Trail e Turismo Desportivo — o país que se tornou destino

Numa prova como o MIUT, dois em cada três atletas são estrangeiros. É turismo desportivo no sentido literal — mas concentrado

Trail e turismo desportivo: como Portugal — sobretudo as suas ilhas — se tornou um destino de trail. No MIUT, 66% dos atletas são estrangeiros e a França inscreve mais do que Portugal; nos Açores, 90% vêm de fora. Os operadores, a estratégia regional e os riscos de um destino concentrado em duas ilhas.

Série · História do Trail Running em Portugal · Dossiê 36

Trail e turismo desportivo: o país que se tornou destino

Numa prova como o MIUT, dois em cada três atletas são estrangeiros, e a França inscreve mais corredores do que Portugal. Isto é turismo desportivo no sentido literal — mas concentrado em duas ilhas.

✈️ O atleta-turista · o destino · os operadores 📊 MIUT: 66% estrangeiros, 58 nacionalidades 📚 Dossiê 36 ✍️ Luís Matos Ferreira
Estado editorial. Rascunho editorial v0.2 — a tese e os dados-âncora do destino (MIUT) estão fixados e ancorados em fontes; falta a estratégia oficial documentada de Turismo de Portugal e a dimensão económica dos operadores. Distingue-se sempre número medido, estimativa da organização e afirmação promocional.
Série · História do Trail Running em Portugal Este post integra a série que expande o artigo-base «Trail Running em Portugal». É o complemento do dossiê do desenvolvimento local (Dossiê 35), e cruza-se com os da integração ITRA/UTMB (Dossiê 22), dos trail camps (Dossiê 47), da economia (Dossiê 31) e da sustentabilidade (Dossiê 33).

Na última década, Portugal — e, mais precisamente, as suas ilhas — tornou-se um destino de trail reconhecido internacionalmente. Isto é turismo desportivo no sentido literal: gente que atravessa a Europa e o Atlântico para correr numa serra específica, num fim-de-semana específico. Mas esse reconhecimento é geograficamente desigual, e traz os riscos de qualquer destino de sucesso.

Este dossiê olha para o lado da procura: o atleta-turista que escolhe Portugal, os operadores que lhe vendem a viagem, as entidades que promovem o destino. É o complemento do Dossiê 35, que olhava para o outro lado — o que uma prova faz ao território que a recebe. Mantenho a disciplina de separar o número medido (uma contagem de inscritos por nacionalidade) da estimativa e da afirmação promocional — porque em turismo, mais do que em qualquer tema, o marketing veste-se de facto.

1) Quando Portugal virou destino

A percepção de Portugal como destino de trail tem uma data e um lugar aproximados: os finais da década de 2000, na Madeira. Desde 2008, o percurso do MIUT foi sendo corrido pelos melhores do mundo — de Pau Capell a Courtney Dauwalter, de François D'Haene a Jim Walmsley —, e cada passagem de um nome desses funcionou como uma campanha de promoção que nenhum orçamento público replicaria. [R457] A ilha, com as suas cristas vulcânicas, a laurissilva e os trilhos de levada, oferecia o que o trail internacional procurava: paisagem dramática, dificuldade real e a logística de um destino turístico maduro.

A curva de crescimento diz o resto. O MIUT arrancou, em 2008, com 141 atletas; em 2013 eram 449; em 2015, já 1.329, de 36 nacionalidades; e em 2016, 2.029, de 39 países. [R462] Em menos de uma década, uma prova de ilha multiplicou-se por catorze e trocou de natureza — de acontecimento local para acontecimento internacional. O reconhecimento institucionalizou-se quando o MIUT entrou nos grandes circuitos globais: integrava já o Ultra Trail World Tour em 2016, é hoje parte da UTMB World Series e uma das provas fundadoras dos World Trail Majors. [R456][R457][R463] Não é o único sinal: a Madeira Sky Race entrou na Skyrunner World Series em 2016, e em Maio de 2026 Portugal recebe, com a prova de Seia, a primeira etapa continental da UTMB World Series. [R463] Estar nestes circuitos não é um selo decorativo — é entrar no calendário que os milhares de trail-turistas europeus consultam para decidir onde vão gastar as férias a correr.

