Portugal e a ITRA / UTMB: a régua, as pedras e os dois caminhos
Portugal e a ITRA / UTMB World Series: um português entre os 14 fundadores da ITRA, o MIUT no Ultra-Trail World Tour e no World Trail Majors, o Oh Meu Deus como primeira prova portuguesa «by UTMB» — e o ranking ITRA no apuramento dos campeonatos nacionais.
Portugal e a ITRA / UTMB: a régua, as pedras e os dois caminhos
Um português esteve na fundação do sistema que mede o trail mundial. Uma década depois, as provas portuguesas dividem-se entre a independência e a franquia — e a régua internacional já decide quem disputa os títulos nacionais.
(1 português)
no UTWT
no UTWT
«by UTMB»
ITRA (contagem própria)
O trail português não «aderiu» simplesmente aos sistemas internacionais — esteve na sala onde um deles foi fundado. E hoje é terreno onde os dois modelos rivais do trail mundial se confrontam em casos concretos: o MIUT escolheu a independência; o Oh Meu Deus, a franquia. Entretanto, a régua internacional entrou em casa: o ranking ITRA ajuda a decidir quem disputa um título nacional.
Declaração de interesses
Quem escreve é cofundador da ATRP e partilhou a direcção fundadora (2012–2015) com José Carlos Santos, o português da fundação da ITRA — a proximidade a uma das figuras centrais deste dossiê é máxima e fica declarada (o retrato institucional dele está no Dossiê 43). Também Rui Pinho, hoje vice-presidente da ITRA, presidiu à ATRP (2016–2025), instituição de que o autor foi dirigente até 2016.
O autor é ainda utilizador dos dois sistemas aqui descritos: tem índice ITRA e UTMB Index como qualquer praticante, e correu o UTMB em 2015, qualificado com pontos somados em provas portuguesas. As memórias pessoais ficam identificadas como tal; tudo o que é institucional apoia-se em fontes públicas citadas. [R1][R3]
1. Antes da régua comum: cada prova era o seu próprio mundo
Quando o trail moderno arranca em Portugal (2006–2012, na genealogia do trail de influência UTMB), não existia forma padronizada de comparar provas ou atletas entre países: cada prova definia a sua distância «real», o seu desnível anunciado e o seu prestígio. O que começou a impor uma régua foi, antes de mais, a qualificação para o UTMB — criado em 2003, o Ultra-Trail du Mont-Blanc passou a exigir pontos obtidos em provas qualificadoras, e essa lista tornou-se, na prática, a primeira hierarquia internacional a que as provas portuguesas quiseram pertencer. [R13][R23] A discussão sobre quem devia gerir essa régua fez-se em Courmayeur, na 1.ª Conferência Internacional de Trail Running (Setembro de 2012) — a mesma conferência em que a recém-nascida ATRP participou, onze dias antes da sua escritura (Dossiê 43). [R1]
2. A ITRA — e o português que estava lá (2013)
A International Trail Running Association (ITRA) nasce em Julho de 2013 (acto constitutivo de 1 de Agosto, sede na Suíça), com catorze membros fundadores listados nominalmente na sua página histórica — entre eles «José Carlos MORAIS DOS SANTOS, Trail-Runner and President of the Association Trail-Running Portugal». [R1][R2] Não era um lugar decorativo: em 2019, José Carlos Santos era um dos dois fundadores com assento permanente no Steering Committee e um dos quatro vice-presidentes; em Abril de 2020 foi nomeado managing director da associação. [R3][R4] O próprio relatório da ITRA de 2021 nota que dez dos catorze fundadores eram colegas ou amigos franceses da família Poletti [R9] — o que torna a presença de um português no núcleo fundador ainda mais singular. A ligação portuguesa à governação da ITRA nunca se interrompeu: Rui Pinho, presidente da ATRP entre 2016 e 2025, figura hoje como vice-presidente. [R3]
O que a ITRA construiu foi a régua: desde Abril de 2014, avalia percursos pelo km-esforço (distância + desnível positivo/100) e atribui a cada prova 0 a 6 pontos; a cada atleta, um Performance Index (média ponderada dos cinco melhores resultados em 36 meses, numa escala até ~1000 pontos); a cada percurso, um «mountain level» de 1 a 12. [R6][R8] O modelo de financiamento é modesto e está publicado: listar provas e carregar resultados é gratuito; a avaliação de percurso exige subscrição de organizador — hoje entre 100 € e 550 € por ano, conforme a receita de inscrições (em 2016, 100 € por prova para não-membros); a quota individual de atleta é 8 €/ano. [R6][R7][R9] Em 2021, o sistema classificava 1,8 milhões de corredores de 163 paísesest. [R9]
No plano institucional, a ITRA foi também o veículo do reconhecimento federativo internacional: em Agosto de 2015, o Congresso da IAAF em Pequim acrescentou o trail running à própria definição de Atletismo [R10]; em 2018, IAAF, ITRA e WMRA criaram os Campeonatos do Mundo conjuntos de corrida de montanha e trail, com a ITRA como parceiro técnico [R11] — a linha que atravessa os Mundiais disputados em Portugal (Dossiê 05).
