Trail e Desenvolvimento Local — o motor e a sua fragilidade
Trail e desenvolvimento local em Portugal: como uma prova enche os hotéis de uma vila do interior — e por que esse motor é frágil. O caso dos Trilhos dos Abutres (20.000 visitantes… e o cancelamento de 2026), a rede das Aldeias do Xisto, e a pergunta que é preciso não exagerar.
Trail e desenvolvimento local: o motor e a sua fragilidade
Para o interior, o trail trouxe visibilidade e visitantes que nenhuma política de turismo daria. Mas o impacto é desigual, temporário e dependente de voluntários — como o próprio caso dos Abutres demonstra.
Para algumas regiões de baixa densidade, o trail foi um instrumento de visibilidade e de atracção de visitantes que nenhuma política de turismo convencional lhes teria dado. Mas esse impacto é, ao mesmo tempo, desigual, temporário e frágil — e a prova mais bem-sucedida deste modelo em Portugal acaba de o demonstrar pela negativa.
Este é um dos temas onde a retórica corre mais depressa do que a evidência. As autarquias falam de «investimento» e de «retorno»; as organizações anunciam «milhares de visitantes»; e há muito número redondo que nunca foi medido. A disciplina deste dossiê é distinguir três coisas que costumam aparecer misturadas: o número medido (por um estudo, uma contagem, um registo de dormidas), a estimativa da organização (útil, mas parte interessada) e a afirmação promocional (que não é evidência de nada).
1) O modelo: como uma prova gera desenvolvimento local
O mecanismo é simples de descrever. Uma prova de trail traz, a um território, três coisas que ele normalmente não tem: gente, visibilidade e calendário. Gente, porque um ultra reúne atletas que chegam com famílias e equipas, ficam duas ou três noites, comem, dormem e compram — muitas vezes fora da época alta, quando o alojamento rural estaria vazio. Que essa gente fica, e não apenas passa, tem alguma base medida: num inquérito a 400 praticantes para uma dissertação de turismo, 356 declararam permanecer dias extra no destino para além da prova. [R20] Visibilidade, porque as imagens da serra circulam, e um concelho que ninguém procurava no mapa passa a ser «o do trail». E calendário, porque uma data fixa dá às aldeias um acontecimento anual à volta do qual se organizam — restauração, comércio, associações, voluntariado.
A este mecanismo económico soma-se um efeito identitário, mais difícil de medir mas real: uma comunidade que se habitua a receber, a mostrar os seus caminhos e a ser reconhecida por eles. Não é pouco, num interior habituado a ser narrado pelo que perde.
2) O caso-âncora: os Trilhos dos Abutres
Nenhum caso português ilustra melhor o modelo — na sua força e na sua fragilidade — do que os Trilhos dos Abutres, em Miranda do Corvo, na Serra da Lousã e nas Aldeias do Xisto. Os números que a própria organização e a câmara avançam são a definição do modelo em acção: cerca de 1.500 atletas de quinze nacionalidades e, ao longo dos quatro dias do evento, perto de 20.000 visitantes; as unidades hoteleiras do concelho e das regiões vizinhas «esgotadas durante o fim-de-semana». [R447] O presidente da câmara, Miguel Baptista, resumiu a leitura autárquica sem rodeios: a prova tem «impacto extraordinariamente positivo a nível económico e turístico». E a autarquia não se limita a aplaudir: apoia com reforço financeiro, apoios logísticos e de infraestruturas, e chegou a suportar os custos da transmissão em streaming — uma inovação nacional no trail. [R447]
3) A fragilidade, no mesmo caso
E aqui a história dá a volta que dá a este dossiê o seu título. A 15 de Setembro de 2025, a Associação Abútrica anunciou que os Trilhos dos Abutres não se realizariam em 2026 — «não estão reunidas as condições necessárias», sem mais detalhe. [R448] A imprensa descreveu o que se perdia: «uma das provas míticas do trail running nacional, com um forte impacto na economia local de Miranda do Corvo». O presidente da associação, Hugo Cabral, deixou a porta aberta a um regresso em 2027. [R448]
Repare-se no que isto significa. A prova que a câmara trata como motor económico, que enche os hotéis e que dá ao concelho a sua marca, pode desaparecer de um ano para o outro — não por falta de procura (as inscrições esgotavam «em tempo recorde»), mas por esgotamento das condições de quem a organiza. É a demonstração mais nítida da tese: um modelo de desenvolvimento assente num único evento, sustentado por voluntários, é um modelo com um único ponto de falha. Quando a prova pára, pára com ela o «investimento» que a autarquia celebrava — e o território não tem, tipicamente, nada que o substitua.