2) Os dados: a prova mais estrangeira do país

Se há um número que resume este dossiê, é este: na sua 15.ª edição, em 2024, o MIUT reuniu 3.481 atletas inscritos, dos quais 2.300 eram estrangeiros — cerca de 66% —, de 58 nacionalidades. [R456] E o detalhe mais eloquente de todos: a nação mais representada não era a portuguesa. Era a França, com 1.192 atletas, à frente dos 1.003 portugueses. [R456] Uma prova portuguesa em que os portugueses são minoria, e a segunda nacionalidade da casa. A estes somam-se cerca de 4.000 acompanhantes [cf. R451] — famílias e amigos que não correm, mas dormem, comem e visitam. Na edição seguinte, o número de nacionalidades subiu ainda para 67. [R458]

66%
dos atletas do MIUT 2024 eram estrangeiros (2.300 de 3.481) [R456]
1.192 > 1.003
a França inscreveu mais atletas do que Portugal [R456]
~90%
dos atletas da Azores Trail Run vêm de fora dos Açores [R459]
Um destino, não um mercado interno. Estes números mudam a natureza do que se está a analisar. Uma prova com 66% de estrangeiros não é um evento desportivo nacional com alguns visitantes — é um produto de exportação turística que por acaso se corre em Portugal. A economia que gera (o Dossiê 35 estimou ≈2.300 € por atleta e 1.227 primeiras visitas à ilha só numa edição [R451]) é, em boa parte, receita de exportação: dinheiro estrangeiro que entra no país porque há uma prova. É esse o sentido preciso de «turismo desportivo».

3) A geografia do destino: são as ilhas

Convém, porém, não deixar que o brilho do MIUT ilumine mais do que aquilo que de facto ilumina. O destino de trail português é, esmagadoramente, insular. A Madeira é o caso maduro; os Açores seguem a mesma lógica, e com um número ainda mais radical: segundo a organização da Azores Trail Run, cerca de 90% dos participantes vêm de fora dos Açores, e fazem-no na época baixa. [R459] É a definição pura de turismo desportivo — uma prova que existe, quase inteira, para trazer gente de fora quando o destino de outro modo estaria vazio. As ilhas têm o que isto exige: clima praticável todo o ano, paisagem única, e uma máquina turística já montada que absorve o atleta-turista sem esforço.

O interior continental, esse, é outra história — e os números provam-no pela diferença. Tem provas de enorme valor, mas de público sobretudo nacional: nos Trilhos dos Abutres de 2022, um ano de recorde, os estrangeiros eram 136 em cerca de 1.400 atletas — menos de 10%. [R460] Ponha-se ao lado dos 66% do MIUT e tem-se, num só par de números, toda a geografia do destino: a ilha é internacional, o interior é doméstico. Não é um defeito do interior — é a natureza diferente do que ali acontece, e foi por isso que o Dossiê 35 tratou essas provas como desenvolvimento local, e não como turismo internacional. A prova de Seia, associada à marca UTMB, é a excepção que confirma a regra: precisou do selo internacional para atrair 490 estrangeiros de 46 países, cerca de um terço do pelotão. [R454] A conclusão é incómoda mas honesta: o «Portugal destino de trail» que se vende lá fora é, quase todo, duas ilhas.

4) Os operadores do turismo de trail

Um destino precisa de quem lhe venda a viagem, e o trail português foi criando os seus operadores — quase todos nascidos, sintomaticamente, na própria comunidade de praticantes. Na Madeira, a Madeira Trail Tours oferece, desde meados da década de 2010, estágios, packages e tours guiados de trail vocacionados para o visitante estrangeiro. [R461] No continente, a oferta cruza-se com a dos trail camps (tratados no Dossiê 47): os Centros de Trail de Carlos Sá Nature Events, a Outdoor Events de Armando Teixeira, a escola de trail dos próprios Abutres. [R461] A estes juntam-se operadores estrangeiros que vendem a Madeira e os Açores como produto — sinal, também ele, de que o destino existe: quando uma agência britânica ou alemã monta uma «trail running holiday» na Madeira, é porque há procura que a sustenta.

O que esta camada de operadores revela é a maturação do modelo: o trail-turismo deixou de ser o atleta que se desenrasca sozinho e passou a ter uma indústria de serviço à volta. Mas revela também a lacuna: não há, publicamente, medida do tamanho desta indústria — quantos operadores, que volume de negócio, que fatia da receita fica em Portugal e que fatia volta para agências estrangeiras. A camada existe; a sua contabilidade, não.

