O que os meus dados de treino dizem sobre a preparação para ultras

O lado invisível do acervo: 48 mil km de treino, o peso (de 90 kg a 67,5 kg), a FC das ultras (108 bpm em 57 horas), o muro do UTMB po

O lado normalmente invisível do acervo, agora em versão expandida: 48 mil km de treino em dezassete anos, o peso (de 90 kg a 67,5 kg), a frequência cardíaca das ultras (108 bpm em 57 horas), o muro do UTMB medido posto a posto — e a lesão de 2025 visível nos dados.

Série · Acervo de Endurance · Dossiê 02

O que os meus dados de treino dizem sobre a preparação para ultras

Perto de cinquenta mil quilómetros e um milhão de metros de desnível (2009–2026) por trás das provas longas — com o peso, a pulsação e o muro do UTMB medidos nos ficheiros.

📍 Serra da Estrela & Sintra 📅 2009–2026 📚 Dossiê 02 · Acervo de Endurance ✍️ Luís Matos Ferreira
UTMB 2015, de noite, frontal aceso · arquivo pessoal de Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Versão expandida (julho de 2026): à leitura anual e mensal da primeira versão juntam-se o diário sessão a sessão (5.683 linhas, com peso e frequência cardíaca), os splits do UTMB 2015 e o export Strava até maio de 2026. Continua a ser leitura de volume e carga — não capta intensidade por zonas — e os cruzamentos com as provas são correlações plausíveis, não prova de causalidade.
Série · Acervo de Endurance Companheiro do Dossiê 01 — a cronologia das provas. Onde o 01 conta os resultados, este olha para o treino que esteve por trás deles. Ver também o Dossiê 03 e o Dossiê 04.

No Dossiê 01 contei a cronologia das provas: 154 corridas, 63 ultras, da maratona em sub-3 horas às 57 horas da Ronda dels Cims. Mas os resultados são só metade da história. A outra metade — a que normalmente fica invisível — é o treino.

Na primeira versão deste dossiê usei o resumo anual e mensal do ficheiro de treino. Esta versão desce mais fundo: à sessão (a folha Treino tem 5.683 linhas, com peso, pulsação e calorias), aos splits oficiais do UTMB 2015, e ao export do Strava — 4.245 atividades que prolongam a série até maio de 2026. A tese mantém-se, simples e prudente: os resultados em ultra trail não saem de um pico isolado, mas de um padrão de carga sustentada e de uma transição progressiva do volume de estrada (2011–2014) para o desnível de montanha (2015–2020).

Nota metodológica

Três camadas de dados: o ficheiro de treino (anual, semanal, mensal e sessão a sessão), o export Strava (2009–2026; publicam-se agregados, não os dados brutos) e o cruzamento com as provas (ficheiro de ultras e perfil público UTMB World). As fontes usam critérios diferentes e não batem certo entre si — o Strava tem lacunas de desnível até 2013, o GPS mede provas por excesso. A leitura é de volume, carga e tendência; não distingue tipos de sessão nem prova causalidade.

A carga acumulada — duas contagens

Ficheiro de treino, 2009–2020:

Corrida acumulada43 300,4 km
D+ acumulado853 801 m D+
km-effort acumulado55 951,8
Natação acumulada734,0 km
BTT acumulado2 616,7 km
Tempo Garmin acumulado4 889 horas

Strava, dez/2009–mai/2026 (só corrida): 3 460 corridas, 48 485 km, ~898 000 m D+, 6 145 horas em movimento e ~3,66 milhões de kcal. Fora da corrida: 547 sessões de natação, 88 de bicicleta, 62 caminhadas de montanha.

As duas contagens não são comparáveis linha a linha (períodos e critérios diferentes), mas convergem na escala: perto de cinquenta mil quilómetros a correr, e quase um milhão de metros de desnível — o Evereste a partir do mar, cem vezes.

Onde estiveram os anos de pico

Cruzando os indicadores anuais, vê-se a deslocação do esforço ao longo da década:

IndicadorTop 3 anos
Mais km de corrida2014 (4 526,2) · 2012 (4 454,3) · 2011 (4 283,2)
Mais D+2019 (124 715) · 2016 (106 243) · 2015 (105 379)
Mais km-effort2014 (5 958,5) · 2012 (5 946,9) · 2011 (5 717,8)
Mais horas Garmin2014 (651) · 2019 (594) · 2020 (542)

A leitura é clara: 2011–2014 são os anos de volume de corrida; a partir de 2015 o esforço desloca-se para o desnível. É a mesma viragem que o Dossiê 01 mostra nas provas — da estrada para a montanha — agora visível também no treino.