4) A rede como resposta: as Aldeias do Xisto
Se o problema é a dependência de um só evento, a resposta mais interessante que Portugal produziu é a de integrar o trail numa rede territorial mais larga — e o exemplo é o das Aldeias do Xisto. Aqui, o AXtrail/UTAX não é um evento isolado, mas uma peça de uma estratégia de desenvolvimento gerida por uma agência dedicada (a ADXTUR), que articula 28 aldeias de xisto — treze na Serra da Lousã, cinco na Serra do Açor, seis ao longo do Zêzere, quatro junto ao Tejo-Ocreza —, todas com percursos pedestres homologados. [R449; cf. Dossiê 16] O trail entra aqui como instrumento simultaneamente desportivo, turístico e de mobilização comunitária, e não como fim em si.
A ADXTUR é, de resto, uma máquina institucional considerável — reúne cerca de 230 entidades e 20 municípios, com a missão declarada de «gerar actividade económica e emprego a partir do turismo» e de fixar população contra o abandono rural. [R449] E os sinais de que a estratégia produz efeito existem, ainda que dispersos: quando se soube que o UTAX arrancaria de Castanheira de Pêra, o presidente da câmara, António Henriques Antunes, contou que o alojamento do concelho esgotou «em menos de 24 horas» [R453]; e Vila de Rei, outra porta da rede, registou em 2024 um aumento de cerca de 50% nas dormidas turísticas. [R449]
É preciso, ainda assim, ser honesto sobre o que estes sinais são: nenhum deles isola o contributo do trail. O aumento das dormidas de Vila de Rei não é atribuível só à prova, e a rede nunca publicou números que separem o que o UTAX gera do resto da sua actividade. São indícios, não medições — mas são o tipo de indício que um modelo de rede permite acumular e que um evento isolado não deixa. A diferença entre os dois modelos é a diferença entre um pico e uma base: o evento dá o pico; a rede tenta construir a base que sobrevive ao pico.
5) O papel das autarquias
Do lado do poder local, o trail passou de curiosidade a linha de estratégia — e a Madeira dá o exemplo com os dois números que definem todo este tema. Para o Secretário Regional do Turismo, Eduardo Jesus, o apoio ao MIUT «não é um custo, é um investimento»: é «o evento que mais multiplica a visibilidade externa da Madeira». [R452] Atrás da frase estão dois números, e a distância entre eles é a lição. De um lado, o número medido e oficial: para a edição de 2023, o Governo Regional autorizou um apoio público que «não excederá 85.000 euros», enquadrado como «promoção e divulgação do destino Madeira» — está no Jornal Oficial da Madeira, é auditável. [R450] Do outro, o número estimado pela organização: um estudo encomendado avaliou o impacto económico dessa edição em cerca de 5,3 milhões de euros — 3,5 milhões deixados por atletas e acompanhantes em alojamento e restauração, uns 2.300 € por atleta —, além de 1.227 atletas a visitar a ilha pela primeira vez. [R451]
O par é irresistível — 85 mil euros de apoio, 5,3 milhões de retorno — e é exactamente por isso que exige cautela. O primeiro número é auditável; o segundo é uma estimativa de parte interessada, sem estudo independente que a confirme. Não os ponho lado a lado para os igualar em estatuto, mas para expor a assimetria que atravessa todo o tema: muita retórica de retorno, pouca medição auditada. É a doutrina do «investimento» que sustenta o apoio camarário em todo o país, e que no caso dos Abutres chegou a pagar a transmissão online [R447]; repete-se de norte a sul — em Seia, o «Ultra Trail Centro Portugal by UTMB» é saudado pelo Turismo Centro de Portugal como aposta no «turismo activo e sustentável» (1.583 atletas, 490 estrangeiros de 46 países) [R454], e nos Açores o Governo Regional classifica a Azores Trail Run como «evento estratégico» para atenuar a sazonalidade [R455]. A virtude é reconhecer que um euro de apoio pode voltar multiplicado ao comércio local. O risco é a autarquia confundir apoiar com depender: quando o «investimento» municipal se torna a condição de sobrevivência da prova, e a prova a condição de visibilidade do concelho, cria-se uma dependência mútua que a interrupção de qualquer dos lados faz ruir. O que falta, quase sempre, é a medição independente do retorno — sem a qual «investimento» é apenas uma palavra mais simpática do que «despesa».
