Psicologia e motivações no trail português: o porquê — e o preço
Post da série História do Trail Running em Portugal: porque é que alguém corre distâncias que ultrapassam a razoabilidade — e qual é o preço. O «porquê» vivido, a cabeça na prova, o trail como regulação emocional e o reverso obsessivo. Testemunho com fonte, sobretudo do próprio autor, e lacunas declaradas: a ciência mediu o corpo do trail runner português; a sua cabeça continua quase por estudar.
Psicologia e motivações: o porquê — e o preço
A catarse na meta, o flow na serra, o cansaço que faz o mundo «perder a cor». Porque se corre para lá da razoabilidade — e onde é que a paixão cobra.
O trail português cresceu como prática de sentido — saúde, auto-estima, «sentido de vida», o estado de fluxo na serra. Mas a mesma paixão que o sustenta tem um reverso: o cansaço anímico do sobretreino, a paixão que se torna obsessiva, o vazio quando o objectivo se cumpre. A ciência do desporto mediu o corpo do trail runner português durante uma década; a sua cabeça continua quase por estudar.
Este é o dossiê mais dependente de uma só voz: a de quem escreve. O autor é praticante desde 2010, finisher de várias provas de 100 milhas, e as passagens mais fortes são citações do seu próprio blog (dorsal1967), sempre assinaladas. Isto tem uma vantagem — material primário, datado, detalhado — e um risco sério: viés de confirmação. Quem escolhe uma tese e vai buscar aos seus relatos os episódios que a encaixam não prova nada; ilustra. O post herda a ressalva que o próprio autor já fez no seu «Acervo de Endurance»: «a amostra é minúscula, retrospectiva e auto-relatada». [R497.] O testemunho vale como voz, não como evidência generalizável.
1) O porquê — o que move
Porque é que alguém corre distâncias que ultrapassam a razoabilidade? A ciência portuguesa dá uma primeira resposta, embora de corrida em geral, não de trail. Um estudo nacional representativo (Pereira et al., PLOS ONE, 2021), com mais de mil praticantes, mostra que os portugueses correm sobretudo por saúde (~88 %), mas também por auto-estima (~63 %) e por «sentido de vida» (~57 %) — e que a motivação mais autónoma se associa a vitalidade e a estados de fluxo. [R491.] Uma segunda leitura nacional acrescenta um aviso: um estudo com 567 corredores portugueses (Silva & Sobreiro, 2022) concluiu que os mais envolvidos com a corrida não são necessariamente os mais felizes. [R492.] Há um ponto a partir do qual mais paixão pode já não somar felicidade — é a ponte para a secção 4.
Afunilando para o trail, o único par de estudos portugueses da área (ambos com epicentro em Leiria — Dossiê 39) confirma a intuição: em 2015, a Sport Motivation Scale aplicada a 103 participantes descreveu uma motivação autodeterminada [R40]; em 2023, um estudo com 307 trail runners portugueses associou a robustez mental à resiliência e esta ao desempenho. [R357.] É, tanto quanto a pesquisa desta série apurou, toda a ciência portuguesa de psicologia do trail que passou por revisão de pares.
O resto é experiência vivida. E a voz mais próxima que a série tem é a do próprio autor, que em 2018 respondeu à pergunta num ensaio a que chamou, precisamente, «Porque corro?». A resposta não é fisiológica:
O mesmo texto reconhece que «uma aventura destas dá-me alento para pelo menos mais um ano […] para ultrapassar as dificuldades comezinhas do dia-a-dia» — o trail como coisa que torna o resto suportável. [R482.] É um único testemunho, marcado como tal; mas rima com o «sentido de vida» que o estudo nacional mediu em muitos [R491].
2) A cabeça na prova
Se há um consenso na cultura do trail, é o de que as provas longas se decidem na cabeça — o que a ciência confirma de raspão (a robustez mental «segura» o desempenho [R357]).
O padrão aparece cedo. Num texto de Fevereiro de 2012 — «11 lições que a corrida me ensinou» —, antes ainda da maioria das suas 100 milhas, o autor já tinha formulado as regras mentais que carregaria: «Se não conseguires correr, anda»; «Não deixes que um revés te esmoreça»; «A dor é temporária, a glória é para sempre». [R486.] São regras operacionais, aprendidas prova a prova, que decidem o que acontece ao quilómetro 120 de uma noite fria.
O momento em que essa mecânica mental fica mais nua é a chegada. No fim do UTMB de 2015 — 170 km à volta do Monte Branco, terminados em mais de 39 horas —, já no duche, o corpo entregou tudo o que a vontade tinha contido:
O fio que separa terminar de desistir o autor destilou-o numa frase que se tornou a regra da sua carreira, escrita depois de abandonar a Ronda dels Cims em 2017 (ao quilómetro 86, «com a vida em desordem») e de a voltar a terminar em 2019:
A diferença entre o abandono de 2017 e o finish de 2019 não foi dominantemente fisiológica: foi de sentido. É a tradução vivida do que a ciência chama robustez mental e resiliência [R357]. Este testemunho não está sozinho, mas quase. A ultra-trailer Ester Alves, numa entrevista de 2026, descreve momentos de querer desistir e de gestão mental no limite — a perda de consciência com o calor extremo da Marathon des Sables, a tempestade no Buff Epic. [R72.] E Carlos Sá, em 2013, enunciava a mesma economia mental de forma quase técnica: «com objetivos fortes ficamos mais equilibrados mentalmente», e gerir a prova por etapas, «nunca pensar que ainda faltam 100km para o final». [R495.] São três vozes — e a série gostava de ter trinta (secção 5).
