sempre subindo, por largos estradões e a paisagem vai-se modificando, tornando-se mais agreste e menos domada pelo homem.

Aos 27 kms o Ultra Trai e o Trail tomam caminhos diferentes. Do lado esquerdo espera-nos a famosa subida da Diana, um autêntico cai de costas! Num quilómetro e meio vamos ter que subir 300 m. Bem, não adianta chorar, o melhor é começar e só parar quando chegar lá acima. São 27 minutos de esforço contínuo até chegar junto dos bombeiros lá no alto, quais faróis vermelhos que se divisam ao longe e guiam a nossa nave até porto seguro.






Daqui seguimos para o alto do Marão, na Senhora da Serra, a 1400 m de altitude.

As vistas são deslumbrantes, de cortar a respiração, que já vai esforçada da subida. Aqui em cima sentimos o bálsamo do vento fresco, naquilo que até agora tem sido um dia quente e húmido.






Vejo uma figura a correr desalmadamente pela encosta abaixo. Mas a corrida é na direção oposta! penso eu. Quando o vulto chega mais perto lá identifico o amigo Luís Duarte que anda a treinar para o Ultra Pirinéu e a tirar fotografias aos atletas dos 80 km. O homem sobe e desce a encosta como se não houvesse amanhã!  (no fim-de-semana seguinte haveria de demonstrar a sua grande forma ao conseguir o 10º lugar nos 103 km do Ultra Pirinéu, em Espanha).




O abastecimento do pico, no km 34, é o Oásis porque todos ansiamos e onde chego após 4h52 de prova. Ingiro mais uma dose abundante de aletria e batatas fritas. Atesto os dois bidões de 500 ml que levo ao peito e arranco atrás da Susana Simões que sai disparada.


A aletria é minha!!!


Agora vai ser sempre a descer até o abastecimento de Soutelo, no km 45. Até aqui o tornozelo tem-se aguentado muito bem, por isso decido continuar (até hoje nunca abandonei nenhuma prova e não iria ser com certeza esta a primeira vez).

A descida é mais dura no tornozelo do que a subida, mas enquanto tiver a sorte de não voltar a torcer sinto que consigo prosseguir (aliás, eu sou mais de quebrar do que de torcer).

Após o que pareceu uma eternidade, lá chego ao Soutelo, onde resolvo não me alimentar pois vou um pouco enjoado. Nunca é uma boa opção e pouco depois já me irei arrepender desta decisão irrefletida, quando me começar a faltar o gás (com a experiência que já levo ao fim de 5 anos de Trail Running e ainda continuo a repetir os mesmos erros… ) Aproveito para ir à casa de banho pois a barriga não se está a sentir nada bem e reclama insistentemente com a forma como a estou a tratar.

Sigo com alguma dificuldade em direção ao km 57. Do km 55 ao km 57 vou ter que aguentar uma subida de 350 m. Esta subida ainda me custa mais do que a da Diana, dado o meu estado um pouco debilitado e o cansaço acumulado. Às 8h18 de prova lá chego finalmente ao abastecimento de Fontes. O nome é muito apropriado. Para mim é uma fonte de repouso, alimentação e conforto, que bem estou a necessitar. Mais uma dose generosa de aletria, diluo duas saquetas de sais num dos bidões e saio reconfortado para as derradeiras etapas da prova.

Agora vamos descer até Sta. Marta de Penaguião, no km 64. Aqui espera-nos uma originalidade gira. Atravessamos o relvado do campo de futebol local, que se encontra aberto de propósito para nos receber.

O calor faz-se sentir com muita intensidade, sobretudo nos vales pouco arejados. Bebo água constantemente, como se tivesse o radiador furado. Felizmente a organização teve a excelente ideia de assinalar no dorsal os pontos onde iríamos encontrar fontes dentro de povoações, que eu aproveito sempre para abastecer. Numa delas recordo-me de encontrar o Nuno Fofoni, com ar de já ter sofrido bastante com o sol.






