Uma Década de Trail Ultra Endurance
Edição estendida do balanço de uma década de trail ultra endurance (2012–2022): as oito provas de 100 milhas, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia das horas na montanha, e o que veio depois — na primeira pessoa.
Uma Década de Trail Ultra Endurance
Edição estendida do balanço dos dez anos: as oito 100 milhas, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia das horas na montanha — e o que veio depois de 2022.
Em julho de 2022 fiz aqui o balanço de uma década de ultra endurance — dez anos exatos desde a primeira 100 milhas, o Ehunmilak de 2012. Este é esse balanço em edição estendida: os números, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia que me foi ficando, e o que veio depois.
A fonte-base é o post original de 2022; as citações entre aspas são verbatim. Os números cruzam-se com o ficheiro pessoal de provas e com os Dossiês 01–03 (tempos do registo próprio, exceto a EstrelAçor 2020, com classificação oficial). A camada filosófica é a minha leitura, não uma tese — e um balanço, por natureza, embeleza.
A década em números (jul/2012 – jul/2022)
Dez anos, 46 provas de ultramaratona terminadas, e — no centro do balanço — oito provas de 100 milhas (categoria 100M da ITRA, 130–189 km):
| Ano · Prova | Dist. / D+ | Tempo |
|---|---|---|
| 2012 · III Ehunmilak (País Basco) — a primeira | 168 km / 11.000 m | 39h42m |
| 2013 · Grand Raid des Pyrénées | 161 km / 9.766 m | 36h43m |
| 2014 · VCUF (Cerdanya) — a mais longa | 214 km / 10.000 m | 40h50m |
| 2015 · UTMB (Chamonix) | 170 km / 10.000 m | 39h25m |
| 2016 · Eco Madeira (EMUM) | ~170 km / ~7.000 m | 36h03m |
| 2017 · Ronda dels Cims — DNF (não conta) | 170 km / 13.500 m | 27h39m · DNF |
| 2019 · Ronda dels Cims (Andorra) — a mais vertical | 170 km / 13.500 m | 57h01m |
| 2020 · EstrelAçor — 100 Milhas ITRA, neutralizada | 180 km / ~8.000 m | 31h51m (141,7 km) |
| 2021 · TransPenedaGerês TPG 168k | 166 km | 37h43m |
Sobre o futuro da lista, escrevi então uma frase que mantenho: «É desejo meu que esta lista continue a crescer até bem dentro da década de 2040.»
O ano em que quase tudo se desfez (2017–2018)
O balanço não seria honesto sem o seu ponto mais baixo. Depois do DNF da Ronda em 2017, veio o que chamei o meu annus horribilis: «Engordei imensamente. Bebia demasiado… mudei de casa.» Entre 2017 e 2018 o meu pai faleceu, divorciei-me, subi de 70 para 85 kg e passei quase um ano sem treinar. Foi o fundo. Citei Camões, e a citação continua a servir:
«Erros meus, má Fortuna, Amor ardente / Em minha perdição se conjuraram.»Camões, citado em 2022
O regresso veio em 2019, na mesma Ronda dels Cims que me tinha derrotado — terminada em 57 horas, ladeado pelos amigos. É o par que estrutura toda a década: a prova que me deitou abaixo é a mesma que marca o regresso.
As montanhas não se conquistam
Uma década ensina uma humildade específica. As montanhas, escrevi, «não estão lá para ser conquistadas, ou dominadas… Todas elas têm a última palavra.» Cada uma exige a sua abordagem — e as provas, como as pessoas, não se parecem umas com as outras quando são difíceis. Numa paráfrase de Tolstoi que me saiu na altura e de que ainda gosto:
«As provas fáceis parecem-se todas; as difíceis são difíceis cada uma à sua maneira.»paráfrase de Tolstoi · 2022
Correr contra o absurdo
Fica a pergunta que todas as ultras acabam por fazer: para quê? A minha resposta, em 2022, era existencialista e sem ilusões. Não há prémio cósmico à espera — «Serei um pequeno risco à escala de Planck na fábrica do espaço-tempo» — e Camus tinha razão sobre a revolta da carne ser o absurdo. E, no entanto:
«Não há redenção, não há salvação. No entanto uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano. Para conseguir ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia.»
É esta a economia real do ultra trail: não salva, mas dá sentido suficiente para continuar.
A prospetiva de 2022 — e o que veio depois
Em julho de 2022 deixei a década em aberto, com duas opções para 2023 — os circuitos nacionais portugueses ou uma ultra na Patagónia — e uma regra aprendida à força: «Desejo fazer as coisas com pés e cabeça para que não volte a ficar um ano praticamente parado.»
O epílogo, que a edição estendida pode agora contar: em 2023 o objetivo internacional foi o Gran Trail Courmayeur (100 km nos Alpes), e terminou em DNF ao km 73, com o corpo vazio. Não foi a Patagónia nem os nacionais; foi mais uma lição sobre os limites — e sobre «abandonar a tempo», que é também o sistema a funcionar.
Mas o revés maior não veio de uma prova. Uma lesão grave no joelho direito obrigou-me a desistir do UTAX (Ultra Trail Aldeias do Xisto) de 2024. Em setembro de 2025 fui operado — retiraram-me o menisco externo desse joelho. Desde então não tenho conseguido voltar a correr, sobretudo em descida.
Leitura crítica
Este é um balanço, e os balanços embelezam. O texto de 2022 é literário e existencial — escolhe as citações que dão sentido à trajetória e arruma o caos numa narrativa. Vale como testemunho de voz, não como prova de nada: a filosofia é minha, as montanhas não têm opinião, e o «sentido» de que falo é uma construção pessoal, legítima mas não transferível.
Limites e lacunas desta versão
- A camada filosófica é auto-interpretação, não análise.
- Os números da década vêm do registo pessoal (exceto EstrelAçor 2020); a base de dados está nos Dossiês 01–03.
- O total «46 ultras terminadas» é o do post de 2022 e fica por reconferir contra o ficheiro.
- O post original é de 2022; o epílogo é acrescento de 2026 e pode ser continuado.
Convite ao contraditório e contributos
- memória de quem correu comigo as provas da década (episódios, correções, fotografias);
- o balanço de outros ultra-maratonistas de longa data — como leem a sua própria década;
- a continuação da história pós-2023 (provas, objetivos, o que mudou).
46818.luismiguel.matosferreira): corrobora as provas da década (tempos e classificações).
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