3) O trail como regulação emocional
Há um segundo registo, menos épico do que o da prova e talvez mais importante: o do treino solitário como regulação emocional. Não é sobre desempenho; é sobre estar bem. O autor descreveu-o em 2019, a propósito das horas que corria sozinho na Serra de Sintra:
«Na maior parte do tempo não penso em nada», escreve — a descrição leiga de um estado de fluxo, o mesmo que o estudo nacional associou à motivação autónoma [R491]. É aqui que a psicologia do trail toca a saúde mental: correr como forma de calar o ruído, de regular o humor, de tornar o resto da vida habitável.
E é aqui que o testemunho ganha uma camada mais dura. O ciclo mais documentado do acervo do autor não é de glória: é de queda e regresso. Ao abandono da Ronda em 2017 seguiu-se, nas suas palavras, um ano quase sem correr em que «o meu pai faleceu, divorciei-me, mudei de casa» — o pai morreu em Fevereiro de 2018, após cinco anos de doença [R487] — antes de o regresso à mesma prova, em 2019, fechar o ciclo. [R488.] A corrida aparece aqui não como causa nem como cura milagrosa, mas como o fio a que se volta quando o resto se desmorona. É o mais perto que a série chega, com fonte, do tema «trail e recuperação emocional» — e é ainda testemunho de uma só pessoa.
4) O reverso — quando a paixão cobra
Seria desonesto pintar só o lado luminoso. A mesma intensidade que faz bem tem um preço, e a literatura tem um nome para a sua forma extrema: paixão obsessiva, por oposição à paixão harmoniosa. Uma dissertação portuguesa de psicologia do desporto (Teixeira, ESDRM/IP Santarém, 2011, sobre jovens atletas de futebol e futsal) trabalha essa dualidade: a paixão harmoniosa integra-se na vida; a obsessiva controla-a. [R493.] A amostra não é de trail — é andaime conceptual —, mas dá o vocabulário para nomear o que muitos praticantes reconhecem.
O sinal mais concreto desse reverso, no acervo do autor, é um episódio raro e precioso: a anedonia do sobretreino. Na preparação para o Ehunmilak de 2012, durante duas semanas, a máquina motivacional falhou sem razão aparente:
«O mundo pareceu perder a sua cor» é, em linguagem de praticante, uma descrição de anedonia — o embotamento do prazer que acompanha o excesso de carga. É exactamente o tipo de sinal que a investigação sobre overtraining procura: um estudo lusófono recente com ciclistas amadores de BTT liga a paixão obsessiva (e a resiliência) à predição do sobretreino. [R494.] Não é de trail nem, com certeza confirmada, de amostra portuguesa — entra como paralelo, com essa reserva —, mas aponta a direcção: o reverso da paixão é mensurável, e ainda ninguém o mediu em trail runners portugueses.
Do lado da moldura clínica, o psicólogo do desporto João Lameiras resumiu bem, em 2026, o conflito no centro de tudo isto: «"Será que aguento ou desisto?" […] é muitas vezes neste conflito interno, na dúvida, que a corrida realmente começa» — e os atletas mais resilientes, nota, não eliminam o desconforto: «aceitam-no e aprendem a correr com ele». [R496.]
5) A mente por estudar — o que falta
Este é o dossiê em que a distância entre o que se sente e o que se sabe é maior. Sabe-se, com ciência portuguesa, que os trail runners cá têm motivação autodeterminada [R40] e que a robustez mental lhes segura o desempenho [R357] — e pouco mais. Tudo o resto é testemunho, sobretudo de uma pessoa.
A ciência do desporto estuda o corpo do trail runner português há mais de uma década; a sua cabeça — as motivações finas, a experiência subjectiva, a saúde mental, a obsessão — continua um território quase por cartografar. Este dossiê é, sobretudo, o mapa desse vazio.
6) Próximo passo editorial
(i) Recolher testemunhos vividos de atletas portugueses sobre a dimensão mental — vontade de desistir, vazio pós-objectivo, correr como regulação emocional, o reverso obsessivo —, com consentimento e classificação A/B/C da linha de Memória Vivida. (ii) Recuperar e verificar duas pistas: uma entrevista antiga (blogue exgordoatualmaratonista, URL morto) sobre «a mente que comanda» e «quebras de vontade», via Wayback Machine; e um episódio do podcast «Tira o rabo do sofá» sobre DNFs e colapso emocional — confirmar se são atletas de trail antes de citar. (iii) Contactar o pólo de Leiria/ESECS-IPLeiria (Gameiro, Coelho, Morouço) — o grupo que concentra a investigação psicológica portuguesa de trail —, à procura de teses não indexadas. Contributos documentados entram como fonte primária (escala A), com consentimento e atribuição.
pesquisa-psicologia-motivacoes-2026-07.md (fontes encontradas, tentadas sem resultado e lacunas). Conforme a diretiva (§4.3, §6.0), as citações do blog do autor são fonte primária-pessoal e memória vivida (Zona 3): valem como voz, não como evidência generalizável. Os estudos [R491]–[R494] são de corrida-geral, futebol/futsal ou BTT — usados como pano de fundo ou paralelo, nunca como facto sobre trail português.
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