Ganho a amizade de dois membros da organização ao afirmar em tom de brincadeira que vim cá de propósito de Lisboa só para castigar o corpo.

Cumprimento todos os populares com que me vou cruzando e eles devolvem sempre o cumprimento, com dizeres muito pitorescos: “que Deus o auxilie!” (bem preciso...)

A certa altura um casal de velhotes comenta quando passo, uns 10 metros atrás de um atleta mais jovem que levava bastões: “olha, este é mais velhote mas não precisa das canas!”

Existem imensos voluntários no terreno e também estes são muito hospitaleiros, alegres e prestáveis. Abençoada gente do Norte!

Próxima paragem: Medrões! Km 71. Mais uma subida e lá estou, depois de passar pelo meio das vinhas e cruzar-me com gente que vindima. O cheiro a uva fermentada é uma constante ao longo do caminho. Deve ser o teor alcoólico da humidade que paira no ar que me mantém animado e pronto a continuar.




10h24m de prova e chego a Medrões. Faltam-me 8 km para o fim. Já cheira a meta! Alimento-me e bebo abundantemente pois vou necessitar de todas as gotas de água que conseguir levar comigo. Agora é dar tudo o que me resta até ao fim. 2 km a subir seguidos de 6 km a descer. Na descida já se consegue ver a Régua ao fundo. Não é uma miragem! É altura de acelerar! E lá vou eu feito louco num sapateado violento e ritmado encosta abaixo.

Quando finalmente chego à Régua, sou orientado pelos voluntários ao longo das ruas até chegar à ciclovia, da qual se divisa o Museu ao fundo. Vejo um atleta uns 300 metros à minha frente. Ele olha para trás e acelera, com medo de ser ultrapassado na reta final. Eu não quero saber disso, a única coisa que me interessa é cruzar a meta. Quando estou quase a chegar sou saudado efusivamente pela Rita, mulher do Luís, e pelo Zé Presado e restantes companheiros de Portalegre. Isso dá-me alento para acelerar e minutos depois cruzo a meta muito satisfeito por mais um desafio completado, 80 km em 11h20m.






Eu e o Luís Ricardo



Sou recebido pelo animador de serviço, que vai perguntando aos atletas o que acharam da prova e depois pelo João Marinho, que incansável vai supervisionando tudo para nada falhe. Troco ainda umas palavras com o André Amorim, que me conta do trabalho todo que a organização teve para garantir que não faltava nenhuma fita no dia da prova. É um trabalho duro mas essencial, pois por vezes as fitas são retiradas por populares que ignoram a sua utilidade ou chegam mesmo a ser comidas por vacas! Se faltarem fitas no percurso todo o esforço de meses pode ser deitado a perder.
Sou visto novamente pelo Hélder, que fica surpreendido por eu ter feito a prova toda e pelo estado do meu tornozelo não se ter agravado desde o dia anterior. Afianço-lhe que se deve sem dúvida ao tratamento muito eficaz que me tinha feito na véspera.

Depois de trocar impressões com vários atletas que vão chegando e outros que já tinham chegado, dirijo-me ao hotel para tomar um banho retemperador e para me preparar para o jantar na casa da equipa alentejana, que graciosamente nos tinha convidado a ambos.

Não há dúvida que ninguém bate em hospitalidade os alentejanos. Comemos abundantemente, muito bem regado com umas minis bem fresquinhas, que me permitiram repor os sais perdidos.
A boa disposição e alegria foram constantes.

Voltamos para o Hotel, de onde disfrutamos de uma vista magnífica sobre o Douro e os socalcos da vinha.

No dia seguinte às 10h encaminhamo-nos para o Museu do Douro para assistir à cerimónia de entrega de prémios.





