De sub-3 na maratona às 57 horas na Ronda: uma cronologia pessoal de endurance

De sub-3 horas na maratona às 57 horas na Ronda dels Cims: uma cronologia pessoal de endurance construída ao longo de mais de três décadas — 154 provas, 63 ultras, 6 213 km de competição.

Série · Acervo de Endurance · Dossiê 01

De sub-3 na maratona às 57 horas na Ronda

Uma cronologia pessoal de endurance — 154 provas, 63 ultras, 6 213 km de competição e 207 926 m de desnível, ao longo de mais de três décadas.

📍 Portugal & Europa 📅 1985–2022 📚 Dossiê 01 · Acervo de Endurance ✍️ Luís Matos Ferreira
Maratón de Sevilla 2012 — a chegada em 2h57m · arquivo pessoal de Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Cronologia construída a partir do arquivo próprio — os ficheiros 230616_TREINO_NOVO.xlsx e 63 ULTRAS.xlsm. Os números são aproximações fiáveis a partir desses ficheiros, não validação externa oficial dos resultados. É a base de dados; os Dossiês seguintes leem o treino, o "como é" e o balanço.
Série · Acervo de Endurance Primeiro dossiê da série pessoal de endurance. Lê-se em diálogo com o Dossiê 02 (treino), o Dossiê 03 (como é fazer uma 100 milhas) e o Dossiê 04 (o balanço da década).

Há uns meses decidi abrir os ficheiros Excel onde fui registando, ao longo dos anos, as provas que fiz. Juntos constroem algo que não esperava encontrar com tanta nitidez: uma base de dados autobiográfica de endurance.

São dois ficheiros — 230616_TREINO_NOVO.xlsx e 63 ULTRAS.xlsm — com três camadas fortes. A primeira é uma cronologia competitiva: estrada, trail, natação, triatlo, swimrun, trekking. A segunda é um histórico de ultras que não é um capricho ou uma fase, mas uma trajectória sólida com várias provas de 100 km, 100 milhas e internacionais. A terceira — e esta surpreendeu-me — são dados mensais e anuais de treino suficientemente completos para perceber a relação entre volume, D+, forma e resultados.

Nota metodológica

A folha Corridas contém a lista cronológica principal e, mais abaixo, várias tabelas-resumo por distância e tipo. Para evitar duplicações, usei como base da análise apenas a lista cronológica inicial, até ao TransPenedaGerês TPG 168k. Os números devem ser lidos como aproximações fiáveis a partir do ficheiro, não como validação externa oficial de resultados. Muitas das provas de trail estão, ainda assim, corroboradas pelo meu perfil público no UTMB World.

Os números principais

A folha Corridas regista 154 provas entre 11 de maio de 1985 e 3 de junho de 2021. Estes são os valores de topo:

Provas na lista cronológica principal154
Período coberto1985-05-11 a 2021-06-03
Distância total em prova6 213,3 km
Tempo total em prova795h36m09s
Desnível positivo total207 926 m D+
Ano com mais provas2011 — 30 provas
Ano com maior distância competitiva2012 — 814,7 km
Ano com maior D+ competitivo2014 — 33 548 m D+

A distribuição por tipo de actividade conta a história com clareza:

TipoProvasDistância (km)D+ (m)Tempo
Estrada801 695,911 623138h25m
Trail624 156,0185 321648h14m
Natação46,401h32m
Trekking3200,010 500
Swimrun226,03401h47m
Triatlo1113,01005h37m

A estrada domina em número de eventos — 80 provas contra 62 de trail — mas o trail domina em tudo o resto: distância, desnível, tempo. Os 185 000 m D+ acumulados em provas de trail equivalem a subir o Evereste mais de vinte vezes a partir do mar. É aí que está o peso real da trajectória.

Cinco fases de uma mesma trajectória

Ao olhar para os dados, consigo identificar cinco fases com características próprias. Não são fronteiras rígidas — sobrepõem-se, cruzam-se, repetem padrões — mas ajudam a ler o percurso com coerência.

Fase 1 — Base e entrada na corrida organizada

A fase inicial é de estrada: meias maratonas, 10 km, Grande Prémio Fim da Europa. Há registos mais antigos e pontuais, mas a regularidade competitiva começa mais tarde. O primeiro registo do ficheiro data de 1985; a densidade competitiva séria começa a ganhar forma por volta de 2009.

