Portugueses lá fora: do pelotão às grandes provas internacionais
Portugueses lá fora: do primeiro finisher português do UTMB (2004) aos ~200 sorteados por ano; os contingentes de pelotão nas grandes ultras internacionais, a arqueologia do termo «armada», partidas, finishers e desistências, e as viagens em grupo.
Portugueses lá fora: do pelotão às grandes provas internacionais
A elite deu visibilidade externa; o pelotão transformou a ida lá fora numa prática social. Esta é a história de quem viajou para terminar — ou tentar terminar — as grandes ultras do mundo.
do UTMB
do UTMB (2014)
UTMB 2015
UTMB (2018)
escrita em trail
Em 2004, na segunda edição do UTMB, havia exactamente um português entre os 420 finishers. Em 2014 eram 88 os inscritos na semana da prova; em 2018, o sorteio contemplou 192. A elite chegava aos pódios; a maioria viajava para terminar — ou tentar terminar. Este dossiê conta essa maioria: os contingentes, os números, o nome informal que a comunidade lhes deu, e as histórias de estreia, chegada e desistência.
Quem escreve é, ele próprio, um atleta deste pelotão: nove provas de 100 milhas concluídas, a maioria no estrangeiro, sempre longe dos lugares da frente. Boa parte do material datado vem do arquivo pessoal e do blogue do autor — auto-citações assinaladas caso a caso — e a experiência directa entra como testemunho identificado. O autor foi também atleta do grupo de treino APT (Dossiê 24); aqui, a APT só aparece onde é indispensável distingui-la dos contingentes informais.
Critério editorial. Presença internacional não é representação nacional (só a Selecção representa Portugal — Dossiê 05). Um contingente numa prova não era uma equipa nem a APT. E um DNF não é fracasso moral: em ultras internacionais, a desistência é parte central da experiência e documenta-se sem hierarquia. Preferem-se agregados a listas nominais.
1) Antes de haver «armadas»: os primeiros lá fora
A pergunta natural — desde quando há portugueses nas grandes ultras estrangeiras? — tem agora resposta documentada para a prova-farol. Na edição inaugural do UTMB (2003), nenhum dos 67 finishers era português; na segunda edição, em 2004, há exactamente um: Hélder Lopes Ferreira, do Oeiras Sport Clube, 203.º entre 420 finishers, em 38h15m52s — o primeiro português documentado a completar a volta ao Monte Branco, quando a prova tinha dois anos de vida. Em 2005 não há nenhum; em 2006, o único português entre os 1.152 finishers é outra vez ele — o mesmo atleta, a cumprir a sua segunda volta ao Monte Branco (38h46m37s). [R28; R29] (Nota de rigor: a base DUV lista apenas finishers — um português que tenha partido e desistido em 2003 ou 2005 não apareceria aqui.) E o rasto do pioneiro, na sua ficha oficial, é a tese deste dossiê em miniatura: TDS em 2009, Grand Raid des Pyrénées em 2011, provas portuguesas década fora, Tor des Géants em 2021 (142h21m) e — já no escalão 60-64 — um 50K nos Trilhos dos Abutres em 2025. [R29] Mais de vinte anos de pelotão, do Mont-Blanc aos Abutres.
Ainda antes dos contingentes com nome, o UTMB encurtado de 2010 já mostra a comunidade a formar-se: a DUV regista seis finishers portugueses — entre eles Jorge Serrazina (que um ano depois estaria no primeiro contingente do Tor des Géants), Luís Leite, da Confraria Trotamontes (Dossiê 03), e — identificação provável, por confirmar — Sidónio Freitas, o futuro director do MIUT, a cruzar a meta cinco segundos antes de João Hora Faustino. [R30] Os fios desta história já se cruzavam nos Alpes antes de terem nome.
Os primeiros rastos colectivos vêm a seguir. No Tor des Géants de 2011 — 330 km no Vale de Aosta —, alinhou o primeiro contingente português da prova: cinco atletas, de que quatro terminaram e um desistiu ao km 48. O registo triangula-se em três fontes (o blogue Cidadão de Corrida, dias depois da prova; os resultados ITRA; a DUV): Jorge Serrazina (40.º), João Hora Faustino (109.º), Jorge Mimoso (222.º, em 144h59m) e Célia Azenha — 262.ª, no escalão W45, pelas Lebres do Sado: a primeira mulher documentada num contingente português de ultra XL, a fechar 330 km em mais de seis dias de montanha. [R3] Nos anos seguintes, a participação portuguesa no TDG tornou-se recorrente, com muitos outros finishers — a série por edição está por extrair (memória da comunidade; secção 8). No ano seguinte, a Ehunmilak (168 km, País Basco) tinha portugueses suficientes para que, em 2013 e 2014, o contingente estabilizasse nos 16 inscritos em ~295 — cerca de 5% de uma prova basca corrida a mil quilómetros de casa. [R17]
A viagem, nessa fase, era artesanal. A estreia do autor em 100 milhas — a III Ehunmilak, em Julho de 2012 (39h42m, 55.º entre 112 finishers) — fez-se a dois: um atleta e um amigo de apoio, refeições partilhadas e pontos de assistência combinados de véspera. (Auto-citação: relato publicado em Julho de 2012 [R26].) Não havia pacote, não havia grupo, não havia nome para aquilo. O nome viria depois — e não nasceu no trail.