Neste dossiê, «ITRA» designa o sistema de avaliação e ranking (a régua); «UTMB World Series» designa o circuito comercial de provas (o balcão). São coisas distintas e, desde 2021, concorrentes — mas foram geridas, até essa data, por pessoas e empresas próximas entre si, e é essa história que se segue.
3. Do UTWT ao UTMB World Series: o circuito muda de natureza (2014–2022)
O primeiro circuito mundial de provas foi o Ultra-Trail World Tour (UTWT), anunciado no fim de 2013 e corrido a partir de 2014 com dez provas — só ultras de referência (≥100 km, ~500+ participantes, 20+ nações). [R13] O UTWT era um clube de provas; a partir de 2019, a gestão do UTMB assumiu o controlo da sociedade que o geria [R15], e em Maio de 2021 o UTMB Group anunciou, com o Ironman Group, a criação do UTMB World Series — o UTWT fez a última época em 2021 e dissolveu-se nele. [R15][R18]
A mudança não foi só de nome; foi de modelo. O World Series arrancou em 2022 com 25 provas licenciadas «by UTMB» em 16 países (56 097 corredores nesse primeiro ano) e chegou a 2026 com 64 provas nos cinco continentes. [R19][R21] O mecanismo desportivo-comercial tem duas peças, e a distinção é o coração deste dossiê: o UTMB Index — herdeiro directo do índice ITRA — é universal e gratuito, obtém-se em «milhares de provas» avaliadas, dentro ou fora do circuito [R20][R22]; as Running Stones — as entradas no sorteio das finais de Chamonix — só se ganham em provas do circuito. [R20] Ou seja: qualquer prova portuguesa pode dar o Index exigido; mas a chave do sorteio do UTMB é exclusiva de quem paga a licença do circuito. A qualificação, que era uma lista aberta de provas pontuadas, tornou-se uma alavanca comercial.
Pelo meio deu-se a ruptura ITRA–UTMB (2021), que explica por que existem hoje dois índices quase gémeos. Na versão da própria ITRA — fonte primária, mas parte interessada, e assim se assinala —, a propriedade intelectual central (sítio, sistema administrativo e o próprio Performance Index, criado e detido por Didier Curdy, cofundador próximo dos Poletti) ficara na esfera do UTMB Group; proposta a renovação da licença «a preço superior», a ITRA recusou, deixou caducar o acordo e reconstruiu a plataforma e o índice com novo fornecedor. [R9] O UTMB lançou o seu UTMB Index com a colaboração de Curdy; a ITRA refez o seu por método próprio — semelhantes, mas não idênticos. [R23] Já antes, em 2020, Michel Poletti se demitira da presidência da ITRA invocando o conflito de papéis com a gestão do UTMB. [R5]
4. As provas portuguesas nos circuitos mundiais
4.1 O MIUT no UTWT (2015–2021)
A primeira prova portuguesa a entrar num circuito mundial foi o MIUT (Madeira Island Ultra-Trail, Clube de Montanha do Funchal): em 2015 com o estatuto de «future race», tornando-se prova de pleno direito em 2016 (categoria UTWT 1500). [R14][R16] (O artigo-base da série regista «2015 — entrada no UTWT» sem esta nuance, e chama «finishers» aos 1 329 de 2015, que as fontes descrevem como participantes — correcção Modo A registada em ERRATA.md.) O efeito é visível na série de participação do arquivo da organização: 749 participantes em 2014, 1 329 de 36 países em 2015, 2 041 de 41 países em 2016, até aos 2 724 de 2019, com inscrições a esgotar em horasest. [R16] A internacionalização não parou com o fim do circuito: 2024 fechou com um recorde de ~3 481 inscritos (dois terços estrangeiros) e 2025 com um recorde de 67 nacionalidadesest. [R27]
E houve uma segunda prova portuguesa no UTWT, hoje quase esquecida nesta história: o Whalers' Great Route Ultra-Trail (Azores Trail Run, ilha do Faial, 118 km) integrou o circuito na categoria «Discovery» — o ano exacto de entrada está por confirmar em fonte primária (lacuna assumida; o antigo sítio do UTWT está inacessível e o domínio foi entretanto reaproveitado). [R17]
4.2 Depois de 2021: os dois caminhos
Com o fim do UTWT, cada prova teve de escolher o seu lugar no novo mapa — e os dois casos portugueses tomaram, com três anos de intervalo, caminhos opostos.
