Trail e Turismo Desportivo — o país que se tornou destino
Trail e turismo desportivo: como Portugal — sobretudo as suas ilhas — se tornou um destino de trail. No MIUT, 66% dos atletas são estrangeiros e a França inscreve mais do que Portugal; nos Açores, 90% vêm de fora. Os operadores, a estratégia regional e os riscos de um destino concentrado em duas ilhas.
Trail e turismo desportivo: o país que se tornou destino
Numa prova como o MIUT, dois em cada três atletas são estrangeiros, e a França inscreve mais corredores do que Portugal. Isto é turismo desportivo no sentido literal — mas concentrado em duas ilhas.
Na última década, Portugal — e, mais precisamente, as suas ilhas — tornou-se um destino de trail reconhecido internacionalmente. Isto é turismo desportivo no sentido literal: gente que atravessa a Europa e o Atlântico para correr numa serra específica, num fim-de-semana específico. Mas esse reconhecimento é geograficamente desigual, e traz os riscos de qualquer destino de sucesso.
Este dossiê olha para o lado da procura: o atleta-turista que escolhe Portugal, os operadores que lhe vendem a viagem, as entidades que promovem o destino. É o complemento do Dossiê 35, que olhava para o outro lado — o que uma prova faz ao território que a recebe. Mantenho a disciplina de separar o número medido (uma contagem de inscritos por nacionalidade) da estimativa e da afirmação promocional — porque em turismo, mais do que em qualquer tema, o marketing veste-se de facto.
1) Quando Portugal virou destino
A percepção de Portugal como destino de trail tem uma data e um lugar aproximados: os finais da década de 2000, na Madeira. Desde 2008, o percurso do MIUT foi sendo corrido pelos melhores do mundo — de Pau Capell a Courtney Dauwalter, de François D'Haene a Jim Walmsley —, e cada passagem de um nome desses funcionou como uma campanha de promoção que nenhum orçamento público replicaria. [R457] A ilha, com as suas cristas vulcânicas, a laurissilva e os trilhos de levada, oferecia o que o trail internacional procurava: paisagem dramática, dificuldade real e a logística de um destino turístico maduro.
A curva de crescimento diz o resto. O MIUT arrancou, em 2008, com 141 atletas; em 2013 eram 449; em 2015, já 1.329, de 36 nacionalidades; e em 2016, 2.029, de 39 países. [R462] Em menos de uma década, uma prova de ilha multiplicou-se por catorze e trocou de natureza — de acontecimento local para acontecimento internacional. O reconhecimento institucionalizou-se quando o MIUT entrou nos grandes circuitos globais: integrava já o Ultra Trail World Tour em 2016, é hoje parte da UTMB World Series e uma das provas fundadoras dos World Trail Majors. [R456][R457][R463] Não é o único sinal: a Madeira Sky Race entrou na Skyrunner World Series em 2016, e em Maio de 2026 Portugal recebe, com a prova de Seia, a primeira etapa continental da UTMB World Series. [R463] Estar nestes circuitos não é um selo decorativo — é entrar no calendário que os milhares de trail-turistas europeus consultam para decidir onde vão gastar as férias a correr.
2) Os dados: a prova mais estrangeira do país
Se há um número que resume este dossiê, é este: na sua 15.ª edição, em 2024, o MIUT reuniu 3.481 atletas inscritos, dos quais 2.300 eram estrangeiros — cerca de 66% —, de 58 nacionalidades. [R456] E o detalhe mais eloquente de todos: a nação mais representada não era a portuguesa. Era a França, com 1.192 atletas, à frente dos 1.003 portugueses. [R456] Uma prova portuguesa em que os portugueses são minoria, e a segunda nacionalidade da casa. A estes somam-se cerca de 4.000 acompanhantes [cf. R451] — famílias e amigos que não correm, mas dormem, comem e visitam. Na edição seguinte, o número de nacionalidades subiu ainda para 67. [R458]
3) A geografia do destino: são as ilhas
Convém, porém, não deixar que o brilho do MIUT ilumine mais do que aquilo que de facto ilumina. O destino de trail português é, esmagadoramente, insular. A Madeira é o caso maduro; os Açores seguem a mesma lógica, e com um número ainda mais radical: segundo a organização da Azores Trail Run, cerca de 90% dos participantes vêm de fora dos Açores, e fazem-no na época baixa. [R459] É a definição pura de turismo desportivo — uma prova que existe, quase inteira, para trazer gente de fora quando o destino de outro modo estaria vazio. As ilhas têm o que isto exige: clima praticável todo o ano, paisagem única, e uma máquina turística já montada que absorve o atleta-turista sem esforço.
O interior continental, esse, é outra história — e os números provam-no pela diferença. Tem provas de enorme valor, mas de público sobretudo nacional: nos Trilhos dos Abutres de 2022, um ano de recorde, os estrangeiros eram 136 em cerca de 1.400 atletas — menos de 10%. [R460] Ponha-se ao lado dos 66% do MIUT e tem-se, num só par de números, toda a geografia do destino: a ilha é internacional, o interior é doméstico. Não é um defeito do interior — é a natureza diferente do que ali acontece, e foi por isso que o Dossiê 35 tratou essas provas como desenvolvimento local, e não como turismo internacional. A prova de Seia, associada à marca UTMB, é a excepção que confirma a regra: precisou do selo internacional para atrair 490 estrangeiros de 46 países, cerca de um terço do pelotão. [R454] A conclusão é incómoda mas honesta: o «Portugal destino de trail» que se vende lá fora é, quase todo, duas ilhas.