5) As entidades: o trail como produto anti-sazonalidade

Do lado institucional, o trail foi adoptado como produto de promoção do destino — e as regiões chegaram a construir marcas em torno dele. A Madeira lançou a marca «Madeira Ocean & Trails», e é essa, e não a competição, a razão pela qual o Governo Regional enquadra oficialmente o seu apoio ao MIUT como despesa de «promoção e divulgação do destino Madeira nos segmentos de turismo activo e desportivo». [R450][R464] Daí a frase, já citada, do Secretário Regional do Turismo, Eduardo Jesus: o MIUT «não é um custo, é um investimento». [R452] Nos Açores, o raciocínio é explicitamente anti-sazonalidade [R455]; e no continente, a região Centro criou em 2026 a marca «MOVE – The Sports Region», com o mesmo propósito. [R464]

Repare-se, porém, no nível a que tudo isto acontece: regional. Não se localizou uma estratégia nacional documentada que trate o trail como produto turístico de Portugal — há marcas de ilha e de região, declarações de secretários regionais, mas não um plano do Turismo de Portugal que as articule. É uma inteligência estratégica real, mas dispersa — e com a mesma fragilidade que o Dossiê 35 apontou: quando o destino depende de uma prova, e a prova de uma organização, o «investimento» promocional fica refém de um único ponto de falha.

6) Os riscos: massificação, concentração, identidade

Todo o destino de sucesso enfrenta o paradoxo de se destruir com o próprio êxito, e o trail-destino não é excepção. O primeiro risco é a massificação. Três mil e quinhentos atletas e quatro mil acompanhantes numa ilha, num fim-de-semana, são uma pressão real sobre trilhos, alojamento e ecossistemas — e alguns dos percursos mais procurados atravessam território ecologicamente frágil (a questão da fauna e da capacidade de carga é tratada nos Dossiês 33 e 50). Há quem avise, com razão, que o benefício do trail só se mantém sustentável «gerido a pequena escala». [R442]

O segundo é a concentração geográfica: um país cujo produto turístico de trail se resume a duas ilhas é um país exposto — a um incêndio, a uma organização que pára, a uma mudança de circuito. A resiliência de um destino mede-se pela sua diversidade, e a do trail português é, ainda, estreita.

O terceiro, o mais subtil, é a diluição da identidade. Uma prova comunitária que cresce até ser uma paragem de circuito mundial ganha visibilidade e perde, quase sempre, alguma coisa do que a tornou especial — a relação com a aldeia, a escala humana, o carácter. Não é um destino fatal; mas é uma troca que merece ser feita com os olhos abertos, e não no automatismo do «quanto maior, melhor».

7) Leitura crítica

Primeiro, o destino é mais estreito do que o marketing sugere. «Portugal, destino de trail» é, na prática, «a Madeira, e um pouco os Açores». Dizer o contrário é vender o país inteiro com o mérito de duas ilhas.

Segundo, turismo desportivo não é o mesmo que desenvolvimento. O atleta-turista traz receita de exportação — real e valiosa —, mas concentrada em quem serve o turismo. É uma peça da economia local (Dossiê 35), não a sua totalidade.

Terceiro, o número que falta é sempre o mesmo. Sabemos quantos estrangeiros se inscrevem; não sabemos, com rigor auditado, quanto gastam nem quanto fica no país. O que há é um esboço: o único estudo académico próximo (Santiago, 2016) traça um praticante de rendimento médio (cerca de metade entre 1.000 e 2.000 € mensais), que assume o turismo como motivação (3,9 em 5) e que fica dias extra no destino — mas o próprio autor declarou não ter conseguido medir o valor económico que esse comportamento gera. [R20] Contamos as cabeças; não medimos as carteiras.

Quarto, o crescimento tem um tecto. A ideia de que o destino pode crescer indefinidamente esbarra na capacidade de carga física e ambiental das serras — e a gestão desse tecto, e não a sua negação, é o que separa um destino sustentável de uma bolha.

