A Armada Portuguesa do Trail (APT): o projecto que levou o trail português ao palco internacional
Post da série História do Trail Running em Portugal: a Armada Portuguesa do Trail (APT), o projecto de treino de Paulo Pires — o nome documentado, o núcleo de atletas, os estágios, o plano de 2014 em ficheiros datados e o palmarés internacional que lhe deu visibilidade.
A Armada Portuguesa do Trail (APT): o projecto que levou o trail português ao palco internacional
Treinador, convocatórias, estágios de montanha e planos semanais: a APT de Paulo Pires foi o quadro de treino do melhor período internacional do trail português — do núcleo de elite à franja de pelotão.
No centro do melhor período internacional do trail português esteve um projecto organizado com nome próprio: a Armada Portuguesa do Trail — APT, o grupo de treino coordenado por Paulo Pires, com método, convocatórias e estágios de montanha. Não era uma selecção nem uma equipa fechada — era um quadro de treino partilhado, do núcleo de elite à franja de pelotão. Este dossiê fixa o que está documentado.
Este dossiê é escrito de dentro. O autor foi atleta da APT — Armada Portuguesa do Trail, o grupo de treino de Paulo Pires, nas épocas de 2012 a 2014 [R230; cf. Dossiê 28]. Escreve sobre um colectivo de que fez parte — na sua franja de pelotão, não no núcleo de elite. Isso dá memória directa e enviesa: tudo o que for elogio é atribuído a facto verificável ou a fonte externa; a memória pessoal é identificada como tal.
Nota de nome. O treinador assina-se «Paulo Pires APT» (FADEUP, beAPT, APT) — é dele que trata este dossiê. Não confundir com Paulo Pires, o cronista do Corremais e criador dos Treinos Lunares (Dossiê 09): são pessoas distintas, e a série distingue-as por este nome.
1) O nome: o que está documentado
Comecemos pelo nome. O vínculo documentado publicamente da expressão «Armada Portuguesa do Trail» é ao projecto de treino de Paulo Pires. A notícia institucional da FADEUP que apresenta a plataforma beAPT descreve-a como assente na «metodologia e experiência de treino do treinador Paulo Pires» e fixa, em texto, a ligação «ARMADA PORTUGUESA DO TRAIL — APT — beAPT». [R352.] É a âncora firme: «Armada Portuguesa do Trail» é, à letra, a APT, o grupo/método de Pires. E o arquivo pessoal do autor acrescenta-lhe um segundo documento, com data anterior — a ficha de planeamento de 2014 (secção 2.2).
2) O núcleo: quem a plataforma associa ao método
A lista de atletas que a própria plataforma beAPT associa ao método de Paulo Pires é recorrente nas suas fontes e cruza-se com vários dossiês da série: Carlos Sá, Armando Teixeira, Lucinda Sousa, David Quelhas, Natércia Silvestre, Francisco Freitas, Leonardo Diogo e Luís Fernandes. [R353.]
2.1 · Os estágios de montanha: a APT como grupo organizado
A correspondência interna permite agora dar forma concreta ao que «partilhar um quadro de treino» significava. Em Julho de 2013, Paulo Pires convocou o 3.º estágio de montanha da APT, marcado para 19–21 de Julho, em Vale do Rossim, Serra da Estrela, com alojamento em tendas. O objectivo declarado era preparar as grandes provas de Agosto nos Alpes e Pirenéus, através de duas sessões longas de ultra-trail e trabalho de intensidade. [A1]
O fio de preparação documenta uma logística genuinamente colectiva: confirmações, partilha de tendas e automóveis, coordenação das partidas de Lisboa e do Porto, jantar comum e recomendações finais de segurança para a radiação ultravioleta em altitude. A última mensagem de Pires, no próprio dia 19, termina com um «até logo». [A1] O estágio não era, portanto, apenas um plano enviado à distância: havia encontro presencial, vida de grupo e preparação específica em montanha. E o ordinal «3.º» mostra que não se tratou de uma experiência isolada. (Correspondência privada do grupo; factos reescritos, sem publicar mensagens, endereços ou contactos pessoais.)