O local escolhido é soberbo. Um dos principais patrocinadores da prova, o Réccua Douro vinho do Porto tem um stand onde nos dá a provar alguns dos excelentes néctares da região.




Os vencedores das várias provas (15 km, 40 km e 80 km) são chamados ao pódio. O vencedor da classificação geral da prova dos 80 km masculinos é o Rui Luz com um tempo fabuloso de 9h17m.
A vencedora feminina é a Ana Rocha Gonçalves, em 10h47m, logo seguida pela Susana Simões em 10h49m.






Nos escalões masculinos são distribuídos prémios nas categorias de Elite (Séniores) e Masters (maiores de 40 anos).

Qual não é a minha surpresa quando ouço o meu nome dado como segundo classificado do escalão Masters! Diga-se o que se disser, é sempre uma alegria ir ao pódio. Não é o mais importante, mas pode significar a cereja em cima do bolo.




Depois da entrega de prémios a organização chamou toda a equipa organizadora e atletas para o palco, onde tirámos uma bela foto de conjunto. A organização esteve a um nível bastante elevado, com apenas alguns pequenos pormenores a destoarem por contraste com um conjunto em regra impecável.






Depois ainda fomos almoçar ao restaurante Douro In, onde fomos muito bem servidos.


E assim terminou mais um excelente fim-de-semana. Pudera eu durar ainda muitos anos a gozar de saúde para poder viver muitos mais momentos destes.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

VI UTNLO




De dois em dois anos vou ao Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos. Mais precisamente nos anos pares. Assim foi em 2010, em 2012 e neste ano de 2014. É uma espécie de peregrinação estival. Por norma não vou a provas exclusivamente noturnas, pois gosto de ver bem o terreno que piso e a paisagem circundante. Mas o TNLO é a exceção que confirma a regra. A vila de Óbidos tem algo de mágico, exsudando história por todos os poros. A coincidência temporal com o Mercado Medieval realça ainda mais o ambiente.


Mercado Medieval


Gosto do início em passeio pela vila e a alegria contagiante dos atletas. Gosto da partida na porta medieval da vila e entrada na meta pela porta medieval do “jogo da bola”.


Concentração no interior das muralhas


Este ano saí de casa um pouco em cima da hora, mas ainda cheguei a tempo de levantar o dorsal e rever muitos dos amigos de sempre, que já se concentravam na vila para mais uma festa do Trail. Tive o prazer de reencontrar o Paulo Freitas e o Gabriel Meira, acompanhados pelas respetivas companheiras. Encontrei também a alegre comitiva do meu clube, o Run 4 Fun.


Run 4 Fun


Às 21h00, depois do briefing, foi dada ordem para avançarmos ordeiramente até à porta da vila. 


Partida simbólica


Poucos minutos depois era dado o tiro de partida e vejo logo vários atletas a saírem disparados que nem setas.


Partida oficial na porta da vila


Apesar de já conhecer pessoalmente muitos dos protagonistas das provas de Trail, e de ter uma noção clara do crescimento que a modalidade tem tido nos últimos anos, não cesso de me surpreender com a quantidade de caras novas que encontro nestes eventos muito participados. Pessoalmente dá-me uma enorme alegria ver a adesão crescente que tem tido esta modalidade que me apaixona. E noto sobretudo uma enorme adesão da malta mais nova. O Trail está a tornar-se um desporto mais jovem, o que augura um bom futuro. Esta tendência nota-se também nas classificações. Do top 10 do UTNLO deste ano apenas 2 atletas não são seniores. Têm surgido novos protagonistas, vindos da estrada, do ciclismo, do BTT. E com esses novos protagonistas o nível competitivo tem subido.



Altimetria


Percurso


 Corro os primeiros quilómetros acompanhado pelo Nuno Ferreira. Ele comenta que estamos a ir a um ritmo bastante elevado, mas o que é certo é que não parece acusar o esforço. Este ano o circuito é feito no sentido inverso do de 2012. O percurso vai-se dividir grosso modo em 25 km com o grosso da altimetria, seguido por 9 km de orla marítima, e mais 9 km planos e rolantes e por fim 9 km de subida até ao Castelo.

