Do sofá de praia à linha de partida (2008–2010)

Aos 40 anos: sedentário, ~90 kg, hipertensão. Dois anos depois: primeiro ultra trail. O prequel da série Acervo de Endurance, d

Abril de 2008: 40 anos, ~90 kg, hipertensão, colesterol alto, sedentarismo — e uma fotografia numa espreguiçadeira de praia. Maio de 2010: a linha de partida do primeiro ultra trail. O prequel de toda a série: os dois anos de transformação, documentados com datas e pesagens — e sem receitas.

Série · Acervo de Endurance · Dossiê 06

Do sofá de praia à linha de partida

Abril de 2008: 178 cm, ~90 kg, hipertensão, colesterol, glicémia elevada. Maio de 2010: o primeiro ultra trail. Os dois anos que explicam tudo o resto — 20 kg, uma folha de cálculo, um grupo, uma maratona e dois ultras.

📍 Lisboa 📅 2008–2010 📚 Dossiê 06 · Acervo de Endurance ✍️ Luís Matos Ferreira
Fotografia · arquivo pessoal de Luís Matos Ferreira
Estado editorial. O prequel da série, construído sobre um artefacto datado — os slides da minha palestra de 2014 — cruzado com as pesagens do ficheiro de treino e a cronologia dos Dossiês 01–02. O retrato clínico de 2008 é auto-relato, sem análises publicadas. Não é uma receita: começar endurance depois dos 40 com fatores de risco pede acompanhamento médico.
Série · Acervo de Endurance Sexto dossiê da série — e o primeiro na ordem da história. Lê-se antes do Dossiê 01 — a cronologia das provas e do Dossiê 02 — o treino: é a pré-história que os outros dossiês assumem sem contar.

Todos os dossiês desta série começam, implícita ou explicitamente, em 2009–2012. Este começa antes — no ponto de partida verdadeiro: abril de 2008, um homem de 40 anos numa espreguiçadeira de praia. A fotografia existe; fui eu que a mostrei numa palestra em 2014.

Nota metodológica e declaração

Três fontes: os slides da palestra na AMBA (03/07/2014, publicados em «O Ultra Trail – Uma Paixão»); a folha de pesagens do ficheiro de treino (2.266 pesagens desde 2008, analisada no Dossiê 02); e a cronologia de provas do Dossiê 01. O retrato clínico é auto-relato feito em palestra pública, sem registos médicos publicados. E uma discrepância assumida: o slide diz 92 kg, o ficheiro abre 2008 em 90 kg — uso «~90–92 kg».

Abril de 2008: o retrato do ponto de partida

O slide 6 da palestra é uma lista sem adjetivos, ao lado de uma fotografia de praia:

  • Sedentarismo
  • Má alimentação
  • 178 cm / 92 kg
  • Hipertensão
  • Colesterol alto
  • Glicémia elevada
  • «Etc»

O «etc» é a palavra mais honesta do slide. Aos 40 anos, era o retrato clínico de um candidato a estatística cardiovascular — não o de um futuro finisher do UTMB. É por isso que a citação de Edmund Hillary que abria a mesma palestra não era decoração: «Adventuring can be for the ordinary person with ordinary qualities, such as I regard myself.» O ponto de partida foi tão ordinário quanto isto.

2008–2009: os primeiros 20 quilos

A resposta não foi só correr. O gráfico de preparação dos slides mostra o método desde o início: uma métrica semanal composta — TOTAL = Corrida + 0,5×Bicicleta + 4×Natação — com o peso sobreposto, a descer da casa dos 90 para a casa dos 70. A folha de pesagens conta o mesmo: 2008 abre em ~90 kg e fecha em ~79 kg; ano e meio depois do início, o peso estava na casa dos 70 — cerca de 20 kg perdidos — e em 2011–2013 chegaria ao mínimo de 67,5–68,5 kg, o peso dos melhores anos de estrada (Dossiê 02).

Dois traços deste período explicam o que veio depois. Primeiro, o registo chegou antes dos resultados: a balança e a folha de cálculo que sustentam toda esta série nasceram como instrumento de emagrecimento e só depois se tornaram instrumento de treino. Segundo, o multidesporto foi necessidade antes de ser filosofia: um corpo de 90 kg não aguenta volume de corrida puro — a métrica composta era gestão de risco articular.