8) Limites e lacunas

Lacunas prioritárias
  • Falta a dimensão económica dos operadores — sabemos quem são (secção 4), mas não quanto valem nem que fatia da receita fica em Portugal.
  • Falta uma estratégia nacional de Turismo de Portugal para o trail — só há marcas e declarações regionais; a sua ausência é, em si, um resultado.
  • Falta o perfil económico do atleta-turista — gasto, estadia, quanto fica no país.
  • Faltam dados de participação estrangeira para provas fora das ilhas (Freita, Trás-os-Montes, Beira Interior).
  • Falta uma análise da sazonalidade — quanto do trail insular ocorre, de facto, fora de época alta.
Gostava muito de ouvir a tua opinião. Organizas provas, geres um operador de turismo de trail, trabalhas numa entidade de promoção, ou és um atleta-turista que escolheu Portugal? São especialmente úteis: dados de participação estrangeira por prova e nacionalidade; operadores e o que oferecem; documentos estratégicos de Turismo de Portugal e entidades regionais; e estudos sobre o perfil e o gasto do atleta-turista. Os comentários abaixo (ou o email do rodapé do blog) são o sítio certo.
Referências e remissões
[R20] Santiago, C. (ESHTE, 2016) — Trail running: modelo e potencial territorial enquanto produto turístico (perfil do praticante; 356/400 ficam dias extra; autor não mediu valor económico). Verificado (Dossiê 35).
[R442] tempo.pt (2026) — benefício sustentável só «a pequena escala». Verificado (Dossiê 33).
[R450] Governo Regional da Madeira — Resolução n.º 102/2023 (JORAM): apoio ao MIUT como «promoção e divulgação do destino Madeira». Verificado (Dossiê 35).
[R451] DNotícias / Press Power — MIUT 2023: ≈2.300 €/atleta; 1.227 na 1.ª visita à ilha; ~4.000 acompanhantes. Verificado (estimativa da organização; Dossiê 35).
[R452] DNotícias — Eduardo Jesus (Sec. Reg. Turismo Madeira): MIUT «não é um custo, é um investimento». Verificado (Dossiê 35).
[R454] Ultra Trail Centro Portugal by UTMB (Seia) — 490 estrangeiros de 46 países em 1.583 atletas. Verificado (Dossiê 35).
[R455] Azores Trail Run — Vítor Fraga: «evento estratégico» / atenuar a sazonalidade. Verificado (Dossiê 35).
[R456] Pro Runners / DNotícias — MIUT 2024 (15.ª ed.): 3.481 inscritos; 2.300 estrangeiros (66%); 58 nacionalidades; França 1.192 > Portugal 1.003; prova fundadora dos World Trail Majors. Verificado.
[R457] World Trail Majors / Visit Madeira / imprensa — MIUT na UTMB World Series; elite mundial desde 2008; Madeira «destino global de trail», provas quase todos os meses. Verificado.
[R458] Flashscore / SAPO — MIUT 2025: redução de inscritos; ≈1.600 estrangeiros; 67 nacionalidades (novo máximo). Verificado.
[R459] Azores Trail Run — Mário Leal (2019): ≈90% dos participantes de fora dos Açores, na época baixa; +1.000 estrangeiros desde 2014. Verificado.
[R460] Trilhos dos Abutres 2022 — ≈1.400 atletas, 136 estrangeiros de 22 países (<10%). Verificado.
[R461] Operadores de turismo de trail PT — Madeira Trail Tours; Centros de Trail (Carlos Sá Nature Events); Outdoor Events (Armando Teixeira); escola dos Abutres. Verificado (Santiago, 2016, e sítios das empresas).
[R462] Santiago (2016) — crescimento do MIUT: 141 (2008) → 449 (2013) → 1.329/36 nac. (2015) → 2.029/39 países (2016). Verificado.
[R463] Circuitos internacionais — MIUT no Ultra Trail World Tour (2016) e UTMB World Series; Madeira Sky Race na Skyrunner World Series (2016); Seia = 1.ª etapa continental da UTMB World Series (2026). Verificado.
[R464] Marcas regionais — «Madeira Ocean & Trails» (Madeira); «MOVE – The Sports Region» (Centro de Portugal, 2026). Verificado.
Remissões internas da série: Dossiês 35 (desenvolvimento local), 22 (Portugal, ITRA e UTMB), 16 (Aldeias do Xisto / Abutres), 31 (economia das provas), 33 (sustentabilidade), 50 (clima), 47 (trail camps), 14 (MIUT).
Rascunho editorial v0.2: falta a estratégia oficial documentada de Turismo de Portugal e a dimensão económica dos operadores. Distingue-se sempre número medido, estimativa da organização e afirmação promocional.
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