Fase 2 — Estrada com melhoria clara de performance (2009–2012)

Entre 2009 e 2012 há uma progressão nítida. Os melhores tempos de estrada concentram-se aqui: 10 km abaixo de 38 minutos, meia maratona em 1h23m58s, maratona abaixo das 3 horas. Esta fase mostra algo importante: a passagem para a ultra não ocorreu por ausência de velocidade, mas depois de uma base sólida de corrida em que os resultados eram competitivos.

Fase 3 — Transição para trail e ultras (2010–2012)

A partir de 2010 entram as primeiras provas de trail longo. O salto é rápido: 43 km, 52 km, 70 km, 79 km, 100 km e 168 km aparecem num período muito curto. O ano de 2012 é particularmente denso: junta volume competitivo, resultados fortes e o primeiro contacto com provas longas internacionais.

Fase 4 — Ultra internacional (2012–2016)

Entre 2012 e 2016 aparecem as provas que definem a fase mais forte da trajectória: Ehumilak, GRP, VCUF, MIUT, UTMB, UTAT, Eco Madeira. São provas de referência, em territórios diferentes, com condições muito distintas. É aqui que a identidade de atleta de ultra-endurance internacional se consolida.

Fase 5 — Persistência, regresso e memória longa (2018–2022)

O período 2018–2022 mostra outra camada: não é apenas a fase do pico competitivo, mas a continuidade. Ronda dels Cims 2019, EstrelAçor 2020, TransPenedaGerês 2021, Duratrail 2022. Provas que mostram que isto não foi um episódio. Foi uma escolha de vida.

Os resultados que ficaram

A tabela de melhores resultados por percentagem do pelotão é uma das leituras mais honestas do que foi o percurso competitivo. Permite comparar provas com escalas muito diferentes.

DataProvaDist. (km)TempoClass.% pelotão
2012-05-05Oh Meu Deus587:01:071/442,3%
2011-09-145K@EASD50:18:1621/7442,8%
2012-03-25Meia Maratona de Lisboa21,11:23:58222/69753,2%
2011-10-16Corrida do Sporting100:37:54110/33203,3%
2011-12-04Maratona de Lisboa42,22:57:5459/13414,4%
2012-05-19Ultra Trail de São Mamede (100 km)10013:03:1211/1955,6%

O resultado mais forte em classificação absoluta é a vitória no Oh Meu Deus 2012 — 58 km, 1.º lugar em 44 finishers, 7h01m07s. É simultaneamente uma vitória absoluta e uma prova de longa distância. Merece destaque próprio.

As 63 ultras — o coração do acervo

O ficheiro 63 ULTRAS.xlsm regista 63 provas longas, entre 6 de dezembro de 2009 e 22 de outubro de 2022. Os números de conjunto são impressionantes:

Número de provas63
Distância total4 594 km
Tempo total em prova761h09m38s
Média por prova72,9 km / 12h41m
Provas de 100 km ou mais15
Provas de 160 km ou mais7

A distribuição por escalão de distância conta ainda melhor a história:

Escalão de distânciaN.º de provas
42–49 km26
50–69 km14
70–99 km8
100–159 km8
160 km+7

Nove encontros com a distância longa

Esta é a parte do acervo que considero mais rica para contar uma história. Não apenas pelos resultados, mas pela diversidade de territórios, condições e circunstâncias. Beasain, Pirenéus, Puigcerdà, Chamonix, Funchal, Andorra, Açores, Peneda-Gerês — cada um destes lugares representa um capítulo diferente.

DataProvaLocalDist. / D+CondiçõesTempoClass.
2012-07-13EhumilakBeasain168 km / 11 000 mChuva / 14º39h42m47s55/112
2013-08-23GRPPirinéus161 km / 9 766 mChuva / 14º36h42m46s103/436
2014-06-06VCUFPuigcerdà214 km / 10 000 mSol / 30º40h50m18s13/42
2015-08-29UTMBChamonix170 km / 10 000 mSol / 35º39h24m46s626/1632
2016-11-25Eco MadeiraFunchal170 km / 7 000 mSol36h03m27s11/13
2017-07-07Ronda dels CimsAndorra170 km / 13 500 mSol / 15ºDNFDNF
2019-07-19Ronda dels CimsAndorra170 km / 13 500 mSol / 16º57h00m34s156/210
2020-10-23EstrelAçorPenhas / Açores142 km / 6 850 mChuva / 7º31h51m09s33/42
2021-06-03TransPenedaGerêsPeneda-Gerês166 km / —37h43m06s56

