Trail e Alterações Climáticas — o calendário que aquece, o terreno que arde
Trail e alterações climáticas em Portugal: o IPMA mede +0,3 °C/década e os cinco verões mais quentes de sempre na última década. Quatro eixos de impacto — calendário, segurança, terreno e ecossistemas —, as respostas existentes e o que importar do estrangeiro. Antecipar custa pouco; reagir custa muito.
Trail e alterações climáticas: o calendário que aquece, o terreno que arde
As alterações climáticas já não são um cenário de futuro para o trail português — são uma condição de trabalho do presente. E a resposta da modalidade tem sido feita de remendos, prova a prova.
A base científica é sólida; a tradução prática para o trail é incipiente. As alterações climáticas já deslocam datas, acrescentam risco térmico e tornam o terreno mais vulnerável — mas a resposta da modalidade tem sido feita de remendos, prova a prova. A lição operacional cabe numa frase: antecipar custa pouco; reagir custa muito.
1) O clima que já mudou — o que dizem os números
Comecemos pelo chão firme, que é o dos dados oficiais. O Relatório do Estado do Ambiente da Agência Portuguesa do Ambiente, com base nas séries do IPMA, fixa uma tendência que não é ambígua: desde os anos 1970, a temperatura média anual sobe em todas as regiões de Portugal a um ritmo de cerca de 0,3 °C por década. [R422] Não é um número dramático à escala de um dia — é devastador à escala de uma vida de praticante. Quem começou a correr trail em 2010, como eu, corre hoje sob um clima mediamente cerca de meio grau mais quente do que aquele em que se estreou.
A assinatura desse aquecimento está na lista dos anos mais quentes. Dos registos desde 1931, os cinco verões mais quentes de sempre são, por esta ordem, 2022, 2023, 1997, 2024 e 2025 — quatro dos cinco nos últimos anos. Dos trinta anos mais quentes alguma vez medidos, vinte e dois são posteriores a 1990. [R422] É isto que significa, em concreto, «a tendência lê-se em décadas»: o clima recente não é um azar de calendário, é o novo normal.
O ano de referência é 2022 — o mais quente desde 1931, com uma anomalia de +1,38 °C face à média de 1971–2000. A 14 de Julho desse verão, a estação do Pinhão registou 47,0 °C, novo máximo de sempre para o mês, e bateram-se recordes de temperatura em 58 estações. [R426] Para quem tinha uma prova marcada nesse fim-de-semana, isto não é estatística: é a diferença entre correr e não poder correr.
E há o indicador que melhor capta a exposição de quem corre na montanha no verão: as ondas de calor. Aqui é preciso ler com cuidado, porque os números medem coisas diferentes: em 2022 houve 90 dias de calendário em onda de calor algures no país; e o somatório de dias-estação — cada estação contada à parte — chegou a 951 em 2025, o valor mais alto desde 1941. [R422] Seja qual for a métrica, a direcção é a mesma: janelas seguras mais curtas e mais fins-de-semana de verão sob aviso. O calor deixou de ser a excepção memorável de uma edição para passar a ser um parâmetro de planeamento.
2) Quatro eixos de impacto
O impacto do clima sobre o trail não é uma coisa só. Distribui-se por quatro frentes que convém separar, porque exigem respostas diferentes.
2.1 Calendário
A primeira pressão é sobre as datas. Há um empurrão para deslocar provas de verão para as meias-estações, para fugir ao calor extremo; e há, em sentido contrário, o peso das datas tradicionais — sustentadas em viabilidade económica, em rituais de comunidade e em toda uma logística montada à volta de um fim-de-semana fixo. Uma prova que existe há quinze anos no primeiro fim-de-semana de Julho não muda de data sem custo. A isto soma-se o risco novo de cancelamento por aviso meteorológico extremo — o aviso vermelho do IPMA que, na véspera, transforma meses de preparação numa decisão de horas.
2.2 Segurança
O eixo onde o clima se torna corpo. O calor extremo traz hipertermia, desidratação e golpe de calor; a montanha alta traz o risco simétrico — a trovoada de verão e a descida rápida de temperatura que apanha o atleta molhado e exausto. Acresce o risco de incêndio durante a prova ou nas semanas que a antecedem, e a necessidade de planos de evacuação pensados para cenários que há dez anos eram raros. A literatura internacional de fisiologia do calor em provas longas — que a ITRA sistematiza [R1] — deixou de ser leitura académica para passar a ser matéria de regulamento.
Que este risco não é abstracto, di-lo o corpo de quem corre. A atleta portuguesa Ester Alves perdeu os sentidos, severamente desidratada, numa etapa longa da Marathon des Sables — o stage race no deserto marroquino onde o calor é o verdadeiro adversário. [R429] O episódio deu-se no estrangeiro, e registo-o como ilustração, não como prova de nada sobre Portugal; mas é o retrato exacto do que está em jogo quando se fala de «risco térmico» — não é uma linha de regulamento, é uma pessoa a cair.