2.2 · O método visto da franja: um ano de APT em ficheiros (2014)
O arquivo pessoal do autor permite mostrar, por dentro e com documentos datados, o que era «partilhar o quadro de treino» da APT — precisamente do ponto de vista de um atleta de pelotão, não da elite. Do ano de 2014 sobrevivem os 41 ficheiros de microciclo semanal prescritos por Paulo Pires («MCnº 1» a «MCnº 43», de Janeiro a Outubro, com o nome do atleta e a marca apt2014 no próprio nome do ficheiro): treino por zonas de frequência cardíaca (A1, A2, A3, PA e LD — o longo), semanas agrupadas em mesociclos e macrociclos, parâmetros fisiológicos actualizados ao longo do ano, e a época inteira periodizada para as provas-alvo — Transgrancanaria 125 km, MIUT 115 km e VCUF 214 km. [A2] O tratamento completo destes ficheiros está no dossiê 02 da série pessoal «Acervo de Endurance» [R354]; aqui importa a conclusão institucional: o método da APT não servia só o núcleo de elite — a mesma estrutura de prescrição chegava, semana a semana, à franja.
E há uma segunda ocorrência datada e publicada do nome. Na palestra «O Ultra Trail – Uma Paixão» (AMBA, 3 de Julho de 2014; publicada no blogue do autor em Março de 2015 — auto-citação, assinalada como tal), o planeamento da época de 2014 é apresentado numa ficha com o cabeçalho «Armada Portuguesa do Trail» [R355] — ao lado da notícia da FADEUP [R352], é o segundo documento que fixa a expressão à APT de Paulo Pires, e com data anterior. A cronologia do projecto ganha assim um ponto firme: em 2014 a APT estava em pleno funcionamento, com planos semanais e identidade gráfica própria.
3) Os resultados: o palmarés que sustenta o fenómeno
Aqui o chão é sólido: os resultados individuais estão documentados em plataformas de resultados (ITRA, IAU, UTMB World) com confiança A. Não é preciso inventar uma «armada» para reconhecer que este núcleo competiu ao mais alto nível.
| Atleta | Ano | Prova | Resultado | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Carlos Sá | 2013 | Badwater 135 (EUA, 217 km) | 1.º — 24:38 | [R7; R28] |
| Carlos Sá | 2017 | Tor des Géants (IT, 356 km) | 4.º | [R64] |
| Armando Teixeira | 2014 | Andorra UTV — Ronda dels Cims (171 km) | 2.º | [R61] |
| Armando Teixeira | 2016 | UTMB Mont-Blanc (171 km) | 14.º | [R61] |
| Armando Teixeira | 2017 | Celestrail (Andorra, 83 km) | 1.º | [R61] |
| Lucinda Sousa | 2015 | Mundial de Trail — Annecy (84 km) | 30.ª · melhor portuguesa | [R59] |
Carlos Sá (Dossiê 01) venceu a Badwater 2013 (primeiro português a fazê-lo, confirmado por duas fontes independentes) e foi 4.º no Tor des Géants 2017; o seu top-5 no UTMB de 2011 e 2012 fez o resto da projecção. [R7; R28; R64.] Armando Teixeira é o percurso internacional mais contínuo do núcleo — pódios em Espanha e Andorra, presença regular no UTMB — e foi capitão de equipa nos Mundiais de 2016 e 2018 e Seleccionador Nacional desde 2024. [R61; R230.] Lucinda Sousa foi a melhor portuguesa em Annecy 2015 e sustentou uma carreira internacional longa. [R59; R48.] Ester Alves, Susana Simões, Hélder Ferreira e Nuno Silva completam o retrato — tratado a fundo no Dossiê 06.
4) Uma história pessoal com fonte: os 84 km de Lucinda Sousa
Se há um episódio que resume a têmpera deste núcleo, é este. No Mundial de Annecy, em 2015 — a primeira vez que Portugal levou uma selecção a um mundial da modalidade —, Lucinda Sousa foi a melhor portuguesa, 30.ª nos 84/85 km (11:41:02). [R59.] O número já é notável. Mas ganha outra dimensão com o que aconteceu nos primeiros quilómetros: uma queda provocou-lhe uma fractura da rótula. Sousa continuou — os restantes mais de 80 km com a rótula partida, cada descida um suplício — e cruzou a meta. [R85.]
