Uma Década de Trail Ultra Endurance

O balanço dos dez anos por dentro: as oito 100 milhas, o annus horribilis de 2017-2018, as montanhas que não se conquistam, e c

Edição estendida do balanço de uma década de trail ultra endurance (2012–2022): as oito provas de 100 milhas, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia das horas na montanha, e o que veio depois — na primeira pessoa.

Série · Acervo de Endurance · Dossiê 04

Uma Década de Trail Ultra Endurance

Edição estendida do balanço dos dez anos: as oito 100 milhas, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia das horas na montanha — e o que veio depois de 2022.

📍 Montanha 📅 2012–2022 📚 Dossiê 04 · Acervo de Endurance ✍️ Luís Matos Ferreira
UTMB 2015, nos Alpes · arquivo pessoal de Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Edição estendida do post «Uma Década de Trail Ultra Endurance XL» (dorsal1967, julho de 2022). As citações entre aspas são verbatim desse texto; o epílogo (o que veio depois) é acrescento de 2026. É balanço pessoal e literário — testemunho de voz, não estudo.
Série · Acervo de Endurance A peça de voz da série. Lê-se em diálogo com o Dossiê 01 (cronologia), o Dossiê 02 (treino) e o Dossiê 03 (como é fazer uma 100 milhas). Onde esses dão os dados e o método, este pergunta porquê.

Em julho de 2022 fiz aqui o balanço de uma década de ultra endurance — dez anos exatos desde a primeira 100 milhas, o Ehunmilak de 2012. Este é esse balanço em edição estendida: os números, o ano em que quase tudo se desfez, a filosofia que me foi ficando, e o que veio depois.

Nota metodológica

A fonte-base é o post original de 2022; as citações entre aspas são verbatim. Os números cruzam-se com o ficheiro pessoal de provas e com os Dossiês 01–03 (tempos do registo próprio, exceto a EstrelAçor 2020, com classificação oficial). A camada filosófica é a minha leitura, não uma tese — e um balanço, por natureza, embeleza.

A década em números (jul/2012 – jul/2022)

Dez anos, 46 provas de ultramaratona terminadas, e — no centro do balanço — oito provas de 100 milhas (categoria 100M da ITRA, 130–189 km):

Ano · ProvaDist. / D+Tempo
2012 · III Ehunmilak (País Basco) — a primeira168 km / 11.000 m39h42m
2013 · Grand Raid des Pyrénées161 km / 9.766 m36h43m
2014 · VCUF (Cerdanya) — a mais longa214 km / 10.000 m40h50m
2015 · UTMB (Chamonix)170 km / 10.000 m39h25m
2016 · Eco Madeira (EMUM)~170 km / ~7.000 m36h03m
2017 · Ronda dels Cims — DNF (não conta)170 km / 13.500 m27h39m · DNF
2019 · Ronda dels Cims (Andorra) — a mais vertical170 km / 13.500 m57h01m
2020 · EstrelAçor — 100 Milhas ITRA, neutralizada180 km / ~8.000 m31h51m
(141,7 km)
2021 · TransPenedaGerês TPG 168k166 km37h43m

Sobre o futuro da lista, escrevi então uma frase que mantenho: «É desejo meu que esta lista continue a crescer até bem dentro da década de 2040.»

O ano em que quase tudo se desfez (2017–2018)

O balanço não seria honesto sem o seu ponto mais baixo. Depois do DNF da Ronda em 2017, veio o que chamei o meu annus horribilis: «Engordei imensamente. Bebia demasiado… mudei de casa.» Entre 2017 e 2018 o meu pai faleceu, divorciei-me, subi de 70 para 85 kg e passei quase um ano sem treinar. Foi o fundo. Citei Camões, e a citação continua a servir:

«Erros meus, má Fortuna, Amor ardente / Em minha perdição se conjuraram.»Camões, citado em 2022

O regresso veio em 2019, na mesma Ronda dels Cims que me tinha derrotado — terminada em 57 horas, ladeado pelos amigos. É o par que estrutura toda a década: a prova que me deitou abaixo é a mesma que marca o regresso.