O MIUT escolheu a independência. Em 13 de Novembro de 2023, o Clube de Montanha do Funchal anunciou o MIUT como prova fundadora do World Trail Majors — o circuito alternativo, constituído como associação sem fins lucrativos por nove provas independentes (Hong Kong 100, Transgrancanaria, Mt. Fuji 100, Ultra-Trail Cape Town, entre outras), com quota igual por prova e saída livre, autodescrito como «uma abordagem diversificada, respeitadora, sustentável e independente do trail e ultra-trail». [R24][R25]
«É uma honra e um privilégio» integrar «uma prestigiosa colecção de corridas que personificam o verdadeiro espírito do trail running.»
— Sidónio Freitas, director de prova do MIUT, sobre o World Trail Majors (DNotícias, 13/11/2023) [R24]Note-se a nuance que desfaz uma leitura simplista: o MIUT continua listado como prova do UTMB Index — os seus finishers obtêm o índice que o sorteio de Chamonix exige (o Index é gratuito para organizadores) —, mas não atribui Running Stones. [R22][R26] Independência não é isolamento; é ficar fora do balcão, não da régua.
O Oh Meu Deus escolheu a franquia. Em Outubro de 2025, o UTMB anunciou o «Oh Meu Deus – Ultra Trail Centro Portugal by UTMB» — a primeira prova portuguesa do UTMB World Series, com estreia no circuito a 1–3 de Maio de 2026, na 15.ª edição do evento. Organizada pela Horizontes – Turismo Desportivo, com base em Seia e direcção de prova de Paulo Garcia, a prova atravessa as serras da Estrela, do Açor e da Lousã, com quatro distâncias alinhadas pelas categorias do circuito (20K, 50K, 100K e 100M — esta com ~166 km e ~8 900 m de desnível). [R28][R29] A adesão fez-se de mão dada com o Turismo Centro de Portugal, que a apresentou como afirmação do «destino» no turismo activo — com narrativa explícita de recuperação do território pós-incêndios [R30] — e o mercado respondeu: a primeira fase de inscrições esgotou em menos de quatro horas (1 583 atletas, 490 estrangeiros de 46 países)est [R31]; a edição de estreia terá reunido ~2 000 inscritos de 62 nacionalidades, com ~1 672 finishers a somar 3 459 Running Stonesest — números de imprensa especializada, por cruzar com os resultados oficiais. [R32]
O MIUT (prova-bandeira consolidada, inscrições esgotadas por si) pôde escolher a independência e ajudar a fundar um circuito de organizadores; o Oh Meu Deus (prova com quinze edições num território de baixa densidade, com o turismo regional como parceiro estrutural) escolheu a marca global que garante procura internacional imediata. Nenhuma das escolhas é irracional; cada uma diz de onde a prova parte e o que precisa. É o debate mundial sobre o modelo UTMB — reduzido, em Portugal, a dois casos concretos e documentados.
Para desfazer um equívoco que a própria pesquisa deste dossiê trazia: não existe nenhuma prova «Madeira Ocean Trails by UTMB». «Madeira Ocean & Trails» é uma marca de promoção turística da Associação de Promoção da Madeira (presente, por exemplo, em Chamonix durante a semana do UTMB); e «The Madeira Ocean Trail — GTWS Final 2022» foi a final do Golden Trail World Series — circuito da Salomon, não do UTMB. [R39]
5. A régua dentro de casa: o sistema ITRA no trail português
A relação de Portugal com estes sistemas não se esgota nas provas-montra; entrou no aparelho competitivo doméstico. Os regulamentos da FPA para os Campeonatos Nacionais de Trail e de Trail Ultra Endurance de 2026 admitem o apuramento individual por «Ranking ATRP ou ITRA», com limiares explícitos — índice ITRA ≥ 800 pontos (masculino) e ≥ 630 (feminino) —, e o Regulamento Geral da ATRP fixa o mesmo critério. [R33][R34] Ou seja: a régua desenhada em Chamonix e Paudex ajuda hoje a decidir quem pode disputar um título nacional português. O Dossiê 43 desta série já tinha registado o outro lado: a certificação de provas da ATRP foi construída «de tipo ITRA», e o ranking ITRA é uma das vias de apuramento também para a Taça de Portugal.
Quanto à dimensão: uma consulta directa à base pública da ITRA (5/7/2026, filtro por país) devolve 836 edições de provas portuguesas listadas entre 2012 e 2027 — 699 delas com pontos atribuídos, das quais 20 com a pontuação máxima de 6 pontos; o registo português mais antigo é um MIUT de 2012, avaliado retroactivamente.est (Contagem do autor sobre a listagem pública, não publicada pela ITRA — inclui edições futuras e não distingue avaliações pagas de simples listagens.) [R12] O número de corredores portugueses no ranking ITRA não foi possível apurar sem conta na plataforma (lacuna).