2) O nome: de onde vem a «armada»
A pesquisa lexical desta sessão (Arquivo.pt, imprensa e blogues de época; resultados negativos registados) permite fixar o essencial:
O termo é importado. «Armada lusa» era jargão corrente da imprensa desportiva portuguesa muito antes do trail — automobilismo, ciclismo, surf, ténis (capturas de 2010) [R2] —, e a ocorrência mais antiga encontrada na comunidade dos desportos de natureza é de 2006, num fórum de corridas de aventura («não há notícias da participação da armada lusa por terras galegas?»). [R1] A primeira ocorrência datada em trail que a pesquisa encontrou é de 30 de Setembro de 2011: o Cidadão de Corrida, ao publicar os resultados do Tor des Géants, escreve «foram os seguintes os resultados obtidos pela armada lusa». [R3] No ecossistema UTMB, a primeira «armada portuguesa» datada é um comentário de leitor, a 2 de Setembro de 2013, no live do NEL.pt: «Grande armada portuguesa!!! PARABÉNS!!!». [R4] Em 2018, o termo já era título de imprensa especializada: «Armando Teixeira lidera armada portuguesa no Ultra Trail du Mont Blanc». [R6] Nenhuma ocorrência anterior a 2011 em contexto de trail foi encontrada nos arquivos consultados. A lacuna fica assim delimitada, não resolvida: quem primeiro disse «armada» num trilho continua por identificar, mas o termo entrou na escrita da comunidade entre 2011 e 2013, vindo do vocabulário desportivo geral.
O próprio autor escrevia «armada lusa» com naturalidade em 2014–2015 — no anúncio da VCUF («somos 8 tugas, em 67 atletas») e na homenagem aos 47 do UTMB de 2015 [R25; R12]. Regista-se como evidência de uso corrente na comunidade — e como auto-fonte, sem valor para datar a origem.
3) Os destinos que criaram hábito
Os números disponíveis — incompletos, mas já em série — mostram a passagem da raridade ao hábito num intervalo curto:
| Prova / ecossistema | Edição | Portugueses | Fonte |
|---|---|---|---|
| UTMB (prova rainha) | 2003 · 2005 | 0 finishers PT (em 67 · 773) | [R28] |
| UTMB (prova rainha) | 2004 | 1 — o primeiro finisher português (203.º/420) | [R28] |
| UTMB (prova rainha) | 2006 | 1 — o mesmo pioneiro, 2.ª volta (525.º/1.152) | [R28][R29] |
| UTMB (edição encurtada) | 2010 | 6 finishers | [R30] |
| Tor des Géants (330 km) | 2011 | 5 (4 finishers, 1 DNF) | [R3] |
| Marathon des Sables | 2012 | 5 | [R19] |
| Ehunmilak (168 km) | 2013 · 2014 | 16 inscritos (em ~295) em cada ano | [R17] |
| Semana do UTMB (5 provas) | 2014 | 88 inscritos (1% de 8.648) | [R9] |
| Marathon des Sables | 2014 · 2015 · 2017 | 5 · 7 · 5 | [R20][R21][R22] |
| VCUF — Cerdanya (214 km) | 2014 | 8 (em 67 atletas) | [R24][R25] |
| UTMB (prova rainha) | 2015 | 47 à partida · 30 finishers · 17 DNF | [R12] |
| UTMB (prova rainha) | 2016 | 35 finishers | [R10] |
| Semana do UTMB — sorteados | 2017 · 2018 · 2019 · 2020 | 180 · 192 · 175 · 182 | [R6][R11] |
| Transgrancanaria (5 formatos) | 2018 | 48 | [R16] |
| Andorra Ultra Trail VallNord | 2018 | ~100est | [R15] |
| Diagonale des Fous (Reunião) | 2022 | 17 | [R23] |
Números de fontes de época (imprensa, fóruns que transcrevem dados das organizações, arquivo do autor onde assinalado); a distinção inscritos/partidas/finishers segue cada fonte. A série tem buracos declarados (UTMB 2009–2012; Ronda dels Cims por edição; TDG pós-2011) — ver secção 8.