6) Trail e desertificação: a pergunta que é preciso não exagerar
Chegamos à pergunta mais sedutora e mais perigosa deste tema: pode o desporto de natureza travar o esvaziamento do interior? A resposta honesta tem duas partes. A primeira é o que está documentado: o trail dá visibilidade a territórios de baixa densidade e traz visitantes em época baixa, e ambas as coisas têm valor económico real. A segunda é o que não está documentado: não se localizou qualquer estudo que mostre que uma prova de trail tenha fixado população, criado emprego permanente ou invertido, de forma mensurável, a trajectória demográfica de um concelho do interior. Visibilidade e visitantes não são o mesmo que habitantes. Uma prova enche a vila num fim-de-semana; não a repovoa.
Isto não é um veredicto contra o trail — é um pedido de sobriedade. O desporto de natureza pode ser uma peça de uma estratégia de desenvolvimento (como nas Aldeias do Xisto), mas transformá-lo, sozinho, em remédio para a desertificação é carregá-lo com um peso que ele não pode aguentar. E o caso dos Abutres serve de aviso final: se nem a prova mais forte garante a sua própria continuidade, seria imprudente fazer dela a âncora demográfica de um território.
7) Leitura crítica
Primeiro, separar número medido de número anunciado. «Vinte mil visitantes» e «hotéis esgotados» são estimativas de parte interessada. São plausíveis e úteis, mas não substituem um estudo de impacto — que, na esmagadora maioria dos casos portugueses, não existe. O reconhecimento mais honesto desta falha vem de dentro do meio académico: a dissertação que melhor estudou o tema (Santiago, 2016) declara que não conseguiu medir chegadas, dormidas nem valor económico directo, e recomenda-o como trabalho futuro. [R20] Já em 2016 se sabia que faltava a medição — e, uma década depois, continua a faltar.
Segundo, cuidado com o impacto desigual. O benefício de uma prova concentra-se em quem tem cama para alugar e mesa para servir. Nem toda a comunidade participa do «investimento», e há custos (pressão, ruído, resíduos — Dossiê 33) que se distribuem de forma diferente dos benefícios. Há mesmo quem avise que a expansão massiva «altera ritmos locais e sobrecarrega infra-estruturas limitadas» — estacionamento, acessos — e que o benefício só se sustenta «gerido a pequena escala». [R442]
Terceiro, não confundir pico com desenvolvimento. Um fim-de-semana cheio não é uma economia. O desenvolvimento mede-se na base que fica — alojamento que abre, emprego que dura, caminhos que se mantêm —, não no pico que passa.
Quarto, reconhecer o valor identitário sem o inflacionar. O orgulho de uma comunidade que se mostra e é reconhecida é real e importa. Mas não paga salários nem trava a emigração, e não deve ser usado para maquilhar a ausência de impacto económico duradouro.
8) Limites e lacunas
- Faltam estudos de impacto económico independentes (autarquias, universidades) das provas portuguesas — quase tudo o que circula são estimativas das organizações.
- Falta a voz directa das comunidades — comerciantes, juntas de freguesia, moradores.
- Faltam dados de dormidas e restauração cruzados com as datas das provas.
- Falta qualquer avaliação demográfica que ligue (ou desligue) o trail à fixação de população no interior.
- Falta compreender o que acontece a um território depois de uma prova encerrar (Dossiê 18).
- Faltam números para o interior continental (Trás-os-Montes, Beira Interior, Alentejo) e até para a UTSF/Serra da Freita — a prova mais antiga do país não tem impacto económico público. O caminho mais sólido é o valor do apoio público (como o do MIUT), disperso por diários oficiais e actas de câmara, por sistematizar.
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