Rapidamente chegamos ao 1º abastecimento, em Sobral da Lagoa, no km 9, que tem apenas líquidos. Seguimos para o 2º abastecimento, em Vau, no km 15. Em Vau sou ultrapassado sucessivamente pelo Zé Guimarães, pelo Zé Prezado e por mais uma série de amigos, apesar de seguir a um ritmo vivo de cerca de 10 km/h. Há já vários kms que noto que o meu frontal está a produzir uma luz com muito fraca intensidade, mas até aqui ainda não tive a iniciativa de trocar as pilhas. Apenas após alguns ameaços de queda, por falta de visibilidade do terreno, é que me decido a trocá-las. Neste ponto a ajuda do Nuno é providencial. Ele alumia e segura-me o frontal encontro troco as pilhas. São estes pequenos gestos de solidariedade que me fazem acreditar que esta modalidade potência o melhor que há nos seres humanos. Salvo raras exceções, não se vê aqui a competição desenfreada que encontramos noutras modalidades, mesmo entre atletas amadores. O mais importante é o respeito pelo ser humano e pela natureza.

Até aqui a companhia do Nuno tem sido excelente para manter o ânimo elevado.  Mas eu começo a quebrar e ainda antes do abastecimento dos 25 km deixo de o ver. Quando finalmente chego ao abastecimento da Praia D’El Rei, no km 25, às 2h39m de prova, já me sinto bastante esgotado.  Este é o primeiro abastecimento com alimentos sólidos, portanto aproveito para comer e reabastecer os bidões de água.

Os próximos 9 km serão os mais duros da prova e o meu ritmo quebra acentuadamente. O percurso nas dunas é muito exigente e levo 1h17m a cobrir os 9 km, chegando às 3h56 de prova ao km 34, na Praia dos Pescadores.

Neste abastecimento sou recebido em festa por uma grande claque do Run 4 Fun, encabeçada pela Sandra Simões. Reencontro o Paulo Freitas e o Didier Valente. Após um pequeno descanso, sigo com o Paulo, que está mais preocupado com a progressão da sua companheira (que também está em prova nos 50 km) do que com a sua própria prova. A sua companhia é excelente para me manter motivado e para me ir distraindo com um pouco de conversa, enquanto o folego aguentar.

Esta parte do percurso é plana o que nos permite aumentar o ritmo e chegar ao abastecimento dos 43 km, o Miradouro do Arelho, ao fim de 5h00 de prova. A partir daqui o percurso volta a ser mais acidentado. Somos acompanhados pelo amigo Zé Guimarães. Seguimos num trio em direção ao Castelo. Passamos o km 50 e nada de ver Óbidos. O Paulo e o Zé, bons camaradas, vão esperando por mim, que já me encontro no limite das minhas forças. Seriam necessários ainda mais 2 km até finalmente subirmos a encosta e entrarmos os 3 juntos pela porta medieval, ao fim de 6h08m, prontos para a foto da praxe.


Paulo Freitas, Luís Ferreira e Zé Guimarães


Uns minutos depois chega o Nuno Ferreira, que se tinha perdido uns kms antes e assim se tinha atrasado.

Recebo o troféu e preparo-me para fazer o caminho de volta para Lisboa. Desta feita não pude esperar pelos colegas e amigos que ainda estavam em prova.

Foi mais uma excelente organização do CAOB. À saída da vila encontro o Jorge Serrazina, que não tem tido um momento de descanso, que a organização de um evento destes assim obriga.

Voltaremos a reencontrar-nos no Réccua Douro Ultra Trail em Setembro e depois no UTAX em Outubro.

Possa eu ter saúde para continuar a praticar este desporto de eleição durante ainda muitos anos!