Do lado de quem corre, a régua chegou primeiro que os circuitos: quando me qualifiquei para o UTMB de 2015, os pontos somaram-se em provas portuguesas avaliadas para a qualificação — a lista de qualificadoras era, para muitos de nós, o primeiro mapa «internacional» do calendário português. (Memória do autor — Zona 3.)
6. O debate que em Portugal ainda não tem nome
Internacionalmente, o modelo UTMB/ITRA tem uma história de contestação documentada: em 2017, nove organizadores norte-americanos (incluindo a Hardrock 100) assinaram uma carta aberta contra o modelo «pay for points» — a que a ITRA respondeu que constar da lista de qualificadoras era gratuito e a avaliação custava 100 € [R37]; em 2021, a parceria com o Ironman foi recebida com desconfiança generalizada na comunidade [R18]; em Outubro de 2023, o anúncio de uma prova «by UTMB» em Whistler, no terreno e no fim-de-semana de uma prova local extinta, levou o organizador Gary Robbins a público e o UTMB a uma carta aberta de contrição parcial («we could have, and should have, been better here») [R35]; em Janeiro de 2024, um email privado de Kilian Jornet e Zach Miller aos trinta melhores atletas do ranking sondou alternativas ao circuito — não era uma carta aberta nem um apelo ao boicote, como o comunicado conjunto com o UTMB Group e a posição da associação de atletas profissionais (PTRA: «diálogo, não boicote») vieram clarificar. [R36]
Em Portugal, este debate quase não tem rasto escrito. A pesquisa desta sessão não encontrou artigos de fundo na imprensa generalista nem tomadas de posição públicas de organizadores portugueses sobre custos e condições dos sistemas internacionais; o termo «utmbização», corrente noutras línguas próximas, não aparece em fontes portuguesas. A voz crítica mais antiga localizada é um blog de 2017, que comparava o UTMB à «Microsoft dos anos 90» e falava da «vassalagem» das outras provas por causa dos pontos. [R38] A conclusão honesta não é que o debate não exista — é que, em Portugal, ele se fez por escolhas e não por manifestos: a decisão do MIUT (independência com Index) e a do Oh Meu Deus (franquia com turismo regional) são as duas posições do debate, tomadas em silêncio institucional. O que cada organizador pagou, ganhou e cedeu em cada caminho é exactamente o que falta documentar.
7. Lacunas e convite ao contraditório
Este dossiê assenta em fontes públicas verificadas a 5 de Julho de 2026. Ficam em aberto, por ordem de prioridade:
- A versão dos organizadores — a posição do Clube de Montanha do Funchal sobre a não-integração no UTMB World Series e a experiência da Horizontes/Oh Meu Deus com a licença «by UTMB» (condições, custos — que não são públicos —, contrapartidas).
- O ano exacto da entrada do Whalers' Great Route Ultra-Trail no UTWT e o seu estatuto formal — a dimensão açoriana desta história está subdocumentada.
- Quantos corredores portugueses têm índice ITRA/UTMB — o dado existe nas plataformas mas não é público sem conta.
- Números oficiais da edição de estreia do OMD by UTMB (partidas, finishers, Stones) — os valores citados vêm de imprensa especializada.
- O testemunho de José Carlos Santos sobre a fundação da ITRA — não foi encontrada nenhuma entrevista em português sobre o papel dele; é a maior história por contar deste dossiê.
- Adaptações concretas de provas portuguesas aos critérios externos (percursos, categorias km-esforço, regulamentos) — a tese da «pressão para adaptar formatos» fica, nesta versão, por demonstrar caso a caso.
Contactar: José Carlos Santos (fundação da ITRA, 2013; o índice e a relação com a IAAF); Sidónio Freitas / Clube de Montanha do Funchal (UTWT 2015, decisão World Trail Majors, relação com o UTMB Index); Paulo Garcia / Horizontes (processo e condições da adesão ao UTMB World Series, balanço da estreia de 2026); Mário Leal (papel na ITRA como membro organizador); organização do Azores Trail Run (entrada e experiência no UTWT Discovery). Compromisso: integrar as respostas como fonte primária, com consentimento e revisão de citações.
- A experiência de organizar uma prova avaliada pela ITRA — custos, processo, benefícios.
- Negociações (aceites ou recusadas) com o UTMB World Series por provas portuguesas.
- Documentação de época sobre o UTWT e as provas portuguesas (MIUT, Whalers' Great Route).
- A experiência de te qualificares para Chamonix a partir de provas portuguesas — antes e depois das Running Stones.
- O papel de José Carlos Santos e de outros portugueses na ITRA.
Correcções e memórias são bem-vindas nos comentários abaixo ou pelo contacto do blogue.
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