2.3 Terreno
O clima também trabalha o chão por onde se corre. Episódios de precipitação intensa aceleram a erosão dos trilhos; os incêndios recorrentes alteram a cobertura vegetal; e a recuperação ecológica pós-incêndio tem prazos que excedem, e muito, os ciclos editoriais das provas. Aqui a série já tem um caso documentado e exemplar, tratado a fundo no Dossiê 17: em Outubro de 2017, a AXtrail correu-se sobre a Serra da Lousã ainda a fumegar, cinco dias depois de a serra ter ardido, e a organização converteu as lembranças de presença em quatro mil árvores plantadas na região. É o retrato exacto deste eixo — o terreno que arde não cancela o trail: obriga-o a reconstruir aquilo por onde corre.
2.4 Ecossistemas atravessados
Por fim, os lugares. Áreas protegidas com vulnerabilidades específicas — a laurissilva da Madeira, os parques naturais do continente, as ilhas dos Açores — recebem uma pressão acumulada de eventos desportivos em zonas frágeis, num momento em que essas zonas estão elas próprias sob stress climático. É deste eixo que nasce a figura reguladora central do capítulo: o ICNF, que condiciona provas em área protegida e faz depender a autorização de uma avaliação ambiental por edição, não de uma licença permanente. [R32] O traçado que passou este ano pode não passar no próximo — e cada vez mais a razão de não passar é ambiental.
3) As respostas que já existem — e a que falta
Do lado das provas, há uma cultura de segurança que foi crescendo, quase sempre por iniciativa das próprias organizações e sem norma sectorial que a obrigue: protocolos indexados aos avisos amarelo/laranja/vermelho do IPMA; reforço de hidratação e de gelo nos postos de abastecimento; ajustes de cut-off nos dias de calor extremo; reuniões pré-prova com a Protecção Civil. Do lado das federações, há recomendações — da FPA e, historicamente, da ATRP — sobre cancelamento por meteorologia adversa, mas a cobertura por seguros continua heterogénea de prova para prova. [R23] Do lado do regulador, o ICNF exerce o poder de condicionamento ambiental descrito acima. [R32]
Estas respostas existem, mas é honesto dizer o que elas são: fragmentárias e não coordenadas. Cada organização resolve à sua maneira, com o seu bom senso e os seus meios. Não há um protocolo de calor comum ao calendário, não há um limiar partilhado a partir do qual uma prova se encurta ou adia, não há um regime de seguros padronizado para o risco climático. Mas há já decisões concretas, documentadas, tomadas perante o clima — e vale a pena olhá-las de frente, porque são o embrião da resposta que falta sistematizar.
Serra da Estrela, 2020 — a interrupção que vivi. Não preciso de ir longe para o primeiro caso: vivi-o na pele. Na VI edição do Estrelaçor, o ultra de 180 km e 8.000 metros de desnível positivo da Serra da Estrela, corrido a partir de 23 de Outubro de 2020, o tempo degradou-se até se tornar perigoso — dois atletas entraram em hipotermia na Torre. A organização, em coordenação com a GNR, tomou a decisão que este dossiê anda a elogiar nos exemplos estrangeiros: a prova seria interrompida nos vários postos onde cada um de nós se encontrasse, e cada atleta classificado pelo ponto a que tinha chegado. Eu tinha chegado à Torre — 150 km, 7.100 metros de subida, 31h48 de prova, o último controlo antes da meta em Penhas Douradas — e foi aí que a montanha me parou. Não cheguei à meta; cheguei a um abrigo, a roupa seca e um duche quente, levado por voluntários e amigos. [R430] É um final anticlimático, mas é também o retrato exacto de uma decisão climática bem tomada: parar a tempo, contar quem chegou aonde, mandar toda a gente para casa inteira.
Madeira, 2025 — o percurso que o fogo reescreveu. O grande incêndio de Agosto de 2024 na ilha da Madeira — começado a 14 de Agosto, com cerca de 5.000 hectares ardidos (perto de 14% da área florestal da ilha) e chegando ao Pico Ruivo a 21 de Agosto — deixou trilhos encerrados por risco de queda de pedras. Consequência directa para o trail: o MIUT de 2025 teve de alterar o percurso, recuando a partida das distâncias longas para o Porto Moniz. [R427] A ligação ao clima é explícita e mensurável: o fogo lavrou com cerca de 30 °C, rajadas de 70 km/h e humidade abaixo de 30% — e dois bombeiros foram hospitalizados com sintomas ligados ao calor. É o mesmo padrão do Dossiê 17, agora numa ilha e numa data mais recente: o fogo não cancela a prova, obriga-a a redesenhar-se.
Serra da Estrela, Maio de 2025 — a prova que se suspendeu. Uma prova do Circuito Nacional de Trail Ultra, em Loriga (Seia), foi suspensa por condições meteorológicas adversas — muita chuva, neve e nevoeiro. [R428] A edição ficou marcada pela morte de um atleta de 71 anos, por paragem cardiorrespiratória. Aqui impõe-se a cautela que este dossiê prometeu: não atribuo a morte ao tempo — foi cardiorrespiratória, e as causas de um óbito individual não se despacham numa frase de blog. O que é documentado, e o que interessa a este capítulo, é a decisão de suspender a prova por meteorologia — o precedente português mais claro de que a interrupção por segurança climática já entrou no repertório das organizações, ainda que motivada por frio, e não por calor.