Duas linhas desta tabela merecem atenção separada. A VCUF em 2014 — 214 km em Puigcerdà — é a prova mais longa do acervo; um percurso de 40 horas em calor de 30 graus que terminou em 13.º lugar de 42 finishers. A Ronda dels Cims em 2019 é o esforço mais longo registado: 57 horas em Andorra, com 13 500 m de desnível positivo. E antes dela, em 2017, na mesma prova, um DNF. Dois anos depois, a Ronda estava feita. Isso conta uma história de carácter que nenhuma estatística consegue substituir completamente.

Memória das provas, para lá dos números. Onde o ficheiro guarda apenas tempos e classificações, ficaram aqui no blog os relatos de cada uma destas provas. A Ehumilak de 2012 foi a minha primeira 100 milhas — escrevi-a em três partes, com Álvaro de Campos e o Adamastor à mistura; dias depois ainda tinha dores e um dedo grande do pé dormente. O UTMB de 2015 foi o mais duro de todos: bati no muro ao quilómetro 136, debaixo de sol e 35 graus. A Ronda dels Cims de 2019, contei-a numa série longa, da preparação ao epílogo — o regresso à prova que me tinha derrotado em 2017. São relatos pessoais, escritos na altura; servem de memória e de datação, não substituem os resultados oficiais das organizações, que continuam por cruzar.

O treino que explica os resultados

A folha Dados contém um resumo anual de treino entre 2009 e 2020. Estes dados têm um valor que vai além dos números: permitem perceber a relação entre carga, volume e resultados competitivos.

Corrida acumulada (2009–2020)43 300,4 km
D+ acumulado853 801 m D+
Natação acumulada734,0 km
BTT acumulado2 616,7 km
Tempo Garmin acumulado4 889 horas

A leitura por anos revela duas tendências claras:

  • 2011–2014 são os anos de maior volume de corrida em km — mais de 4 000 km por ano.
  • 2015–2016 e 2019–2020 mostram a especialização em montanha: menos km, mas D+ muito mais elevado.

O mês mais impressionante de todo o registo é junho de 2015: 522,8 km e 20 792 m D+ numa única bacia mensal, em 78 horas e 46 minutos de actividade. Provavelmente associado à preparação do UTMB desse ano. (Este eixo é desenvolvido no Dossiê 02.)

O que fica

Há três ideias que ficaram quando fechei os ficheiros.

A primeira é que havia velocidade real antes da ultra. Os 10 km abaixo de 38 minutos, a meia maratona em 1h23m58s e a maratona em 2h57m54s não são o percurso de alguém que foi para a ultra porque não conseguia correr depressa. São a base sobre a qual a ultra foi construída.

A segunda é que a passagem de estrada para ultra foi rápida e decisiva. Num período de dois a três anos, o centro de gravidade deslocou-se completamente: do cronómetro para a montanha, da eficiência para a resistência, da estrada para o D+.

A terceira é que não foi uma fase. Foi uma escolha continuada durante mais de uma década. As 63 provas longas, as 100 milhas, os blocos internacionais e os dados de treino mostram uma história de muitos anos — com picos, com recuos, com um DNF e um regresso à mesma prova dois anos depois — mas sempre no mesmo sentido.

«De sub-3 na maratona às 57 horas na Ronda» não é apenas um título. É a trajectória, toda ela, contida numa linha.

Convite ao contraditório e contributos

Contributos especialmente úteis
  • correções a datas, tempos ou classificações a partir de resultados oficiais das provas listadas;
  • memória de quem correu as mesmas provas (Ehumilak, GRP, VCUF, UTMB, Eco Madeira, Ronda, EstrelAçor, TPG);
  • fotografias das provas da cronologia.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Os números deste post vêm dos meus próprios ficheiros de registo, não de resultados oficiais. Se reconheces alguma destas provas, ou se vires imprecisões em datas, tempos ou classificações, o teu contributo ajuda a tornar este registo mais rigoroso.
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