Dois destinos merecem nota qualitativa. Em Andorra, em 2017, a TSF constatava que Portugal era a nacionalidade estrangeira mais numerosa a seguir aos vizinhos imediatos — «temos muito afeto pelos portugueses… há muitos outros que vêm muitas vezes», dizia o director da prova [R14]; no ano seguinte eram «cerca de cem» [R15]. E no Marathon des Sables, a constância é notável: grupos de 5 a 7 portugueses, edição após edição, durante toda a década — a «comitiva portuguesa», como lhe chamava a imprensa regional em 2014 [R20], sem nunca usar a palavra «armada».
4) Viajar em grupo: boleias, quartos, bandeiras
O que os números não mostram é a logística artesanal e colectiva que os tornava possíveis. Os documentos de época dão três retratos.
A comitiva do deserto. No MDS de 2017, o relato publicado de um dos cinco portugueses resume o modelo:
«Tudo foi mais fácil graças ao excepcional grupo de atletas Portugueses… pois sem a sua ajuda, durante toda a prova, não seria possível ter alcançado um bom resultado.»
— Carlos Coelho, O Praticante, Marathon des Sables 2017 [R22]Cinco desconhecidos ou quase, agregados pela nacionalidade e pela tenda, a funcionar como equipa informal durante uma semana.
Os oito da Cerdanya. Na VCUF de 2014 (214 km), o contingente português — oito atletas em 67 — partiu, correu e terminou por inteiro, numa prova em que 37% desistiram; a ficha que o autor apresentou meses depois numa palestra resumia-o à maneira da época: «Ambiente e Camaradagem Lusa: 200%». (Auto-citação [R24][R25].)
A bandeira de La Fouly. No UTMB de 2015, a mais de 100 km de percurso e a 2.000 km de casa, um grupo de portugueses instalou-se com uma bandeira no posto de La Fouly a apoiar quem passava — apoio que, no relato do autor, «vale horas de sono». (Auto-citação [R13].) Nenhuma organização o convocou: era o contingente a funcionar como rede de apoio espontânea.
Os «15 Magníficos» do Atlas. Em Outubro de 2016, um grupo de quinze portugueses (mais um, ausente da fotografia) viajou junto para o Ultra Trail Atlas Toubkal (105 km, 6.500 m de desnível, Alto Atlas marroquino, em semi-autonomia) — e auto-baptizou-se, com foto de grupo publicada dias depois: «os 15 magníficos». Entre eles, nomes que atravessam esta série: João Mota, João Faustino e Paulo Pires — o de Almada, não o treinador da APT (a regra dos dois Paulo Pires, aqui resolvida por testemunho directo) —, tratado no grupo por «El comandante» precisamente por ter sido ele a organizar a ida. E o seu epílogo é o arco deste dossiê em miniatura: nos anos seguintes foi, durante vários anos, o representante da prova em Portugal — o organizador de uma viagem de amigos transformado em elo oficial entre a prova marroquina e o pelotão português. (Auto-citação [R31]; identificação, alcunha e epílogo por testemunho do autor — Zona 3.) É o contingente auto-nomeado mais nítido que o arquivo dá: já não a «armada» dita por terceiros, mas o grupo a dar nome a si próprio.
5) O pelotão em números: partir, terminar, desistir
Onde há dados completos, a leitura é honesta nos dois sentidos. No UTMB de 2015, dos 47 portugueses que partiram, 30 terminaram e 17 desistiram — uma taxa de conclusão de 63,8%, essencialmente igual à da prova inteira (63,7% entre 2.563 partidas). [R12] O pelotão português não era nem mais frágil nem mais heróico do que o pelotão global: era parte dele. No extremo oposto, os 8 de 8 da VCUF de 2014, numa prova com 37% de desistências, mostram o que um grupo pequeno e preparado conseguia [R24]; e os 4 de 5 do Tor des Géants de 2011 lembram que, nas XL, a desistência esteve presente desde o primeiro contingente [R3].
É pouco para generalizar — e é dito: três provas não fazem uma estatística. Mas chega para fixar o método deste dossiê: contar partidas, chegadas e desistências juntas, porque a experiência do pelotão internacional é feita das três.
6) Três histórias com fonte: a estreia, a desistência, o regresso
Enquanto os testemunhos de terceiros não chegam (secção 8), o caso mais bem documentado disponível é o do próprio autor — e usa-se, assinalado, porque cobre exactamente o arco que o dossiê quer contar. (Auto-citações [R26][R27]; memória identificada como tal.)