4) Boas práticas internacionais — e uma correcção de facto
O trail internacional já teve de aprender a decidir perante a montanha em condições extremas, e há precedentes de que Portugal pode aprender.
O mais instrutivo é o Tor des Géants, o ultra de 330+ km no Vale de Aosta — e aqui é preciso corrigir um erro que a própria série arrastava. Não foi em 2019 que o Tor foi interrompido por meteorologia; a edição de 2019 realizou-se normalmente. Os anos em que o clima obrigou a parar a prova foram outros: em 2012, a organização interrompeu a corrida e parou-a ao quinto dia em Saint-Rhémy-en-Bosses, aos 303 km, com cerca de 70 atletas a completar; e em 2015, a prova foi interrompida à terceira noite e parada à quarta quando o Col Malatra ficou coberto de gelo — nesse ano, apenas seis atletas completaram o percurso integral. [R423] A lição não é o número: é que uma organização de topo tem protocolos para parar uma prova a meio, ordenadamente, e para reconhecer como finishers quem chegou a um ponto seguro antes do fecho — em vez de empurrar o pelotão para o perigo.
O próprio UTMB — a prova que mais influenciou a cultura do trail moderno — encurtou o percurso por meteorologia em pelo menos três edições: 2010, 2012 e 2017. Em 2010, o caso mais drástico, a prova foi cancelada cerca de três horas depois da partida (tempo persistente e um deslizamento de lama no Col de la Seigne) e reiniciada horas depois numa versão curta de 88 km; em 2012 correu-se uma versão de 103 km. [R424] Se a maior prova do mundo aceita reduzir-se para não pôr o pelotão em risco, o encurtamento deixa de ser um falhanço organizativo para passar a ser uma ferramenta legítima.
- Western States (EUA) — trata o calor como adversário planeável. Recomenda aclimatação prévia (~90 min/dia acima de 32 °C nas duas semanas anteriores) e, no terreno, arrefecimento rápido com gelo na virilha, pescoço e axilas; a equipa médica pode retirar qualquer corredor. Nuance reveladora: deixou de pesar os atletas, avaliando antes como o corredor «se sente e aparenta». [R425]
- Ultra Pirineu (Catalunha) — inscreve no regulamento a possibilidade de modificar o percurso por segurança, com coordenação com o 112 e seguimento em tempo real. [R1]
- ITRA — literatura e recomendações sobre temperaturas extremas em provas longas, base técnica comum a quem a quiser adoptar. [R1]
O denominador comum destas práticas é simples e transferível: decidir com antecedência as regras de decisão, para que a escolha difícil da véspera não seja improvisada. E, como mostra o Estrelaçor de 2020 (secção 3), Portugal já aplicou pelo menos uma delas — a classificação pelo ponto atingido quando a prova pára —, ainda que como resposta pontual e não como norma escrita.
5) Leitura crítica
Primeiro, não usar o clima como desculpa para desporto sem regulação. A retórica da «adaptação» é elástica: serve para justificar protocolos de segurança (bom), mas também pode servir para normalizar o atravessar de zonas frágeis com o argumento de que «já está tudo a arder na mesma» (mau). A avaliação ambiental por edição, que ao organizador pode parecer um estorvo burocrático, é precisamente a ferramenta que impede esse deslizamento.
Segundo, distinguir sempre variação anual de tendência climática. É a disciplina mais fácil de perder no calor de um debate: um verão ameno não é um contra-argumento, e um verão infernal não é uma prova — a tendência mede-se nos números do IPMA, ao longo de décadas. [R422]
Terceiro, cuidado com a estética da catástrofe. O trail vive de imagens, e o fogo dá imagens poderosas. Mas a informação que salva um atleta não é a fotografia da serra em chamas — é o limiar de temperatura a partir do qual se antecipa o cut-off, a localização do posto com gelo, o plano de evacuação que funciona sem rede móvel. O drama abafa a técnica; este dossiê fica com a técnica.
6) Limites e lacunas
- Falta a análise quantitativa do impacto sobre calendário e participação — séries longitudinais de cancelamentos, modificações e taxas de abandono por edição, cruzadas com o tempo do dia.
- Falta o inventário de protocolos por prova-âncora — o que fazem, em concreto, o MIUT, a UTSF ou os Trilhos dos Abutres quando o IPMA emite aviso.
- Falta cobertura por seguros padronizada para o risco climático em todo o calendário.
- Falta política sectorial integrada — federações, ICNF e autarquias a decidir em conjunto, e não cada um por si.
- Falta literatura académica portuguesa específica sobre clima e trail. O trabalho mais próximo — a dissertação SIG/UP sobre susceptibilidade a incêndios nos percursos [R41] — aborda o fogo, não o calor nem o calendário.
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