O negativo também está nos dados: 2017–2018 são o vale da série — 2 342 e 2 196 km, e o desnível cai de mais de 100 000 m para 45 354 m (2017) e 25 491 m (2018). É o annus horribilis dos Dossiês 03 e 04, agora em quilómetros.

Os meses — e as semanas — que contam a história

No registo mensal, alguns meses destacam-se de forma evidente:

  • Maior volume e maior km-esforço: junho de 2015 — 522,8 km e 20 792 m D+ em 78h46m de actividade.
  • Outros meses de topo: abril 2016 (511 km), março 2019 (459 km / 19 018 m D+ / 91h13m), setembro 2020 (478 km em 37 atividades), agosto 2014 (501 km).
  • Maior D+ mensal: junho 2015, março 2019, julho 2019, julho 2016, setembro 2020.

E a granularidade semanal da folha Dados — 630 semanas com corrida — acrescenta uma leitura nova:

SemanakmD+Contexto
2020 S24 (junho)223,53 338a maior de sempre — sem prova dentro; volume plano, pós-confinamento
2014 S23214,010 300a semana da VCUF — a prova é a semana
2015 S24196,410 926bloco de preparação do UTMB
2012 S28188,211 516a semana do Ehunmilak
2019 S29170,013 500a semana da Ronda — o maior D+ semanal é a própria prova

A leitura fina: quase todas as semanas-recorde são semanas de prova — exceto a maior de todas, um bloco puro de treino em junho de 2020. Nas ultras XL, a prova é simultaneamente o pico de carga do ano: não há semana de treino que se compare a 170 km com 13 500 m de desnível.

O corpo como instrumento: peso e frequência cardíaca

Esta é a camada que a primeira versão declarava em falta — e que afinal estava na folha Treino, pesagem a pesagem (2 266 pesagens), pulsação a pulsação.

O peso conta a história toda:

PeríodoPesoContexto
200890 → 79 kgo ponto de partida: comecei a correr com 90 kg
2011–2013mín. 67,5–68,5 kgo peso de competição dos melhores anos de estrada
2014–201669–80 kgoscilação nos anos das ultras XL
2018máx. 86 kgo annus horribilis medido na balança
2019–202170–83 kgo regresso; último registo: 74,6 kg

Perder 20 kg no primeiro ano e meio é o prólogo de tudo o resto — a maratona sub-3 de 2011 foi corrida com ~68–70 kg, e o DNF da Ronda 2017 com o peso a subir.

A frequência cardíaca mostra o regime: a FC média de treino, ano a ano (2012–2020), fica entre 129 e 137 bpm — uma disciplina aeróbica notavelmente estável ao longo de nove anos. O único desvio é 2018, com 137–141 bpm (ficheiro e Strava concordam): o ano mais pesado é também o ano em que o mesmo esforço custava mais batimentos. A perda de forma é visível na pulsação.

A FC das ultras — o regime diesel

VCUF 2014 (214 km): FC média 122 bpm · Ronda dels Cims 2019 (57 horas): 108 bpm · EstrelAçor 2020: 127 bpm. Ultra XL corre-se muito abaixo do limiar — a arte é durar, não acelerar. O contraponto: o maior Relative Effort de todo o Strava é o MIUT 2014, com FC média de 159 bpm no troço registado pelo relógio — a prova mais «no vermelho» da série, e um dos melhores resultados (64/128).

Peso e FC são medições próprias (balança doméstica; cintas e relógios Garmin de várias gerações). Servem para tendências, não para comparação clínica.

Treino vs. resultado: três cruzamentos

Estes três cruzamentos ligam meses e anos de carga às provas correspondentes do Dossiê 01. Repito o aviso: são correlações plausíveis entre carga e objetivo, não prova de causalidade. Os dados agregados não captam tapering, intensidade nem qualidade da sessão.