Novembro de 2009 – maio de 2010: o grupo, a maratona, o ultra

Os milestones do slide 3 datam a escalada:

DataMarco
Novembro 2009Entrada no Run 4 Fun
Dezembro 2009Primeira maratona
Maio 2010Primeiro ultra trail (50 km)
Junho 2010Segundo ultra
2010Serra da Freita — 70 km / 4.000 m D+

A sequência tem uma lógica que só se vê à distância: primeiro o grupo, um mês depois a maratona, seis meses depois o ultra. A entrada no Run 4 Fun precede imediatamente o salto competitivo — é difícil não ler aqui causalidade social, e os relatos de toda a série (a equipa na Ronda 2019, «O Grupo» da palestra) confirmam que a pertença nunca deixou de ser um dos motores. A cronologia do Dossiê 01 mostra o resto: a densidade competitiva séria começa exatamente em 2009, e em 2010–2012 o salto para 43, 52, 70, 79, 100 e 168 km faz-se num período muito curto.

O que esta origem explica na série

  • O peso como variável central. Quem perdeu 20 kg para chegar à linha de partida nunca mais tratou o peso como detalhe: o Dossiê 02 mostra o peso a contar a história toda, do mínimo de 67,5 kg dos anos rápidos aos 86 kg do annus horribilis de 2018 — e o DNF da Ronda 2017 foi corrido «com 6 kg a mais».
  • A gestão como identidade. A transformação de 2008 foi gerida como um projeto (métrica composta, controlo semanal); a palestra de 2014 formalizou-a em ciclos de gestão. O método veio antes do desporto, não o contrário.
  • A saúde como motivação de fundo. Antes da natureza, do grupo e da superação, a primeira motivação documentada é clínica: o ultra trail foi o degrau final de uma escada que começou como prevenção cardiovascular.

Leitura crítica

Não é uma receita. A transformação aconteceu num contexto específico: um adulto sem lesões, com recursos para equipamento e provas, com um grupo à distância de um treino e com uma capacidade de aderência ao plano fora do comum. O retrato clínico de 2008 é auto-relato; a reversão dos fatores de risco não está documentada com análises publicadas, apenas implícita na trajetória.

E a mesma série mostra o outro lado do balanço: o peso voltou a subir duas vezes (2017–2018 e depois de 2021), e a carreira acabou interrompida por uma lesão estrutural (menisco, 2025 — Dossiê 04). Transformar o corpo aos 40 é possível e está aqui documentado; fazê-lo sem custos nem recaídas não está.

Limites e lacunas desta versão

O que falta apurar
  • O retrato clínico de abril de 2008 é auto-relato de palestra, sem registos médicos publicados.
  • A primeira maratona (dez/2009) e o primeiro ultra (mai/2010) não estão nomeados nos slides — falta identificá-los nos ficheiros e no blog.
  • Discrepância 92 kg (slide) vs. 90 kg (ficheiro), assinalada mas não resolvida.
  • A leitura causal grupo → salto competitivo é interpretação, não prova.

Convite ao contraditório e contributos

Contributos especialmente úteis
  • memória dos companheiros do Run 4 Fun de 2009–2010: como era o recém-chegado, que provas foram as primeiras;
  • identificação da primeira maratona e do primeiro ultra — dorsais, resultados, fotografias;
  • experiências comparáveis de transformação tardia (começar endurance depois dos 40 com fatores de risco);
  • perspetiva médica sobre transições sedentário → ultra-endurance: o que este relato devia acautelar melhor.
Referências
[R1] Apresentação «O Ultra Trail – Uma Paixão» (palestra na AMBA, 03/07/2014; publicada no blog em 21/03/2015): slide 6 («O início», abril de 2008), slide 3 (milestones), slide 7 (gráfico TOTAL = C+0,5×B+4×N com peso) e slide 12 (Serra da Freita 2010).
[R2] 230616_TREINO_NOVO.xlsx, folha Treino — pesagens desde 2008 (90 → 79 kg no primeiro ano; mínimos de 67,5–68,5 kg em 2011–2013). Análise no Dossiê 02.
[R3] Dossiê 01 — cronologia de provas: densidade competitiva a partir de 2009; transição para trail e ultras 2010–2012.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Se passaste por uma transformação parecida — ou se és médico e vês aqui algo a acautelar —, os comentários abaixo são o sítio certo. E se te lembras das minhas primeiras provas de 2009–2010, ajuda-me a identificá-las.
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