As montanhas não se conquistam

Uma década ensina uma humildade específica. As montanhas, escrevi, «não estão lá para ser conquistadas, ou dominadas… Todas elas têm a última palavra.» Cada uma exige a sua abordagem — e as provas, como as pessoas, não se parecem umas com as outras quando são difíceis. Numa paráfrase de Tolstoi que me saiu na altura e de que ainda gosto:

«As provas fáceis parecem-se todas; as difíceis são difíceis cada uma à sua maneira.»paráfrase de Tolstoi · 2022

Correr contra o absurdo

Fica a pergunta que todas as ultras acabam por fazer: para quê? A minha resposta, em 2022, era existencialista e sem ilusões. Não há prémio cósmico à espera — «Serei um pequeno risco à escala de Planck na fábrica do espaço-tempo» — e Camus tinha razão sobre a revolta da carne ser o absurdo. E, no entanto:

O balanço, em três linhas

«Não há redenção, não há salvação. No entanto uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano. Para conseguir ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia.»

É esta a economia real do ultra trail: não salva, mas dá sentido suficiente para continuar.

A prospetiva de 2022 — e o que veio depois

Em julho de 2022 deixei a década em aberto, com duas opções para 2023 — os circuitos nacionais portugueses ou uma ultra na Patagónia — e uma regra aprendida à força: «Desejo fazer as coisas com pés e cabeça para que não volte a ficar um ano praticamente parado.»

O epílogo, que a edição estendida pode agora contar: em 2023 o objetivo internacional foi o Gran Trail Courmayeur (100 km nos Alpes), e terminou em DNF ao km 73, com o corpo vazio. Não foi a Patagónia nem os nacionais; foi mais uma lição sobre os limites — e sobre «abandonar a tempo», que é também o sistema a funcionar.

Mas o revés maior não veio de uma prova. Uma lesão grave no joelho direito obrigou-me a desistir do UTAX (Ultra Trail Aldeias do Xisto) de 2024. Em setembro de 2025 fui operado — retiraram-me o menisco externo desse joelho. Desde então não tenho conseguido voltar a correr, sobretudo em descida.

É a primeira interrupção de toda esta trajetória que não é uma escolha de calendário nem uma crise pessoal, mas uma limitação física de fundo. O desejo que escrevi em 2022 — «que esta lista continue a crescer até bem dentro da década de 2040» — mantém-se; mas passou a depender de um joelho, e de uma recuperação que ainda estou a fazer. A década seguinte continua a escrever-se — agora, também, num registo clínico.

Leitura crítica

Este é um balanço, e os balanços embelezam. O texto de 2022 é literário e existencial — escolhe as citações que dão sentido à trajetória e arruma o caos numa narrativa. Vale como testemunho de voz, não como prova de nada: a filosofia é minha, as montanhas não têm opinião, e o «sentido» de que falo é uma construção pessoal, legítima mas não transferível.

Limites e lacunas desta versão

O que ressalvar
  • A camada filosófica é auto-interpretação, não análise.
  • Os números da década vêm do registo pessoal (exceto EstrelAçor 2020); a base de dados está nos Dossiês 01–03.
  • O total «46 ultras terminadas» é o do post de 2022 e fica por reconferir contra o ficheiro.
  • O post original é de 2022; o epílogo é acrescento de 2026 e pode ser continuado.

Convite ao contraditório e contributos

Contributos especialmente úteis
  • memória de quem correu comigo as provas da década (episódios, correções, fotografias);
  • o balanço de outros ultra-maratonistas de longa data — como leem a sua própria década;
  • a continuação da história pós-2023 (provas, objetivos, o que mudou).
Referências
[R1] Blog dorsal1967 — «Uma Década de Trail Ultra Endurance XL» (julho de 2022): retrospetiva da década; citações verbatim.
[R2] 63 ULTRAS.xlsm — ficheiro pessoal de provas (as 8 de 100 milhas e as 46 ultras terminadas).
[R3] Dossiês 01 (cronologia), 02 (treino) e 03 (como é fazer uma 100 milhas) da série Acervo de Endurance.
[R4] EstrelAçor 2020 — classificação oficial (O Mundo da Corrida): 180 km / 100 Milhas ITRA, neutralizada por tempestade; último controlo aos 141,7 km em 31h51m09s.
[R5] Blog dorsal1967 — Gran Trail Courmayeur 2023 (DNF ao km 73): usado no epílogo.
[R6] UTMB World — perfil público do autor (46818.luismiguel.matosferreira): corrobora as provas da década (tempos e classificações).
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Se corres provas longas há anos, como lês a tua própria década? E se correste comigo alguma destas provas, os comentários abaixo são o sítio certo para a tua memória, uma correção ou uma fotografia.
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