1. Junho de 2015 → UTMB 2015 (agosto)

Junho de 2015 é o maior mês de sempre em volume — 522,8 km e 20 792 m D+ — e 2015 foi o 3.º ano de maior D+ (105 379 m). Cerca de dois meses depois, a 28–29 de agosto, o UTMB: 170 km e 10 000 m D+ em Chamonix, com sol e 35 ºC, terminado em 39h24m46s (626/1632 no geral). O maior bloco de carga do registo antecede de perto o objetivo internacional mais emblemático.

2. O pico de D+ de 2019 → Ronda dels Cims 2019 (57h)

2019 é o ano de maior desnível de todo o registo de treino: 124 715 m. Os meses de março (19 018 m D+) e julho (17 801 m D+) estão entre os de maior D+ de sempre, logo atrás de junho de 2015. A 19 de julho de 2019 chega a Ronda dels Cims (Andorra, 170 km / 13 500 m D+), a prova mais vertical e o maior esforço em duração de toda a trajetória: 57h00m34s (156/210). E ganha peso porque, em 2017, a mesma prova tinha terminado em DNF: o ano de maior carga de desnível coincide com o regresso bem-sucedido à prova mais dura.

3. A base de volume 2011–2012 → os melhores tempos de estrada

2011 e 2012 estão no topo do volume de corrida (2012: 4 454,3 km; 2011: 4 283,2 km) e do km-effort. É nesta janela que se concentram os melhores registos de estrada: 5 km em 18m16s (2011), 10 km em 37m54s (2011), meia maratona em 1h23m58s (2012) e maratona em 2h57m54s — sub-3 — na Maratona de Lisboa de dezembro de 2011. E é também a janela do peso mínimo da série (67,5 kg). A passagem para a ultra não veio de falta de velocidade: aconteceu depois de uma base sólida de corrida, construída com volume elevado.

O muro do UTMB, medido posto a posto

A folha UTMB dados guarda os splits oficiais do UTMB 2015 — e permite fazer o que a memória não faz: medir o muro.

Ponto (km aprox.)Tempo de provaRitmoPosição
Le Délevret (~14)1h388,3 km/h293.º
Les Contamines (~31)3h596,5 km/h448.º
Courmayeur (~78)13h45 → 14h136,3 km/h414.º → 399.º
Grand Col Ferret (~100)19h053,1 km/h324.º
La Giête (~125)26h263,9 km/h307.º — a melhor posição da prova
Trient (~139)27h354,2 km/h326.º
Catogne (~148)30h072,8 km/h359.º
Vallorcine (~153)31h552,8 km/h393.º
Tête aux Vents (~161)35h332,4 km/h457.º
La Flégère (~165)37h092,2 km/h512.º
Chamonix (170)39h24m46s3,2 km/h626.º

A história que os números contam: depois de um arranque prudente e de uma recuperação paciente ao longo de Itália e da Suíça (448.º → 307.º entre Les Contamines e La Giête), o muro chega por volta de Trient (~km 136–139) — exatamente onde a memória o punha. Nos últimos 45 km perdi 319 posições, a velocidades de 2,2–2,8 km/h. Os primeiros 136 km em 26h26m (5,1 km/h); os últimos 34 em 12h58m (2,6 km/h). O «Homem da Marreta» tem agora coordenadas.

Um bloco de preparação visto por dentro: Ehunmilak 2012

Os totais anuais escondem a estrutura fina do treino. Para a minha primeira 100 milhas — a Ehunmilak, 168 km e 11 000 m D+, a 13 de julho de 2012 — fui contando aqui no blog, mesociclo a mesociclo, como se montava a preparação, com o treinador Eduardo Santos. Os números que registei na altura dão à carga agregada uma textura que o ficheiro sozinho não tem:

MesocicloCorridaD+
1.º (a partir de 10/03) — sessão-chave em Sintra: 2 500 m D+ em 46 km / 7h
2.º~387 km~8 636 m
3.º (23/04–20/05)338 km9 461 m
4.º (21/05–17/06) — + 10 km natação, 95 km ciclismo379 km9 556 m

A lição que escrevi na altura ainda hoje me parece a certa: a recuperação entre sessões é tão importante como os longos, e não vale a pena abusar de tiradas acima de 5 a 6 horas. O 4.º mesociclo começou com duas semanas de desmotivação e recuperação lenta — «o mundo pareceu perder a sua cor» — antes de um salto de carga. É também aqui que se vê a minha métrica de eleição: defino o km-esforço como a distância somada a dez vezes o desnível (em quilómetros), seguindo Kilian Jornet — exatamente a coluna km-effort do ficheiro.