4) Os operadores do turismo de trail
Um destino precisa de quem lhe venda a viagem, e o trail português foi criando os seus operadores — quase todos nascidos, sintomaticamente, na própria comunidade de praticantes. Na Madeira, a Madeira Trail Tours oferece, desde meados da década de 2010, estágios, packages e tours guiados de trail vocacionados para o visitante estrangeiro. [R461] No continente, a oferta cruza-se com a dos trail camps (tratados no Dossiê 47): os Centros de Trail de Carlos Sá Nature Events, a Outdoor Events de Armando Teixeira, a escola de trail dos próprios Abutres. [R461] A estes juntam-se operadores estrangeiros que vendem a Madeira e os Açores como produto — sinal, também ele, de que o destino existe: quando uma agência britânica ou alemã monta uma «trail running holiday» na Madeira, é porque há procura que a sustenta.
O que esta camada de operadores revela é a maturação do modelo: o trail-turismo deixou de ser o atleta que se desenrasca sozinho e passou a ter uma indústria de serviço à volta. Mas revela também a lacuna: não há, publicamente, medida do tamanho desta indústria — quantos operadores, que volume de negócio, que fatia da receita fica em Portugal e que fatia volta para agências estrangeiras. A camada existe; a sua contabilidade, não.
5) As entidades: o trail como produto anti-sazonalidade
Do lado institucional, o trail foi adoptado como produto de promoção do destino — e as regiões chegaram a construir marcas em torno dele. A Madeira lançou a marca «Madeira Ocean & Trails», e é essa, e não a competição, a razão pela qual o Governo Regional enquadra oficialmente o seu apoio ao MIUT como despesa de «promoção e divulgação do destino Madeira nos segmentos de turismo activo e desportivo». [R450][R464] Daí a frase, já citada, do Secretário Regional do Turismo, Eduardo Jesus: o MIUT «não é um custo, é um investimento». [R452] Nos Açores, o raciocínio é explicitamente anti-sazonalidade [R455]; e no continente, a região Centro criou em 2026 a marca «MOVE – The Sports Region», com o mesmo propósito. [R464]
Repare-se, porém, no nível a que tudo isto acontece: regional. Não se localizou uma estratégia nacional documentada que trate o trail como produto turístico de Portugal — há marcas de ilha e de região, declarações de secretários regionais, mas não um plano do Turismo de Portugal que as articule. É uma inteligência estratégica real, mas dispersa — e com a mesma fragilidade que o Dossiê 35 apontou: quando o destino depende de uma prova, e a prova de uma organização, o «investimento» promocional fica refém de um único ponto de falha.
6) Os riscos: massificação, concentração, identidade
Todo o destino de sucesso enfrenta o paradoxo de se destruir com o próprio êxito, e o trail-destino não é excepção. O primeiro risco é a massificação. Três mil e quinhentos atletas e quatro mil acompanhantes numa ilha, num fim-de-semana, são uma pressão real sobre trilhos, alojamento e ecossistemas — e alguns dos percursos mais procurados atravessam território ecologicamente frágil (a questão da fauna e da capacidade de carga é tratada nos Dossiês 33 e 50). Há quem avise, com razão, que o benefício do trail só se mantém sustentável «gerido a pequena escala». [R442]
O segundo é a concentração geográfica: um país cujo produto turístico de trail se resume a duas ilhas é um país exposto — a um incêndio, a uma organização que pára, a uma mudança de circuito. A resiliência de um destino mede-se pela sua diversidade, e a do trail português é, ainda, estreita.
O terceiro, o mais subtil, é a diluição da identidade. Uma prova comunitária que cresce até ser uma paragem de circuito mundial ganha visibilidade e perde, quase sempre, alguma coisa do que a tornou especial — a relação com a aldeia, a escala humana, o carácter. Não é um destino fatal; mas é uma troca que merece ser feita com os olhos abertos, e não no automatismo do «quanto maior, melhor».
7) Leitura crítica
Primeiro, o destino é mais estreito do que o marketing sugere. «Portugal, destino de trail» é, na prática, «a Madeira, e um pouco os Açores». Dizer o contrário é vender o país inteiro com o mérito de duas ilhas.
Segundo, turismo desportivo não é o mesmo que desenvolvimento. O atleta-turista traz receita de exportação — real e valiosa —, mas concentrada em quem serve o turismo. É uma peça da economia local (Dossiê 35), não a sua totalidade.
Terceiro, o número que falta é sempre o mesmo. Sabemos quantos estrangeiros se inscrevem; não sabemos, com rigor auditado, quanto gastam nem quanto fica no país. O que há é um esboço: o único estudo académico próximo (Santiago, 2016) traça um praticante de rendimento médio (cerca de metade entre 1.000 e 2.000 € mensais), que assume o turismo como motivação (3,9 em 5) e que fica dias extra no destino — mas o próprio autor declarou não ter conseguido medir o valor económico que esse comportamento gera. [R20] Contamos as cabeças; não medimos as carteiras.
Quarto, o crescimento tem um tecto. A ideia de que o destino pode crescer indefinidamente esbarra na capacidade de carga física e ambiental das serras — e a gestão desse tecto, e não a sua negação, é o que separa um destino sustentável de uma bolha.
8) Limites e lacunas
- Falta a dimensão económica dos operadores — sabemos quem são (secção 4), mas não quanto valem nem que fatia da receita fica em Portugal.
- Falta uma estratégia nacional de Turismo de Portugal para o trail — só há marcas e declarações regionais; a sua ausência é, em si, um resultado.
- Falta o perfil económico do atleta-turista — gasto, estadia, quanto fica no país.
- Faltam dados de participação estrangeira para provas fora das ilhas (Freita, Trás-os-Montes, Beira Interior).
- Falta uma análise da sazonalidade — quanto do trail insular ocorre, de facto, fora de época alta.
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