5) Projecto, não selecção: o que a APT era — e não era
Chegados aqui, o retrato é nítido. A APT era inequivocamente coordenada — tinha treinador, convocatórias, estágios presenciais de montanha (§2.1) e planos semanais individualizados (§2.2). Mas não era uma selecção nem uma equipa de prova: os atletas competiam pelos seus clubes, com os seus calendários e os seus patrocínios; o que partilhavam era o método — e, nos estágios, a vida de grupo. Convém também não a confundir com as duas estruturas vizinhas do mesmo período: as redes de apoio que se organizavam em provas longas e a selecção nacional, que existe a partir de 2015 (Dossiê 05). São três coisas diferentes, com sobreposições de pessoas — e a sobreposição concreta, prova a prova, é uma das perguntas em aberto (secção 7).
Esta leitura não diminui o feito — torna-o mais interessante. Uma precisão importa aqui: os dois resultados mais mediáticos do período — a vitória na Badwater e o top-5 no UTMB — pertencem ambos a um só atleta, Carlos Sá, e nenhum ecossistema se prova com o palmarés de um homem. O que faz deste núcleo uma história de ecossistema é a largura à sua volta: no mesmo período, e saídos do mesmo ambiente de treino e de comunidade, Armando Teixeira sobe ao pódio da Ronda dels Cims e é 14.º no UTMB, Lucinda Sousa é 30.ª num Mundial, e vários outros somam percursos internacionais consistentes (secção 3). Um país pequeno a produzir, por convergência e não por decreto, meia dúzia de trajectórias internacionais simultâneas — eis o que não se explica nem com um herói nem com um plano central. E é também por isso que o nome do projecto deve ser usado com precisão: a APT coordenava treino; não coordenava — nem alguma vez reclamou coordenar — o conjunto dos portugueses que corriam lá fora.
6) Testemunho: a franja da APT
Devo o testemunho e a sua medida. Fui atleta da APT — Armada Portuguesa do Trail entre 2012 e 2014, depois de uma época (2011/2012) no Centro de Treino d'O Mundo da Corrida, no Jamor. [R230; Dossiê 28.] Mas fui-o na franja: um corredor de pelotão que partilhou o quadro de treino, não o palco internacional. A minha experiência da APT foi a de estar dentro do grupo de treino, não a de estar nos pódios que lhe deram visibilidade. Quem escreve sobre um colectivo de que fez parte deve dizer onde esteve nele: dentro do treino, fora da elite. (Testemunho directo do autor — Zona 3.)
Há um registo que não cabe nas fontes e que faço questão de deixar escrito, identificado como aquilo que é: gratidão de quem lá esteve. Foi para mim uma enorme honra e um privilégio privar e treinar com um grupo de pessoas fora-de-série — e não o digo apenas pelas características desportivas, que os resultados da secção 3 documentam melhor do que qualquer adjectivo meu, mas pelas qualidades humanas: a generosidade com que a elite tratava a franja, a partilha de conhecimento sem reserva, o companheirismo nos estágios, nas viagens e nas provas. Aprendi ali muito mais do que treino. (Elogio declaradamente pessoal — testemunho directo do autor, Zona 3; não é afirmação documental sobre o grupo, é o lugar de onde este dossiê é escrito.)
7) O que este dossiê ainda não resolve
- A cronologia e a forma da APT de Paulo Pires — quando nasceu, como se entrava, quantos atletas teve por época, a transformação em beAPT, a relação formal Pires ↔ Armando Teixeira (Dossiê 28).
- A composição real — a lista da beAPT é comunicação da plataforma; a composição da APT por época está por reconstituir (secção 2).
- A sobreposição concreta entre a APT, as redes de apoio de prova e a selecção nacional — quem estava em quê, prova a prova (secção 5).
- As perspectivas dos próprios atletas sobre o projecto e o seu nome.
- A triangulação do episódio de Lucinda Sousa (fractura da rótula) com fonte documental independente (secção 4).
- O legado — a influência mensurável desta geração nos atletas mais jovens (Dossiê 06).
8) Próximo passo editorial
Este é, por excelência, um dossiê que se fecha com testemunhos dos protagonistas ainda activos. Por ordem de prioridade: (i) Paulo Pires (o treinador) sobre a origem, a cronologia e a composição da APT; (ii) Armando Teixeira sobre o núcleo, as redes de treino e a passagem a seleccionador; (iii) Lucinda Sousa sobre Annecy 2015 e a carreira internacional; (iv) os restantes atletas da lista beAPT sobre a sua experiência do projecto e do método. Os contributos documentados serão integrados como fonte primária (escala A), com consentimento e atribuição.
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