A estreia (Ehunmilak, 2012). Primeira 100 milhas, 39h42m, 55.º entre 112 finishers — meio da tabela, duas noites, e a descoberta de que o problema não era a velocidade, era durar. A viagem a dois, sem estrutura, era a norma da época.
A desistência (Ronda dels Cims, 2017). Ao fim de 27h39m, abandono — a única mancha na série de 100 milhas, e a mais instrutiva: nas XL de alta montanha (170 km, 13.500 m de desnível), parar é uma decisão de gestão, não uma falha de carácter. Fica registada com o mesmo estatuto das chegadas.
O regresso (Ronda dels Cims, 2019). Dois anos depois, a mesma prova, terminada em 57h01m — mais de duas noites e meia em movimento, já na cauda longa da classificação. É a zona do pelotão de que este dossiê trata: onde terminar é o resultado.
O que falta — e só testemunhos de terceiros podem dar — é a experiência junto da barreira horária: os que chegaram a minutos do corte, os que foram cortados.
7) Relação com a elite, a Selecção e a APT
As três realidades vizinhas cruzavam-se nas mesmas provas sem se confundirem. No UTMB de 2015, no mesmo dia em que Armando Teixeira fazia 19.º da geral e Lucinda Sousa e Susana Simões chegavam 20.ª e 21.ª femininas, havia outros ~27 portugueses a terminar entre o meio e o fim da tabela — e 17 a não terminar. [R12] A elite é matéria do Dossiê 06; a Selecção, do 05; o grupo de treino APT, do 24. Este dossiê é o resto — que era quase toda a gente. A sobreposição concreta (quem do pelotão treinava na APT, quem viajava nos mesmos carros que a elite) é investigação partilhada com o Dossiê 24 e permanece em aberto.
8) Da raridade ao turismo desportivo — e o que ainda não sabemos
O arco quantitativo é claro: de 5 portugueses no Tor des Géants de 2011 para ~200 sorteados por ano na semana do UTMB no fim da década [R3; R6; R11]. Pelo caminho, a ida lá fora deixou de ser aventura de pioneiros e passou a prática anual com agências, sorteios, running stones e pacotes — a mecânica de qualificação que hoje condiciona o calendário do pelotão é matéria do Dossiê 22 (em preparação), e a leitura turístico-económica pertence ao Dossiê 36. Lacunas principais:
- A série do UTMB tem buracos — 2007–2009 e 2011–2012, e os finishers de 2017–2019. A via está agora validada: a contagem por nacionalidade na base DUV funcionou edição a edição (2003–2006 e 2010) [R28][R30] — falta varrê-la nos anos restantes; e os tópicos do fórum d'O Mundo da Corrida no Arquivo.pt (compilações de Orlando Duarte) cobrem o lado dos inscritos [R9][R17].
- O registo variante da DUV para o UTMB 2006 (secção 1) — a identidade está reconciliada (ficha ITRA/UTMB + memória da comunidade); falta assinalar o artefacto à DUV e, idealmente, confirmar com o próprio.
- Ronda dels Cims por edição, TDG pós-2011, Transgrancanaria 2015 (~30, por confirmar) e os 7 madeirenses de 2017 (fonte 404).
- Alargar a contagem DUV às restantes provas-caso (TDG, Ehunmilak, Diagonale, Lavaredo) e cruzá-la com a extensão do arquivo de resultados da série.
- Os três testemunhos de pelotão exigidos pelo brief (estreia de outrem, barreira horária, DNF) — sem eles este dossiê não se publica.
- A logística dos clubes em viagem e o papel das mulheres nos contingentes — o registo mais antigo é agora Célia Azenha no TDG 2011 [R3], seguida de Carmen Pires na Ehunmilak de 2013 [R17]; a linha feminina do pelotão internacional merece tratamento próprio — cruzar com o Dossiê 07.
Contactar: Hélder Lopes Ferreira (o primeiro finisher português documentado do UTMB — e o único das edições de 2004 e 2006; mais de vinte anos de pelotão para contar na primeira pessoa); Orlando Duarte (as compilações do fórum d'O Mundo da Corrida — a melhor fonte quantitativa da década); Fernando Andrade (Cidadão de Corrida — o registo do TDG 2011 e a primeira «armada lusa» escrita em trail); Jorge Serrazina (40.º no TDG 2011 — e finisher do UTMB de 2010); veteranos das comitivas do Marathon des Sables (Carlos Coelho relatou 2017 publicamente); os «15 Magníficos» do UTAT 2016; e três perfis de pelotão (estreia, barreira horária, DNF), com consentimento e revisão de citações.
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