Estes relatos são auto-registo, escrito durante a preparação — não um plano validado por terceiros. Servem para datar e dar textura às fases; os totais agregados continuam a sair do ficheiro de treino.

O que o Strava acrescenta: 2021–2026, incluindo a lesão

O ficheiro de treino enfraquece depois de 2020; o Strava continua — e regista o fim de ciclo e a lesão com uma frieza que nenhum relato tem:

AnoCorridaskmD+ (m)
20212433 64995 770
20221411 98452 446
20231242 14973 856
20241921 98147 737
2025684686 920
2026 (jan–abr)1017141

2021 ainda é um ano cheio (o TPG 168k está lá dentro). 2022–2024 são anos de meia-carga. E depois a rutura: 2025, o ano da cirurgia ao menisco externo (setembro), fica em 468 km; o arranque de 2026, em 17 km — o joelho não deixa, sobretudo em descida (Dossiê 04). Mas os mesmos dados mostram a adaptação: em 2025 há 92 sessões de natação contra 68 corridas — pela primeira vez na série, a piscina passa à frente da estrada. A história não parou; mudou de meio.

Leitura crítica

O treino agregado mostra correlações plausíveis — carga alta antes de objetivos longos — mas não prova causalidade nem capta a qualidade das sessões. A camada fisiológica agora incluída reforça uma leitura — regime aeróbico estável (FC 129–137), peso de competição nos anos rápidos, FC de prova baixíssima nas XL — mas continua a ser medição doméstica, não laboratório. A força do acervo está na consistência plurianual: dezassete anos de registo contínuo, em três fontes independentes que se corroboram no essencial e divergem no detalhe. É o suficiente para sugerir padrões; não o suficiente para os transformar em receita.

Limites e lacunas desta versão

O que falta apurar
  • Os dados agregados não distinguem tipos de sessão nem intensidade por zonas (há FC média por sessão, mas não a distribuição).
  • As fontes divergem: registo mensal/anual (Garmin vs. ficheiro) e Strava usam critérios diferentes; o Strava tem lacunas de desnível até 2013 e o GPS mede provas por excesso.
  • Peso e FC são medições domésticas, sem calibração — valem como tendência.
  • Faltam dados de sono, nutrição de treino e testes de limiar para uma leitura de carga interna real.
  • Os splits do UTMB são transcrição própria dos dados oficiais; as distâncias por posto são aproximadas.

Convite ao contraditório e contributos

Contributos especialmente úteis
  • métodos de leitura de carga de treino a partir de dados Garmin/Strava (Relative Effort, TRIMP, km-esforço);
  • como cruzar volume mensal com tapering e resultado;
  • experiências de regresso ao trail depois de meniscectomia — sobretudo a gestão das descidas;
  • memória das fases de preparação das provas longas.

Os resultados são a parte visível. O treino é a parte que ninguém vê — e é onde, afinal, a história começa.

Referências
[R1] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha Dados — resumo anual e semanal de treino 2008–2020.
[R2] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha Todos os meses (2) — volume, FC e km-esforço mensais (dez/2009–dez/2020).
[R3] 63 ULTRAS.xlsm — provas longas, para cruzar treino e resultado.
[R5] Export Strava da conta pessoal — 4 245 atividades, dez/2009–mai/2026 (agregados publicáveis; dados brutos não).
[R6] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha Corridas — cronologia de provas, incl. melhores tempos de estrada.
[R7] Blog dorsal1967 — série de preparação do III Ehunmilak 2012 (mesociclos) e definição da métrica km-esforço.
[R8] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha Treino — diário sessão a sessão (5 683 linhas): peso (2 266 pesagens), FC média/máxima, calorias.
[R9] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha UTMB dados — splits oficiais do UTMB 2015, posto a posto (transcrição própria).
[R10] UTMB World — perfil público do autor (46818.luismiguel.matosferreira): corrobora tempos e classificações.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Os números deste post vêm dos meus próprios ficheiros de treino e do Strava, não de fontes oficiais, e os cruzamentos são leituras prudentes, não certezas. Se treinas para provas longas e lês a tua própria carga de outra forma — ou se já voltaste ao trail depois de uma meniscectomia —, o teu contributo ajuda a afinar este registo.
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